
Há um conhecido chiste usado no meio futebolístico – “Previsões só depois do jogo” – que não será aconselhável replicar no caso da futura Presidência de Donald Trump, que, a partir do próximo ano, voltará a estar à frente da Casa Branca.
De facto, quanto mais tarde se tentarem prever as consequências do seu regresso ao cargo político mais importante da ainda maior potência mundial, pior para todos. De facto, talvez seja tarde demais.
Neste artigo, vou, por isso, mencionar algumas previsões do que podemos esperar da nova Presidência de DonaldTrump, sem fazer, obviamente, futurologia, mas atendo-me a alguns factos conhecidos.
Por uma questão de clareza, vou separar o plano interno do externo, ou seja, mencionarei primeiro as possíveis consequências da vitória de Trump no plano interno e, em seguida, no plano externo (das Relações Internacionais e da Geopolítica).
Analisar as primeiras nomeações de Trump, já anunciadas, ajudar-nos-á a tentar perceber as alterações que certamente acontecerão a partir de 20 de Janeiro do próximo ano. Vou citá-las: Elon Musk, para chefiar um inédito Departamento de Eficiência (da Administração); Matt Gaetz, para Procurador-Geral; Pete Hegseth, para Secretário da Defesa; Tulsi Gabbard, para directora da CIA; e Robert Kennedy Jr, para Secretário da Saúde.
Musk, oligarca americano de origem sul-africana, o homem mais rico do mundo, conhecido por afirmações como “faremos golpes de Estado onde quisermos” (a fim de garantir o acesso, pelos EUA, aos recursos naturais de qualquer país), é também o dono da rede social X (ex-Twitter), que, nas últimas eleições, desempenhou (ao lado da cadeia televisia FOX) um papel chave na acção de desinformação da campanha de Trump.
O seu papel na futura administração, mais do que previsível, é óbvio: reduzir o Estado ao mínimo (o que, entre outras consequências, afectará milhões de trabalhadores, em especial negros e hispânicos); tentar eliminar, através de legislação federal, as políticas sociais existentes em vários estados americanos, governados por democratas; e, de um modo geral, realizar uma gestão favorável e “amiga” dos grandes grupos empresariais, como a desregulamentação e a diminuição dos impostos para os mais ricos.
Apenas para dar um exemplo, uma das medidas mais impensáveis e perversas que já está no radar será o desmantelamento do Departamento de Educação, criado por Jimmy Carter para coordenar o ensino público e que tem sido responsável por assegurar o acesso à educação básica aos grupos sociais mais desfavorecidos.
Quanto às nomeações de Gaetz, Hegseth, Gabbard e Kennedy Jr, o jornalista David Remnick, em artigo publicado no passado dia 17 no conhecido The New Yorker, diz que as mesmas “são um sinal dos ressentimentos de Trump e da sua sede de desforra”.
Acrescenta ele: – “As nomeações de Trump – no seu endosso imprudente a indivíduos perigosamente desqualificados – parece o exemplo mais flagrante de ´trolling’ vingativo desde o surgimento da Internet”.
Para Remnick, tudo indica – e essa, a concretizar-se, será a mais grave consequência interna da vitória de Donald Trump no passado dia 5 de Novembro – que estas nomeações (e provavelmente outras que serão feitas) estão relacionadas com os seus planos para afastar os oficiais e enfraquecer as instituições (inclusive as Forças Armadas!) que poderão opor-se aos seus excessos e abusos à frente da presidência. “Os nomeados não serão assessores; na verdade, eles são uma tropa de choque”, escreveu o articulista do The New Yorker.
Tudo aponta, por conseguinte, para que, no plano interno, o regressado Presidente da maior potência do mundo, auto-proclamada como o farol da democracia, pretenda governar como um autocrata, limitando as liberdades civis, incluindo as académicas (já há sinais nesse sentido nas universidades de vários estados republicanos), sem esquecer a sua desconfiança em relação à ciência, de que a nomeação de Robert Kennedy Jr, um conhecido anti-vacinas, para secretário da Saúde, é uma espécie de tautologia.
A propósito, Kennedy Jr já anunciou que vai suspender os programas de pesquisa sobre doenças como o Alzheimer e outras patologias.
No plano externo (das relações internacionais e da geopolítica), tenho lido, sobretudo fora dos EUA, algumas vozes ingénuas (no mínimo) jurando que Trump vai acabar com todas as guerras, pois “é um comerciante e, como tal, só lhe interessam os negócios”(!). É difícil confrontar esse tipo de argumentos, que pertencem mais ao domínio da crença do que da razão.
Limitando-me, por ora, aos dois grandes conflitos actuais, não me repugna admitir, vou dizê-lo, que o futuro Presidente americano não esteja interessado em prolongar a guerra na Ucrânia, por razões peculiares, que justificarão uma pesquisa e um texto à parte.
Mas tenho poucas dúvidas, por exemplo, de que a situação no Médio Oriente poderá vir a agravar-se ainda mais e que Israel poderá mesmo, eventualmente,, ocupar toda a Palestina (Trump é um adepto da Grande Israel), transformando os palestinos em mais um povo errante.
Quanto aos outros conflitos mais ou menos esquecidos, sobretudo em África, não espero da parte do novo Presidente americano a mínima preocupação em relação aos mesmos.
Por fim, é bom não esquecer a Ásia, onde Trump está “mortinho” por uma guerra com a China, desde logo comercial, mas que, e tal como a História nos ensina, se poderá transformar num conflito militar (as bases militares e os navios americanos e da OTAN não estão no Pacífico a turismo).
Um lembrete aos ingénuos e/ou optimistas: quem manda fazer a guerra ou a paz nos Estados Unidos é o complexo industrial-militar; por conseguinte, se este quiser manter as guerras, elas serão mantidas.
*Jornalista e escritor