
Imaginemos um cenário, num município onde o lixo não é descartado corretamente, onde as águas estagnadas se amontoam entre as valas abertas e onde os mosquitos encontram morada para perpetuar doenças.
Agora imaginemos um cenário diferente: ruas limpas, águas correndo, livremente, em sistemas de drenagem bem tratados e a presença de profissionais que, silenciosamente, transformam a saúde das comunidades. Nesse último quadro, encontramos um herói pouco reconhecido: o médico veterinário.
Quando falamos de saneamento básico, a imagem mais comum é a de técnicos trabalhando com redes de esgoto ou campanhas de limpeza urbana.
Poucos sabem que os médicos veterinários têm um papel essencial nesse contexto, especialmente em municípios que enfrentam os desafios do controlo de zoonoses e vectores, como os mosquitos transmissores da malária.
A malária, velha conhecida das nossas comunidades, é mais do que uma doença; é um reflexo da negligência com o ambiente. Cada poça de água, cada pneu abandonado, cada valeta esquecida é um convite para o ciclo ininterrupto dessa enfermidade. E aqui entra o veterinário, aquele que, além de cuidar dos animais, actua como guardião da Saúde Pública.
Com olhos treinados para compreender os ecossistemas e os seus riscos, o médico veterinário é formado para identificar criadouros de mosquitos, sugerir práticas para a gestão segura de resíduos orgânicos e liderar programas de educação comunitária.
Ele enxerga o que muitos não vêem: que o combate às doenças começa no ambiente, na eliminação dos problemas na raiz, antes que eles cheguem aos hospitais.
Mas, há um grande “porém”. Ainda falta, aos municípios, coragem para integrar esses profissionais de forma mais ampla. Falta reconhecer que os médicos veterinários não são apenas especialistas em animais, mas também aliados indispensáveis no controlo de doenças humanas. Para mudar isso, precisamos de soluções práticas.
Primeiro, é urgente que os municípios possam contratar e capacitar médicos veterinários. Eles precisam de estar onde a vida acontece: nos mercados, nos matadouros (e salas de abate), nas áreas de risco.
Segundo, é essencial que esses profissionais tenham voz activa nas Administrações Municipais, contribuindo para estratégias de controlo ambiental e sanitário.
Terceiro, as comunidades precisam de saber quem são esses heróis anónimos. Divulgar a relevância de seu trabalho é tão importante quanto as campanhas de vacinação.
Com essa integração, os hospitais deixarão de ser o destino de casos de malária e outras doenças evitáveis. Em vez disso, poderão dedicar-se a problemas mais complexos, enquanto as acções preventivas manteriam as comunidades saudáveis.
É um ciclo virtuoso: menos doença, mais qualidade de vida e, claro, menos gastos públicos com tratamentos emergenciais.
No fim das contas, a luta contra a malária – e tantas outras ameaças – começa em cada valeta limpa, em cada decisão acertada de quem governa, e na presença de quem sabe o que está a fazer.
Os médicos veterinários estão prontos para esse desafio. Cabe a nós, como sociedade, abrir-lhes as portas e reconhecer que saúde não é só ausência de doença. É um esforço colectivo onde todos, até mesmo os pequenos mosquitos, têm o seu lugar.
E, quando vencermos essa batalha, saberemos que foi o trabalho silencioso desses profissionais que deu o primeiro passo. Afinal, o futuro de um país saudável começa no cuidado com o presente.
*Mestre em Segurança Alimentar, docente universitária e médica veterinária