Caso Venezuela: A mensagem de Donald Trump – Reginaldo Silva
Caso Venezuela: A mensagem de Donald Trump - Reginaldo Silva
Trump

Enquanto ainda permanecem nas Nações Unidas, os Estados Unidos da América (EUA) há muito que aplicam (e pelos vistos vão continuar a aplicar) o tal direito internacional à la carte, ou seja, só fazem recurso ao mesmo quando ele serve os seus interesses estratégicos.

A sua relação disruptiva com o Tribunal Penal Internacional (TPI) é paradigmática desta forma pontual de gestão do direito internacional que, historicamente, eles até foram percursores ao lado de outras nações após a derrota da Alemanha Nazi em 1945. Foram os EUA que criaram o Tribunal de Nuremberga que julgou os criminosos do Terceiro Reich.

Quando tal não acontece, quando por qualquer motivo o direito internacional atrapalha a sua estratégia global, os EUA mandam as convenções para as urtigas em dois tempos, porque sabem que o seu poder veto no Conselho de Segurança da ONU faz o resto, ou seja, impede que sejam julgados e muito menos condenados.

Não é de hoje nem de ontem. Digamos que sempre foi assim.

Esta é que é a verdadeira doutrina americana com a qual republicanos e democratas no essencial sempre estiveram de acordo, agindo em conformidade ao longo dos tempos, como a história das intervenções militares externas dos EUA comprova.

Mas também é bom aqui salientar que esta visão instrumental do direito internacional não é exclusiva dos EUA.

Donald Trump pode até ser a expressão mais crua/boçal/brutal desta visão imperial que se tem memória, mas o simpático e bem educado do JFK pensava da mesma forma em relação à Cuba e ao Vietnam.

Foi um Presidente democrata, Lyndon B. Johnson, que invadiu o Vietnam, possivelmente depois da segunda guerra mundial, o conflito mais desastroso em que EUA se envolveram e onde foram copiosamente derrotados em 1973.

Com várias designações pelo meio, a doutrina americana das relações internacionais sempre esteve baseada no direito da força bruta/superioridade militar esmagadora.

O que os EUA gastam anualmente com a tropa/equipamento militar fala bem por si só. É tão simples quanto isto, sendo para mim uma perda de tempo andar à procura de outras razões que expliquem tamanhas evidências.

Com Donald Trump estamos todos a ser testemunhas impotentes da morte anunciada da diplomacia. Embora sendo contraditório, sem qualquer preocupação com a verdade dos factos e por vezes atabalhoado, o discurso populista de Trump é simples e directo, não precisa de ser descodificado, dispensa qualquer tipo de hermenêutica. Temos força. Somos os mais poderosos do mundo. Quem se atravessar no nosso caminho leva.

É com esta força que Donald Trump ameaça e desafia hoje todo o mundo menos aqueles, pouquíssimos, com destaque para a Rússia, de Putin, que ele sabe que se ainda não estão ao nível do poderio militar norte-americano para lá caminham, como é o caso da China de Xi Ji Ping.

Foi esta a mensagem que o camarada Xi quis passar com o desfile militar que organizou o ano passado, onde segundo os especialistas mostrou tudo e mais alguma coisa que tinha nos seus arsenais.

Resta saber se a mensagem enviada da Praça de Tien Amen foi suficiente para Trump entender melhor a sua própria lógica. Só os próximos tempos o dirão com as atenções concentradas na crise que prossegue dentro de momentos entre a RPC e a ilha vizinha de Taiwan.

Esta como é evidente é uma história sem moral, mas se nos fosse possível tirar alguma, diríamos que estamos todos entregues à bicharada ou feitos ao bife…

Para começar o novo ano, acho que dificilmente encontraríamos um sinal mais perturbador.

*Jornalista

NR: O título é da inteira responsabilidade deste jornal.

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