Reis palhaços e mendigos – Evalina Ding’s
Reis palhaços e mendigos – Evalina Ding’s
reis jl

Parece uma piada de mau gosto, mas não é. Num país onde milhões vivem abaixo do limiar da pobreza e as comunidades do interior clamam por escolas, hospitais e estradas transitáveis e muito mais, o que fazem os líderes tradicionais do Cuando?

Em vez de serem o eco dos seus povos e a voz das suas angústias, preferem usar a rara oportunidade de falar com o Presidente da República para mendigar tractores e viaturas para uso próprio, quiçá para fazerem “bangas” ou sei lá o que.

Sim, leu bem. Os reis dos reinados de Mavinga, Cuito Cuanavale, Rivungo e a rainha do Dirico, diante do Chefe de Estado, João Lourenço, não priorizaram água potável, energia, acesso à saúde ou educação.

Pediram simplesmente meios de transporte e maquinaria agrícola para si mesmos. Reis mendigos. Líderes tradicionais que trocaram a nobreza da representação comunitária por um pedido de “ajuda pessoal”, num momento em que deviam estar a lutar por dignidade para os seus povos.

Não se enganem: o gesto foi simbólico, e gravemente revelador. Num país ainda a sarar das feridas da exclusão, ver os seus representantes tradicionais a comportarem-se como meros peticionários de benesses pessoais é um escândalo ético.

Pior ainda, é a banalização do papel dos reis, hoje mais preocupados com a sua própria mobilidade do que com a mobilidade das ambulâncias nas suas comunidades.

Fosse este um país de plena cidadania activa, e os soberanos sairiam de lá envergonhados pela ausência de visão e empatia. Mas, como a política em Angola se alimenta de cortesias e submissões, foram até elogiados por “reconhecerem os esforços do Executivo”.

O encontro, supostamente para auscultar as preocupações do Cuando, serviu antes como palco para exibir a decadência moral de certas lideranças locais.

Enquanto isso, as crianças de Mavinga caminham horas para chegar à escola, as parturientes do Dirico enfrentam a morte a cada parto, e os jovens do Rivungo ainda esperam por um sinal de rede.
Se os reis não levantam a voz por eles, quem o fará?

Em vez de realeza proactiva, o que vimos foi uma corte de súbditos travestidos de monarcas, prontos a trocar a responsabilidade pelo privilégio. Afinal, é fácil esquecer o povo quando se sonha com um trator novo.

É tempo de perguntar: os reis estão a servir o povo ou a si mesmos?

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido