Cibersegurança, IA e fake news: três diplomas e um mesmo desafio social – Eric Martins
Cibersegurança, IA e fake news: três diplomas e um mesmo desafio social - Eric Martins
eric

A recente aprovação das propostas de lei sobre cibersegurança, inteligência artificial e combate às fake news confirma que Angola entrou numa nova fase de governação do espaço digital.

Apesar de incidirem sobre áreas distintas, os três diplomas partilham um objectivo comum: organizar, proteger e regular uma sociedade cada vez mais dependente da tecnologia.

Os dados do Censo Geral da População e Habitação 2024 ajudam a enquadrar esta opção política. Com mais de 36 milhões de habitantes e uma população maioritariamente jovem, Angola vive uma expansão acelerada do uso de telemóveis, redes sociais e serviços digitais, ainda que marcada por fortes desigualdades de acesso. Legislar o digital é, por isso, legislar o quotidiano de milhões de cidadãos.

O primeiro ponto de convergência entre os diplomas é a proteção do cidadão. A proposta de lei da cibersegurança procura garantir a continuidade de serviços essenciais e a segurança de dados e infraestruturas críticas, num contexto de crescente exposição a ataques informáticos.

A proposta sobre inteligência artificial introduz princípios éticos destinados a evitar abusos tecnológicos, como discriminação algorítmica, decisões automatizadas opacas ou violação da privacidade.

Já a proposta relativa às fake news surge como resposta à disseminação de informação falsa capaz de minar a confiança social e institucional.

Outro elemento comum é o papel atribuído ao Estado enquanto regulador e organizador do ecossistema digital.

As propostas preveem autoridades competentes, mecanismos de fiscalização e obrigações de transparência, sinalizando uma tentativa de alinhar Angola com tendências internacionais de regulação tecnológica.

No entanto, esta ambição esbarra num desafio central: a capacidade técnica e institucional para transformar normas legais em práticas eficazes.

Existe ainda uma tensão transversal entre protecção e liberdade. O combate à desinformação, a regulação da inteligência artificial e as exigências de segurança digital exigem cuidado para não se traduzirem em restrições excessivas à liberdade de expressão, à inovação e ao debate público.

A aplicação destas leis será determinante para reforçar a confiança dos cidadãos ou, pelo contrário, gerar receios e resistência social.

Em síntese, as três propostas revelam uma visão estratégica: Angola reconhece que o futuro passa pelo digital. Para que este futuro seja inclusivo e sustentável, será essencial investir em literacia digital, capacitação institucional e avaliação contínua do impacto social da regulação.

Mais do que boas leis, o país precisa de uma governação digital centrada no cidadão.

*Licenciado em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Católica de Angola; mestrando Gestão de Redes e Computadores e Sistemas de Comunicação; Membro da Ordem dos Engenheiros de Angola; Profissional a nível de redes Cisco (CCNP) e Membro Fundador da Associação Vida &Luz (Filantropia)

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido