Mau exemplo de democracia do presidente do MPLA? – Maria Luísa Abrantes
Mau exemplo de democracia do presidente do MPLA? – Maria Luísa Abrantes
JL mpla2

O facto de ser uma cidadã independente (apartidária) não significa que tenha de me alhear do que se passa no seio dos partidos políticos da nossa praça. Não apenas os angolanos têm de se preocupar, mas também os líderes de quaisquer outros países que tenham interesses sediados em Angola.

É que o Presidente de Angola é escolhido pelos partidos políticos, porque quem concorre é o partido, tendo sido suprimido esse direito aos independentes na Constituição de 2010.

Por essa razão, ficamos muito apreensivos e até envergonhados quando o presidente do MPLA, que é simultaneamente Presidente da República de Angola, em entrevistas e nos seus discursos partidários – que são notícia central na comunicação social – sugere quem deve ser o candidato do seu partido:

  • ora um jovem;
  • ora alguém que não esteja mais cansado do que ele.

O Presidente da República, João Lourenço, mostra-se, inclusive, deveras irritado, extremamente zangado, porque alguns dos seus correligionários comunicaram a intenção de se candidatarem ao cargo de presidente do MPLA.

O pior é que manifesta nitidamente essa irritação em público, não apenas pelas palavras, mas também pela sua expressão facial. Onde está o democrata?

Onde estão os defensores que, após a saída do Presidente José Eduardo dos Santos – porque, na altura, fugiram de João Lourenço – afirmavam que o actual Presidente teria feito uma “travessia pelo deserto”, o que foi uma mentira?

João Lourenço foi apenas substituído no cargo de Secretário-Geral do MPLA, mas foi nomeado vice-presidente da Assembleia Nacional, a terceira figura do Estado. O Presidente José Eduardo dos Santos não o destituiu nem do Comité Central, nem do Bureau Político do MPLA.

Os mesmos “lambe-botas”, por interesses inconfessáveis, chegaram a sugerir que João Lourenço, então Secretário-Geral do MPLA, teria sido afastado por ter afirmado que José Eduardo dos Santos não se recandidataria, por este ter palavra, e que tal não teria agradado ao então Presidente.

Ainda que fosse esse o motivo, ninguém ouviu o Presidente José Eduardo dos Santos insultá-lo ou deixá-lo sem emprego. Pelo contrário, cometeu talvez o maior erro da sua vida ao indicá-lo como candidato presidencial.

Queiramos ou não, a comunidade internacional é praticamente unânime em reconhecer que José Eduardo dos Santos foi um diplomata por excelência e o arquitecto da paz em Angola.

João Lourenço, em oito anos de governação, teve tempo suficiente para demonstrar que nunca poderá equiparar-se a José Eduardo dos Santos nesse domínio.

Não confundamos os interesses dos países do Ocidente, do Leste ou da Ásia pelos recursos minerais de Angola, ou pela necessidade de nos venderem equipamentos, serviços e dinheiro – com juros elevados – com amizade “para sempre”.

Os falecidos Presidentes Saddam Hussein (Iraque) e Manuel Noriega (Panamá) já não estão cá para contar a história de como terminaram relações outrora consideradas de grande amizade, quando deixaram de ser úteis.

Os sorrisos diplomáticos não significam que o Ocidente não saiba que, sob a governação de João Lourenço, a corrupção que existia em Angola aumentou.

O que é ainda mais grave é o facto de, para se protegerem da justiça, se legislar no sentido de legitimar alguns actos altamente prejudiciais à economia nacional.

A maioria dos angolanos, na qual me incluo, já nem está preocupada com quem venha a substituir João Lourenço na liderança do MPLA – seja ele indicado por quem for – desde que não seja esse partido a vencer as eleições.

Aliás, todos sabemos que o MPLA, sob a liderança de João Lourenço, perdeu as eleições de 2022 nas urnas.

*Jurista

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