Razão pública e cidadania democrática – Garcia Matondo Vita Bige
Razão pública e cidadania democrática - Garcia Matondo Vita Bige
Garcia Bige

A razão pública é a espinha dorsal de uma cidadania democrática plena, sendo o meio pelo qual governantes e governados se encontram, dialogam e constroem uma visão coletiva de justiça e bem comum.

John Rawls define-a como o conjunto de princípios e normas que orientam os cidadãos no contexto de uma democracia constitucional, permitindo-lhes justificar as suas decisões e ações em termos que os outros possam aceitar como razoáveis – (Rawls, 1997, p. 212-213).

Nesse sentido, a razão pública fomenta a convivência entre opiniões diversas e estimula a reciprocidade, característica essencial de uma sociedade razoável.

A cidadania democrática, enquanto ideal, exige mais do que a coexistência pacífica; demanda inovação e a capacidade de ouvir o outro.

Para Rawls, os cidadãos de uma democracia devem transcender as suas convicções pessoais, religiosas ou filosóficas e centrar-se numa concepção pública de justiça que permita o consenso sobre o essencial.

Este “consenso de sobreposição” é descrito como a convergência de doutrinas razoáveis em torno de princípios comuns, sem comprometer a diversidade interna dessas doutrinas (Rawls, 2017, p. 27).

Os Limites da Razão Pública e o Dever de Civilidade – Rawls sublinha que a razão pública impõe limites claros: os cidadãos não podem invocar a “verdade absoluta” das suas crenças para dominar a esfera pública.

Este limite, longe de ser uma restrição, é a garantia de que o debate democrático será inclusivo e orientado para o bem comum.

Nas palavras de Rawls, o dever de civilidade exige que os cidadãos justifiquem as suas escolhas de forma compreensível para os demais, fundamentando-as em valores partilhados, como liberdade e igualdade (Rawls, 1997, p. 213).

Este dever é particularmente visível no ato de votar, que, segundo Rousseau, não é um exercício individualista, mas uma expressão do ideal colectivo: “o ato de votar exprime o ideal da nossa opinião acerca de qual das alternativas em jogo melhor promove o bem comum” (Rousseau, 2017, p. 97).

Nesse sentido, o voto fundamentado na razão pública transcende o interesse privado, moldando as decisões políticas mais relevantes de forma cooperativa e imparcial.

O caso de Angola: Razão pública e desafios contemporâneos

O desafio de consolidar o ideal da cidadania democrática pela razão pública revela-se de forma aguda no contexto de Angola, um país em transição contínua, em busca de equilíbrio entre as demandas internas e o cenário geopolítico global.

A visita recente do Presidente Joe Biden, de 2 a 4 de dezembro de 2024, é um marco que transcende a simbologia diplomática, tornando-se uma oportunidade para refletirmos sobre o papel da razão pública na construção do futuro nacional.

Este evento, ao sinalizar estabilidade e reconhecimento internacional, também inaugura possibilidades concretas, como o desenvolvimento do Corredor do Lobito.

Esta iniciativa promete não apenas fortalecer as infra-estruturas regionais, mas também dinamizar o comércio com a República Democrática do Congo e a Zâmbia, elevando as receitas e criando bases para uma prosperidade mais ampla.

Contudo, a relevância de tais iniciativas deve ser analisada sob o prisma do bem comum, evitando que se transformem em bandeiras de disputas partidárias ou narrativas polarizadoras.

O debate público que negligencia a razoabilidade em nome de interesses imediatistas abdica de um dos pilares fundamentais da democracia: a capacidade de projetar decisões no horizonte colectivo e a longo prazo.

Como John Rawls nos lembra, o exercício legítimo do poder político deve ser ancorado em princípios partilhados que sejam aceitáveis por cidadãos livres e iguais: “o bem comum não é apenas um cálculo utilitarista, mas uma expressão da nossa vontade de convivência sob a égide da justiça” (Rawls, 1997, p. 215).

Nesta linha de pensamento, Charles Taylor amplia a questão, sugerindo que a razão pública deve ser um espaço para transcender os imediatismos políticos: “existe um lugar para se estar, mentalmente, fora da política, a partir do qual se poderia, por assim dizer, julgar a sua ação e a sua prática – ‘pela esfera pública’” (Taylor, 2010, p. 90).

Essa visão convida os angolanos a reavaliar as suas prioridades políticas, reconhecendo que o impacto de iniciativas como o Corredor do Lobito não pode ser medido apenas pelos resultados imediatos, mas pelo potencial transformador que têm para a nação.

Não é razoável esperar, por exemplo, que a visita do Presidente Biden resolva problemas estruturais como a fome ou a pobreza de forma direta e imediata. Contudo, ela abre caminhos para parcerias estratégicas que podem, no longo prazo, contribuir significativamente para enfrentar essas questões.

Estados soberanos, como Angola, devem aproveitar tais oportunidades para articular políticas públicas eficazes, orientadas pela sua realidade concreta e pelos interesses de seus cidadãos.

A razão pública, portanto, é uma ferramenta essencial para transformar eventos pontuais em catalisadores de mudança. Isso exige um compromisso coletivo com o diálogo informado, a rejeição de simplismos e a busca de soluções que, respeitando as circunstâncias locais, projetem Angola para um futuro mais justo e sustentável.

Afinal, como nos ensina a filosofia política, a verdadeira força de uma nação reside na sua capacidade de pensar, decidir e agir em conjunto, com os olhos postos naquilo que nos une como sociedade.

O Ideal de uma Sociedade Bem Ordenada – Segundo Rawls, o cumprimento do dever de civilidade e a valorização dos elevados valores políticos produzem uma sociedade bem ordenada, onde os cidadãos se orientam por princípios que acreditam serem razoáveis para todos (Rawls, 1997, p. 214).

Esta visão de sociedade exige a promoção da reciprocidade e da cooperação, pilares de uma cidadania democrática que reconhece a diversidade como fonte de enriquecimento e não como obstáculo.

O ideal da razão pública, como Rawls sublinha, rejeita a visão simplista que trata o voto e a deliberação como questões privadas. Em vez disso, assume-os como responsabilidades públicas, remetendo ao conceito de Rousseau de um contrato social baseado na busca do bem comum.

Assim, os cidadãos são chamados a transcender as suas diferenças e a colaborar ativamente na criação de soluções para os desafios mais urgentes da sociedade.

O caminho para o ideal da cidadania democrática pela razão pública passa pela superação do egocentrismo político e pelo compromisso com a cooperação social. Como destaca Rawls, “o respeito pelos limites da razão pública é exigido por certos direitos e liberdades básicos e pelos seus correspondentes deveres” (Rawls, 1997, p. 215).

Em Angola, como em qualquer democracia, o progresso depende da capacidade dos cidadãos de debater com base na razão pública, aproveitando a diversidade como fonte de inovação e justiça.

Portanto, alcançar este ideal não é apenas um desafio teórico, mas uma prática contínua de escuta, crítica construtiva e solidariedade, visando o bem-estar social e a estabilidade política que beneficiam a todos. Angola serve para todos e todos devem servir Angola, que merece o bem-estar social de todos.

*Docente no Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED) do Uíge

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