
Já lá vão praticamente seis meses desde que Donald Trump chegou à Casa Branca e a sua promessa de acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em menos de 24 horas, esfumou-se sem que, pelo menos, um cessar-fogo duradouro tenha sido alcançado.
Não que Trump nada tenha feito e não queira realmente acabar com o conflito, mas porque, de tal forma intrincado, ultrapassa o simples querer do novo inquilino da Casa Branca.
Para perceber porque a guerra perdura e porque são ténues as perspectivas de ela terminar a curto ou médio prazo, é preciso ter em conta, antes de mais, o que está a ser desenhado em termos de arquitectura de segurança para o futuro em toda a Europa, e, em particular, a avaliação que os estrategas militares fazem do estado operacional actual da NATO e do papel que defendem que ela deve desempenhar no futuro.
Desde logo é preciso dizer que o confronto militar que opõe Moscovo a Kiev, pelas suas implicações políticas, está longe de se circunscrever a uma situação bilateral. Quando um conflito diz respeito apenas a dois países, mais facilmente as partes podem, a breve trecho, sentar-se à mesa para pôr fim ao diferendo.
Desde o início a presença de várias influências externas ditou o curso dos acontecimentos. A eclosão da guerra russo-ucraniana representou, por isso, a ruptura da frágil relação de confiança que existia entre a Rússia, os Estados Unidos e a União Europeia, com base na qual pudemos assistir, ainda antes da confrontação se instalar, a trocas de visitas de Estado entre os seus principais líderes. Vladimir Putin deslocou-se a várias capitais europeias e recebeu, em Moscovo, muitos dos seus homólogos.
Teve encontros com Barack Obama, com a chanceler Angela Merkel, com Emanuel Macron, participou em cimeiras conjuntas e, nessa altura, parecia que as relações internacionais iam de vento em popa, bafejadas pela boa-fé e pelo desejo de uma paz duradoura, apesar das fricções políticas que iam pontuando o relacionamento.
O castelo de boas intenções ruiu, entretanto, em Fevereiro de 2022, quando a Rússia decidiu colocar um travão à ideia de expansão da NATO à Ucrânia, por considerar tal pretensão uma ameaça à sua existência.
A Rússia entende que, enquanto a Ucrânia se mantiver como essa ameaça, não haverá condições para uma paz duradoura. A Ucrânia teria de abdicar do seu plano de entrar na NATO, chegar a um acordo sobre os territórios ocupados, como garantia para um entendimento pacífico a longo prazo. São exigências que Kiev se recusa a aceitar.
Para o Presidente ucraniano, VolodymyrZelensky, aceitar essas condições seria capitular e isso significaria a sua morte política. Apoiado pela Grã-Bretanha, Canadá e pela maior parte dos países da União Europeia, Zelensky mantém-se irredutível e vê no plano de rearmamento europeu, na renovação do compromisso de remessa de material bélico e auxílio no seu fabrico em território ucraniano, o balão de oxigénio que precisa para continuar a resistir.
São elementos que levam a Rússia a considerar que a Ucrânia permanece uma ameaça à sua segurança nacional “a la longue”. Para a Rússia, uma vez rearmados e considerando-se suficientemente preparados, os países que apoiam a Ucrânia podem entender ter chegado a hora de “recuperar” o que Kiev perdeu. Porque, para esses países, a questão ucraniana é uma equação em aberto à espera de solução.
Quatro anos é o horizonte que a União Europeia estabeleceu para ter a sua indústria de defesa relançada. Todos os especialistas são unânimes em considerar que, de momento, a União Europeia não está preparada, nem do ponto de vista económico nem de produção de armamento, para enfrentar a Rússia.
Fazer guerra não é só disparar armas, mísseis e por aí vai… Essa é a componente bélica de uma guerra. Porém, fazer guerra exige toda uma estrutura económica pronta para aguentar, por largos anos, o efeito de usura que uma confrontação militar sempre provoca no tecido social e na estrutura produtiva de qualquer país.
Não é, pois, por acaso que DonaldTrump tem estado a insistir para que os aliados europeus dos Estados Unidos na NATO aumentem para 5 por cento do seu PIB os gastos com a defesa. Resulta sobretudo de uma análise de que, nas actuais condições, um esforço de guerra seria maior para os Estados Unidos do que para os restantes membros da NATO.
Aliás, os dois anos e meio da guerra russo-ucraniana mostraram o quão dependentes estão os europeus dos fornecimentos de equipamento militar para a Ucrânia resistir aos avanços russos, tendo sido obrigada a reinventar-se, desenvolvendo uma indústria de drones que é considerada, hoje, uma das melhores do mundo em termos de uso para fins bélicos.
A Rússia, por seu lado, diante de todas essas evidências, ganhou consciência de que tem de estar preparada para hoje, amanhã e depois de amanhã. O amanhã pode ser já daqui a quatro anos, quando os seus oponentes estiverem em condições de a fazer frente no campo militar.
Por isso, apesar dos biliões de dólares e de euros dos seus fundos congelados em bancos ocidentais, tratou de adaptar a sua economia ao “modo de guerra”. E, contra todos os prognósticos, conseguiu registar crescimento.
Por tudo quanto está em jogo, é fácil concluir porque razão DonaldTrump não teve êxito no seu propósito e, ao que tudo indica, está já a projectar o reposicionamento político da sua Administração em relação à guerra russo-ucraniana.
A Rússia, por seu lado, não pretende um acordo de paz que signifique um congelamento da guerra, agora, para ser depois retomada daqui a quatro anos.
*Jornalista