Quando a democracia surpreende — Rui Kandove
Quando a democracia surpreende — Rui Kandove
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“O milagre não é exclusivo da oposição — também pode vir de quem está a governar.”

A frase, proferida por Adalberto Costa Júnior (ACJ), líder da UNITA, num dos momentos de maior lucidez política do debate público recente, poderia muito bem ter vindo de um estadista veterano de uma democracia consolidada. Mas veio de um opositor num contexto africano marcado por décadas de polarização. E isso, convenhamos, é surpreendente.

Durante muito tempo — e aqui assumo a honestidade intelectual de um mea culpa — mantive uma visão crítica, e até enviesada, sobre ACJ. Via-o como alguém excessivamente autocentrado, vaidoso, talvez demasiado teatral.

Uma imagem forjada não apenas pelas minhas impressões pessoais, mas também alimentada por comentários de terceiros e pela construção retórica dos seus opositores, que muitas vezes o pintam como um político populista e sofista, à moda grega.

Contudo, posições mais recentes, como as que foram expressas na terceira edição do programa radiofónico Economia sem Makas (emitido pela Rádio MFM), mostram um lado diferente do político e do cidadão.

ACJ revelou, por exemplo, ter recusado uma proposta de trabalho de uma multinacional alemã, com uma remuneração altamente atrativa, em nome do compromisso com Angola.

Seria fácil, para qualquer político, fazer uso simbólico de tais episódios — mas, neste caso, o contexto e a coerência discursiva apontam para algo mais profundo: uma visão de país e uma ética de serviço público que merecem ser reconhecidas, mesmo por quem dele discorda.

Mais ainda: ao afirmar que, se vier a liderar o governo, não excluirá militantes do MPLA e poderá até integrá-los em funções de Estado, Adalberto mostra que compreende uma lição essencial da democracia — a de que o poder não deve servir como instrumento de vingança, mas como espaço de reconstrução nacional.

Citou, a propósito, a Frente Patriótica Unida como exemplo dessa pluralidade. E lembrou, com pertinência, que já há membros da sociedade civil em instituições como o Tribunal de Contas ou a ERCA, mesmo que isso tenha desagradado a setores mais conservadores do seu próprio partido.

ACJ disse ainda que não via qualquer problema em construir uma agenda de consenso supra governos temporários. Este tipo de posicionamento público não é apenas estratégico — é sintomático de um discurso que começa a amadurecer em Angola.

A julgar pelo número crescente de intervenções críticas, cívicas e informadas nos espaços públicos (das redes sociais aos fóruns universitários), podemos estar a assistir ao início de uma nova etapa na consciência política do povo angolano.

Uma etapa em que os eleitores estão mais atentos, menos manipuláveis, e os líderes políticos mais pressionados a justificar cada gesto com responsabilidade institucional.

Há ainda muito caminho por percorrer, sem dúvida. Mas, se até a oposição começa a ser vista com outros olhos — e se figuras como ACJ se mostram capazes de surpreender pela positiva — talvez, só talvez, a democracia esteja a ganhar.

*Jornalista

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