
Chama-se Mateus João Neto, tem 65 anos, e é referenciado como tendo sido o mentor da sugestão do apelido “Palancas Negras” à Selecção Nacional de Futebol de Honras.
O antigo pugilista do Benfica de Luanda, adepto ferrenho do Petro de Luanda, hoje médico reformado, confessou estar muito orgulhoso por ver concretizado o desejo manifestado há 46 anos, em carta dirigida a este jornal, naquele longínquo ano de 1978.
Na carta viralizada nas redes sociais, escrita em vésperas do jogo de Angola frente ao conjunto de Cuba, quando tinha apenas 19 anos, em que é visível a assinatura do seu nome e pseudónimo “Africano”, este último adoptado nos tempos de pugilista, Mateus João Neto justificava que “o nome da nossa Selecção Nacional é um assunto pertinente”, razão pela qual, estava a sugerir que se chamasse “Palancas Negras”.
“Já ouvi falar dos ‘Águias Verdes’ da Nigéria, ‘Diabos Vermelhos’ da República do Congo, ‘Sily’ da Guiné Conakry e, também, vou falar da equipa nacional do Zaíre ‘Os Leopardos’. Todo o povo angolano sabe que somos donos de uma espécie rara de animal ‘Palancas Negras’. Que tal este nome para a nossa Selecção? Espero que o Jornal de Angola interfira junto do CSEFD (Conselho Superior de Educação Física e Desporto) e responda qualquer coisa”, lê-se, ainda, na missiva, publicada pelo diário oficial do país, na edição de 28 de Setembro de 1978.
“Na altura, era um grande leitor de jornais e revistas. Lia muito e demasiado. Trabalhava no Ministério do Comércio Externo e recebíamos publicações de várias partes do mundo, também o Jornal de Angola caía lá constantemente”, disse o antigo pugilista, para em seguida acrescentar que se interessava bastante pela revista Jeune Afrique, que abordava sobre os apelidos das selecções africanas.
“Foi assim que me ocorreu escrever a carta para o Jornal de Angola, em que cito, inclusive o nome dos Leopardos, apelido da selecção do antigo Zaíre, hoje República Democrática do Congo (RDC). E como o meu foco era as denominações das selecções de futebol, daí veio-me a ideia de escrever uma carta a sugerir que a nossa Selecção fosse chamada de Palancas Negras”, explicou.
Mateus João Neto disse, ainda, ter ficado à espera que a carta enviada ao Jornal de Angola tivesse uma resposta imediata, que nunca chegou a receber. Mas, o facto é que, passados cerca de sete a oito anos, após a publicação da carta no Jornal de Angola, para o seu espanto, a Selecção Nacional de Futebol de Honras adoptaria o apelido de “Palancas Negras”.
“Estou muito orgulhoso pelo facto de ter dado um nome à nossa selecção”, confessou, visivelmente emocionado.
“Apesar disso, nunca cheguei a ser contactado, nem pelo Conselho Superior de Educação Física e Desporto (CSEFD), na altura, creio ser dirigido pelo professor Sardinha de Castro, se a memória não me falha, e nem sequer pela Federação de Futebol”, lamentou.
“Pensei, na altura, que fosse censura. Não levantei muita discussão em relação a isso. Era um período muito complicado”, brincou, sorridente o actual médico pediatra.
“Fiz um recorte do jornal e mostrei aos meus amigos do bairro e todos estavam informados em relação ao assunto”, disse, para explicar o facto de hoje, 46 anos depois, o recorte circula nas redes sociais.
Cunhado ajuda a disseminar carta
Questionado sobre em que circunstâncias a carta escrita há 46 anos, apenas agora se tornou viral nas redes sociais, Mateus João Neto revelou ter sido o cunhado, irmão da esposa, que, após estar no seu consultório, ao ouvir a sua conversa com um comentador da Rádio Cinco, sobre a mesma carta e as incidências da atribuição do nome Palancas Negras à Selecção Nacional de Futebol de Honras, decidiu tornar o assunto público.
“O meu cunhado veio à consulta com a criança, na minha clínica, escutou a conversa com o Valter Silva e resolveu publicar a foto do recorte do jornal, a minha fotografia e o texto que está a circular nas redes sociais”, explicou o pediatra neonatalogista.
Antigo pugilista aguarda reconhecimento público
Mateus João Neto espera merecer o reconhecimento público, enquanto cidadão responsável por sugerir a designação “Palancas Negras”, ao combinado nacional de futebol.
“Evidentemente, espero o reconhecimento e que seja público para que conste e a sociedade fique a saber. Espero, igualmente, que o reconhecimento seja no sentido de poder receber convites para acompanhar alguns jogos da selecção”, disse o antigo pugilista do Benfica de Luanda, para quem a carreira desportiva nunca esteve no foco dos objectivos.
“Não prossegui a carreira desportiva, porque o meu foco era mesmo a medicina. Fui apenas pugilista amador e éramos orientados, na altura, pelo professor António Romano, António dos Santos e o cubano Máximo, dos quadros humanos”, revelou o especialista em Pediatria Neonatalogista.
“A minha carreira na Medicina correu muito bem. Atingi a graduação máxima na classe médica, sou reformado como médico-chefe de Serviço em Pediatria”, acrescentou, regozijado.
Adepto confesso do Petro de Luanda, não dispensa um jogo dos tricolores, a quem jura fidelidade. Sempre que pode, vai ao estádio, principalmente nos dérbis e clássicos do Girabola, mas sobretudo nos desafios da Selecção Nacional e das competições africanas.
Admitiu que a qualidade do futebol dos tempos actuais difere um pouco do “antigamente”, tendo exaltado as referências de craques como Dinis, Geovety, Barros, Carlos Alves, Chimalanga, Napoleão, Ângelo e Inguila, que faziam dos jogos da selecção “um hino ao futebol”.
“Fiquei satisfeito, muito satisfeito mesmo, por ter sido aceite o nome de Palancas Negras, por isso, sempre que Angola jogasse, garantia a todos que a nossa selecção vai ganhar. Mesmo em períodos de menos euforia, em que os resultados não eram dos melhores, sempre acreditei na vitória da nossa selecção”, referiu.
in JA