Ostracismo em torno do general Higino Carneiro – Artur Cussendala
Ostracismo em torno do general Higino Carneiro - Artur Cussendala
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Começo a admitir que o chamado ostracismo em torno do general Higino Carneiro possa ser menos um acto de punição política e mais uma construção estratégica cuidadosamente encenada.

Não se trata, necessariamente, de afastamento, mas de exposição controlada — uma forma sofisticada de manter um nome permanentemente em circulação.

Aos olhos menos atentos, o enredo sugere uma perseguição persistente, quase obsessiva. Porém, quando se observa o contexto e se cruzam os recentes pronunciamentos do Presidente João Lourenço na última actividade partidária, a narrativa ganha outra espessura: tudo indica um exercício de marketing político interno, arrojado e deliberado, orientado para a preparação do terreno sucessório de 2027.

Em política, como dizia meu pai, não existe silêncio inocente. Falar de alguém, ainda que sob o signo da controvérsia, é uma forma eficaz de o manter vivo no imaginário colectivo.

E a recorrência quase mecânica do nome Higino Carneiro — excessiva, insistente, por vezes artificial — dificilmente pode ser atribuída ao acaso.

O método pode parecer heterodoxo, mas produz efeitos mensuráveis: o general deixa de ser apenas um quadro partidário para se transformar numa figura permanentemente evocada, assimilada e, paradoxalmente, humanizada.

Nesse processo, começa a conquistar simpatias fora do perímetro tradicional do partido, inclusive entre sectores que, em condições normais, lhe seriam hostis.

Quando um partido permite ou promove que um nome seja falado todos os dias, mesmo sob tensão, dificilmente está a empurrá-lo para o esquecimento.

Em política, o esquecimento é o verdadeiro exílio; tudo o resto é, quase sempre, preparação.

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