
Luanda está oficialmente em modo “tolerância de ponto”. Não por festa ou por celebração nacional, mas porque o Presidente dos Estados Unidos de América, Joe Biden, decidiu incluir Angola no seu itinerário.
Durante dois dias, o coração económico do país está praticamente paralisado. Trânsito interditado, comércio suspenso, e uma sensação de que a cidade foi transformada numa montra polida, escondendo cuidadosamente a realidade amarga que os cidadãos enfrentam diariamente.
A ironia disto tudo? O presidente norte-americano está aqui, supostamente, para trabalhar. É claro que ninguém explica em detalhes que tipo de trabalho ele vai desenvolver entre as avenidas bloqueadas e os cidadãos presos em casa.
Talvez um seminário secreto sobre como ignorar com mais eficácia a pobreza extrema enquanto se passeia pelas principais artérias da cidade? Ou quem sabe, uma aula prática sobre como uma visita presidencial pode tornar a vida dos cidadãos ainda mais insuportável?
As medidas anunciadas pelo Governo Provincial de Luanda são justificadas com a “segurança” e a “mobilidade”. Mas vamos ser sinceros: o trânsito caótico da capital, que já é insuportável num dia normal, agora parece uma piada de mau gosto.
Os desvios de trânsito transformam deslocações simples numa jornada épica, e quem depende do mercado informal para sobreviver vê-se sem alternativas. Afinal, como é que alguém que ganha o pão de cada dia vendendo tomates e verduras na zunga vai sobreviver sem poder trabalhar dois dias?
Perguntar-se-á: o que ganham os angolanos com esta visita? O anúncio de uma nova parceria? Investimentos? Talvez uma selfie de Biden com um governante local?
Porque, enquanto isso, a realidade continua cruelmente inalterada. Famílias inteiras procuram comida no lixo, os hospitais funcionam como matadouros pelos excessos de negligências médicas, e o desemprego paira como uma sombra esmagadora.
Se Biden tem mesmo a “noção do que se passa em Angola”, como alguns querem acreditar, então esta visita torna-se ainda mais insultuosa. De que adianta uma comitiva luxuosa e ruas polidas se as pessoas mal têm água potável?
Fechar avenidas e proibir o comércio não resolve o problema da fome nem da miséria. Pelo contrário, agrava-o. Durante esses dois dias, muitos angolanos estarão literalmente sem meios para sobreviver. É uma decisão tão prática quanto pedir a alguém para segurar a respiração por 48 horas porque o ar está poluído.
No fim, fica a pergunta: esta visita representa um marco diplomático ou apenas mais um espetáculo cuidadosamente coreografado para distrair o público da dura realidade? Porque para os angolanos, a visita de Biden parece mais uma sentença do que uma celebração.
Se o governo angolano realmente estivesse preocupado com o bem-estar do povo, talvez usasse a mesma energia que dedicou à organização desta visita para combater a pobreza, garantir saúde e educação ou, pelo menos, respeitar os trabalhadores informais que sustentam a economia local.
Portanto, caro Joe Biden, desfrute da sua estadia em Luanda. Mas não se esqueça: enquanto o senhor é conduzido pelas avenidas vazias, há milhões de angolanos que não podem dar-se ao luxo de parar. Afinal, o luxo de uma pausa é para poucos, e certamente não para aqueles que lutam diariamente para sobreviver.