Suspensão de importações imposta pelo MINDCOM cria impasse no sector da saúde
Suspensão de importações imposta pelo MINDCOM cria impasse no sector da saúde
rui mingues

Uma recente decisão administrativa do Ministério da Indústria e Comércio (MINDCOM) está a causar preocupação e constrangimento nos bastidores do sector da saúde em Angola, sobretudo entre os operadores da cadeia de fornecimento de produtos médico-hospitalares.

A Ordem de Serviço n.º 004/2025, assinada pelo ministro Rui Miguêns de Oliveira, determinou a suspensão imediata do licenciamento para a importação de um conjunto de produtos, incluindo material consumível hospitalar, com o objectivo de apoiar a produção nacional e reduzir a dependência externa.

A medida, embora alinhada com o espírito do Regime Jurídico de Incentivo à Produção Nacional, tem causado efeitos colaterais que não foram suficientemente antecipados.

Entre os sectores mais atingidos está o farmacêutico e hospitalar, onde diversos operadores viram cargas de produtos retidas pela Administração Geral Tributária (AGT), apesar de estarem autorizadas e licenciadas pela Agência Reguladora de Medicamentos e Tecnologias de Saúde (ARMED), entidade tutelada pelo Ministério da Saúde (MINSA).

Fontes internas da ARMED, que preferem manter-se no anonimato, confirmaram ao Imparcial Press que a decisão do MINDCOM não foi coordenada com o órgão regulador do sector da saúde, o que levanta dúvidas quanto à legitimidade e legalidade da aplicação da medida a bens considerados críticos e sensíveis.

“O MINDCOM apenas tem competência para licenciar as facturas comerciais, não para regular produtos médicos ou hospitalares, cuja responsabilidade cabe ao MINSA através da ARMED”, explicou um quadro sénior da instituição.

A ausência de uma concertação interministerial parece ter deixado a ARMED numa posição desconfortável, pois os importadores dirigem-se agora em massa ao órgão regulador à procura de soluções para desbloquear mercadorias – muitas delas urgentes para hospitais e clínicas -, sem que haja uma resposta clara ou uma saída administrativa viável.

“Estamos a assistir a um verdadeiro abarrotamento de solicitações, sem poder de decisão para intervir ou reverter os efeitos da ordem do MINDCOM”, revelou a mesma fonte.

Especialistas alertam para os riscos de ruptura no fornecimento de insumos médicos essenciais, caso o impasse se mantenha. Há também críticas à forma como o assunto está a ser gerido institucionalmente, com falta de acção por parte da liderança da saúde, nomeadamente da ministra, cuja intervenção directa seria fundamental para resolver o conflito de competências entre os dois ministérios.

Até ao momento, nenhum pronunciamento oficial foi feito pelo Ministério da Saúde ou pela ARMED. A Ordem de Serviço continua em vigor, aplicando-se também a outros produtos como farinhas, óleos vegetais e uniformes, numa lógica de protecção da produção nacional.

No entanto, quando o proteccionismo económico colide com a necessidade de garantir o acesso a cuidados de saúde, o debate público torna-se inevitável.

“A medida tem mérito económico, mas não se pode aplicar cegamente a sectores vitais como o da saúde”, comentou um economista consultado pelo Imparcial Press.

A falta de cobertura mediática sobre o tema tem mantido a questão longe da atenção pública, mas os impactos no terreno começam a ser visíveis. Se não houver um ajuste urgente na aplicação da medida, ou uma clarificação de competências entre ministérios, o sistema de saúde poderá enfrentar desafios adicionais nos próximos meses.

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