
Abílio José Pedro, conhecido por “Ti Dago”, perdeu a vida enquanto estava detido na 9.ª Esquadra de Polícia Nacional, vulgo Esquadra da Lixeira, no município de Sambizanga. A morte, ocorrida a 10 de Janeiro, está a levantar sérias questões sobre abuso de poder, negligência e corrupção por parte das autoridades envolvidas.
Segundo a família, “Ti Dago” foi detido Ti Dago foi detido na manhã do dia 01 de Janeiro do ano corrente, após uma altercação com a sua ex-companheira.
Conforme as testemunhas, o desentendimento começou quando o malogrado desconfiou de um telefonema recebido pela mulher e tentou receber o telemóvel dela à força. O conflito escalou, resultando na destruição do aparelho.
Irritada, a mulher chamou agentes da polícia que patrulhavam a área no âmbito da “Operação N24”, e acusou Abílio de agressão, levando os agentes a detê-lo.
A família diz que Abílio não resistiu à detenção e teria dito aos agentes: “O meu pai é da polícia, sei como funcionam os procedimentos. Não precisam de me tratar como um criminoso. Vou até à esquadra sem problemas.”
No entanto, ao chegar à esquadra, Abílio foi colocado numa cela juntamente com outros detidos. Durante os dias que esteve sob custódia, não foi ouvido nem formalmente acusado de qualquer crime.
Mas, antes de tudo, a família procurou repetidamente informações sobre o estado de Abílio, mas encontrou respostas evasivas tanto na esquadra como na Procuradoria-Geral da República (PGR).
Num dos encontros com um escrivão da PGR, foi-lhes informado que o jovem estava dado como desaparecido nos registos, apesar de estar detido na cela.
Corrupção e extorsão
Um familiar, identificado como porta-voz da família, denunciou ao Imparcial Press que um escrivão da PGR, conhecido como “Catala”, exigiu subornos para libertar Abílio.
“Ele começou por pedir 100.000 kwanzas e depois reduziu o valor para 50.000 e 30.000. Mesmo assim, não tínhamos como pagar. Expliquei que estávamos sem recursos, mas ele insistiu que sem dinheiro não haveria libertação,” afirmou ao Imparcial Press uma fonte familiar.
A família suspeita que o desaparecimento do processo foi deliberado, uma forma de justificar a detenção prolongada e de obter benefícios financeiros.
“É inaceitável que o processo de um detido desapareça. Isto foi claramente arquitetado para prolongar a sua prisão e obter dinheiro”, acusou o familiar.
A 12 de Janeiro, a família foi informada por terceiros sobre a morte de Abílio, que teria ocorrido devido a agressões na cela por outros detidos. O corpo foi removido no dia seguinte e levado para a morgue sem qualquer comunicação oficial aos familiares.
“Como é possível que ele estivesse preso por 10 dias sem qualquer processo? Como é que ele morreu na cela sem que a polícia interviesse? Ninguém nos informou e ninguém foi responsabilizado”, desabafou o tio de Abílio.
A família também questiona como o jovem foi dado como desaparecido nos registos da PGR enquanto estava na cela. “Claramente houve tentativa de encobrir o caso. Queremos saber onde estavam os agentes quando ele era espancado”, afirmou um parente.

Apelo por justiça
Os familiares de Abílio exigem uma investigação independente e responsabilização dos envolvidos, incluindo os agentes da polícia e os funcionários da PGR. “Já perdemos o Abílio, mas não podemos aceitar que os culpados fiquem impunes. Queremos justiça,” declarou um familiar.
O Imparcial Press procurou ouvir o comandante da 9ª Esquadra, inspector-chefe Victor Cadete, mas não foi possível.
Este episódio revela falhas graves no sistema de justiça e segurança pública de Angola, levantando preocupações sobre o abuso de poder e a falta de respeito pelos direitos humanos.