
A morte súbita de Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó”, antigo presidente da Assembleia Nacional e ex-vice-presidente da República, continua a suscitar fortes interrogações no seio da família, de sectores políticos e da opinião pública angolana, num momento marcado por elevada tensão interna no MPLA e por expectativas em torno do congresso partidário de 2026.
Segundo informações preliminares divulgadas pela Clínica Girassol, em Luanda, Nandó terá falecido vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), depois de ter sido encontrado desacordado na área de sauna da sua residência, no bairro do Alvalade.
A equipa de emergência foi acionada de imediato, mas, à chegada, o paciente já se encontrava sem sinais vitais. Apesar de cerca de 40 minutos de tentativas de reanimação, o óbito foi declarado às 12h47.
Os resultados parcelares da autópsia realizada ao inditoso, indicam a presença de hidrocefalia, uma condição caracterizada pela acumulação excessiva de líquido cefalorraquidiano (LCR) no cérebro, que pode provocar aumento da pressão intracraniana.
De acordo com informações médicas preliminares, a hidrocefalia poderá ter sido agravada pelo tempo prolongado que o antigo dirigente passou na sauna da sua residência, situação que terá provocado tonturas e desidratação, num ambiente de elevada temperatura.
Relatos partilhados indicam que o antigo dirigente começou a sentir-se mal após a sua rotina matinal. Ao sair da sauna, terá apresentado sinais de indisposição, sentindo arrepios, tendo-se agachado no corredor antes de se deitar no chão, onde acabou por ser encontrado. Transportado de urgência para a Clínica Girassol, foi declarado ao óbito.
Apesar da explicação médica oficial, fontes dos serviços de inteligência ouvidas pelo Imparcial Press admitem, sob anonimato, que as circunstâncias da morte levantam dúvidas e não afastam a hipótese da existência de uma eventual “mão invisível”.
Estas leituras surgem, sobretudo, à luz do contexto político em que ocorre o falecimento. Nandó era membro do Bureau Político do MPLA e posicionava-se como um dos mais firmes defensores da abertura do partido a múltiplas candidaturas no congresso ordinário de 2026.
A sua visão contrastava com a linha defendida pelo Presidente João Lourenço, que tem reiterado publicamente que a indicação do futuro líder do MPLA – e provável cabeça de lista às eleições gerais de 2027 – será uma responsabilidade sua.
Nos dias que antecederam a morte de Nandó, o discurso do líder do MPLA, proferido no acto central das comemorações do 69.º aniversário do partido, em Luanda, foi considerado por vários observadores como particularmente duro e carregado de mensagens implícitas dirigidas a sectores internos que defendem alternativas de liderança.
Fontes do Imparcial Press sublinham que a morte de Nandó apresenta semelhanças com a do general Abreu Muengo Ukwachitembo “Kamorteiro”, antigo Chefe do Estado-Maior Adjunto das Forças Armadas Angolanas, e com a do general Dinis Segunda Lucama, ex-Inspector Nacional de Defesa.
Todos foram encontrados desacordados em suas residências e declarados mortos após darem entrada nas unidades hospitalares.
A repetição destes episódios, todos envolvendo personalidades de elevado estatuto político e militar e ocorrendo num período pré-eleitoral sensível, tem sido interpretada por alguns sectores como uma coincidência invulgar, alimentando especulações e desconfianças, ainda que sem qualquer prova pública de crime.
Até ao momento, as autoridades não anunciaram a abertura de um inquérito criminal nem apontaram indícios de morte violenta.
No entanto, a morte de Nandó deixou um clima de apreensão e incerteza, reforçando a percepção de que o ambiente político nacional se encontra particularmente carregado, mesmo antes de a disputa interna no MPLA entrar na sua fase mais visível.
De realçar que o antigo vice-presidente da República e ex-presidente da Assembleia Nacional, falecido na quinta-feira última, será sepultado na segunda-feira, dia 22, no Cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda.
A informação foi avançada, sexta-feira, pelo coordenador da Comissão Interministerial das Exéquias, Francisco Pereira Furtado, em conferência de imprensa para abordar o programa definido pelo executivo em coordenação com a família do malogrado.
As exéquias terão início, amanhã, domingo, 21, com o velório a realizar-se ao final da tarde no Complexo Protocolar do Executivo, no bairro Praia do Bispo, local onde o corpo ficará em câmara ardente até à manhã de segunda-feira.
Detalhou que a cerimónia oficial de funeral do Estado decorre na manhã de segunda-feira, a partir das 09h00, com a leitura de mensagens de homenagem, incluindo da família, do partido político a que pertenceu, dos órgãos de soberania e do Presidente da República.
O enterro está previsto para o período entre as 11h00 e as 12h00, no Cemitério do Alto das Cruzes. Entretanto, o Presidente da República decretou Luto Nacional de 24 horas, a observar-se no dia 22 de Dezembro, das 00h00 às 23h59.
Durante o período de luto, a Bandeira Nacional estará a meia haste em todo o território nacional e ficam suspensas actividades festivas, culturais e recreativas, nos termos da lei, mantendo-se a actividade laboral.
Enquanto perdurarem zonas de sombra em torno das circunstâncias do falecimento, a pergunta continuará a ecoar nos corredores do poder e na sociedade: terá sido apenas uma fatalidade clínica ou haverá outros factores ainda por esclarecer?