
Dando sequência as colocações sobre a poligamia, avançamos neste comentário, para questões essencialmente económicas. Já há literatura bastante e palestras abundantes que procuram colocar culpas à poligamia sobre a pobreza dos homens e das famílias envolvidas em relações poligâmicas.
Curiosamente, os que atribuem as causas da pobreza a poligamia, ou são simultaneamente pobres e monogâmicos ou são pobres e sem parceiras sexuais, se quer.
Os que não estão nessas condições formam em geral o grupo daqueles que acham que a poligamia assumida pelos seus progenitores é a causa da pobreza que vivem ou simplesmente são compelidos por orientações religiosas ou culturais. a reprimir os polígamos.
Em geral, desviam as suas frustrações e incapacidades de sair da desgraça e da miséria para factores alheios a sua própria condição para aliviarem-se das próprias culpas. Protagonizam inclusive episódios em que se tornam conselheiros anti-poligamia sem nunca terem vivido experiências poligâmicas. Nada mais caricato.
Tratam-se de situações de desvios das verdadeiras causas da pobreza que dizem e pensam combater. Quase todos relatam situações vividas ou não sem estudos científicos que demonstrem a relação causal entre a pobreza e a poligamia.
Porém, já é unânime entre os palestrantes motivacionais que a pobreza e a riqueza são condições que dependem essencialmente de cada indivíduo, da própria pessoa. Seus hábitos, objetivos de vida e práticas. Nada aponta para a condição matrimonial do indivíduo.
Também não se conhecem exemplos flagrantes de indivíduos que tendo hábitos, práticas e objetivos de vida que transpirem riqueza e sucesso material tenham empobrecido pelo simples factos de terem mais de uma parceira matrimonial ou sexual.
Aliás, a maioria dos empresários e homens de negócios bem-sucedidos conciliam perfeitamente uma vida sexual devassa com capacidades extraordinárias de produzir riqueza.
Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, tem um registro desastroso em termos matrimoniais tal como tem o Presidente Donald Trump, outro bilionário, no leme dos EUA.
No seu livro “Ciência Para Ficar Rico”, John D. Wattles deixa claro que a capacidade de fazer riqueza decorre de um simples hábito de fazer a coisa certa de uma determinada maneira. Wattles, que no seu tempo foi um homem rico, desafia no seu livro qualquer um a seguir criteriosamente as regras que descreve e garante que o resultado final será o enriquecimento.
Napoleon Hill, autor do best-seller mundial “Pense e enriqueça” (Think And Grow Rich) descreve leis de sucesso que devem ser fielmente seguidas para se alcançar o sucesso e em nenhuma delas proíbe a poligamia ou sequer fala dela como algo a ser evitado por quem queira ser rico.
Robert Greene, outro autor de best-seller motivacional escreve no seu livro “48 leis do Poder” (the 48 Laws of Power) as formas precisas de atingir o poder e em nenhuma delas alerta sobre os perigos da poligamia para quem quer alcançar os seus objectivos na sociedade.
Durante muito tempo, os “pregadores” do “entrepreneurship” complicaram-se na busca da fórmula exacta para a prosperidade material.
Hoje, a convergência já é maior quando se aponta a definição de um objetivo concreto, a constância e a disciplina como os principais combustíveis para o sucesso material. Já está claro que ninguém fica rico se não seguir essa receita.
É o segredo que durante muito tempo se procurou e é a fórmula que mais se vende nos cursos de motivação pessoal.
Myles Monroe, um monumental motivador cristão, resume a causa do sucesso em sentenças cativantes: “Não há pobreza que resista diante de uma mente obstinada pela riqueza, consequente e disciplinada! ”.
Ele fala de mente (do indivíduo) e não de famílias (monogâmicas ou poligâmicas). Fazer-se pobre ou rico é acima de tudo uma questão de atitude individual, embora vários outros factores colaterais (oportunidades, níveis de educação e formação, etc.,) possam dar igual impulso.
A pobreza é uma clara erupção do Darwinismo Social quando analisada à escala social. Deriva da ferrenha luta pela sobrevivência entre os mais capazes e os menos capazes em termos de habilidades, meios patrimoniais e oportunidades.
A educação de qualidade e um ambiente social e econômico favorável a justiça e ao desenvolvimento económico são as réguas para o nivelamento das desigualdades geradas por esta luta.
Dizer que a poligamia cria pobres, é simplesmente fugir dessa verdade. Pior, é ignorar as estatísticas sobre o desempenho económico das sociedades em que abundam a miséria e o fracasso das pessoas e das famílias.
No nosso caso, a maioria das famílias miseráveis são monogâmicas e muitos dos indivíduos fracassados nem sequer têm esposas. Os próprios hábitos, quer individuais quer familiares falam por si. Somos dados a facilidades, a dependências económicas e a procrastinação crónicas.
Os engarrafamentos nas ruas, a falta de cuidado com os bens públicos, o hábito de reclamar de tudo sem fazer nada e a tendência para mexericos nos locais de trabalho são amostras simples destes problemas que beiram a defeitos de personalidade. Entre trabalhar arduamente e passar o dia a tomar uma cerveja, os sinais mostram que este último hábito ganha muito mais simpatia.
A maioria não consegue arranjar tempo para aprender uma habilidade nova e aumentar as suas capacidades técnicas e profissionais.
As nossas redes sociais são em geral infestadas de insultos, mexericos e muita informação sem efeito útil para o desenvolvimento e sucesso das pessoas enquanto vemos os brasileiros e outros povos focados no sucesso a produzirem conteúdos que valorizam a criatividade, o empenho e a busca de prosperidade.
O hábito de leitura é em geral cultivado durante a fase estudantil e ainda por cima como um castigo diário. A maioria dos estudantes universitários deixam de ler ou de ter livros depois de concluírem os estudos.
Numa entrevista marcante, há alguns anos, Carlinho Zassala, eminente psicossiólogo angolano, terá deixado claro que a longa guerra civil e as dificuldades sociais e económicas enfrentadas pelas famílias angolanas desde a proclamação da independência da República tornam-nos claros candidatos a pacientes de psiquiatria.
Há inúmeros desiquilíbrios mentais que se manifestam entre pessoas de todos os níveis de responsabilidade social e públicas.
A intolerância crónica e a tendência doentia para ataques pessoais nas relações sociais entre pessoas de religiões, partidos políticos ou equipas de futebol diferentes é um desses tristes sintomas que vivemos.
Nalguns casos, esses sintomas manifestam-se através dos receios e medos de entrar em desafios para sair da zona de conforto. O que justifica em grande medida a tendência para procurar emprego nos órgãos e serviços do Estado mais do que empreender no sector privado.
Hoje já não se fala de aprendizagem de ofícios entre os jovens e as senhoras que zungam ou fazem comércio ambulante sentem-se numa aura de sofrimento esperando pelo dia em que um filho ou irmão se torne Ministro ou mesmo presidente da República para deixar de vender.
Longe de pensar que se melhorar a técnica de vendas e apostar no comércio com foco e dedicação um nome pode nascer um dia como uma grande empresa.
Na generalidade, acreditamos pouco nas possibilidades que temos de sair das piores condições sociais e económicas em que nos encontramos. No fim da entrevista Zassala deixou claro que na generalidade os angolanos são um caso de “psiquiatria”.
Como hábitos como estes podem criar ambientes de riqueza? E onde fica a culpa da poligamia?
Quando se quer “vandalizar” as relações múltiplas, a maioria confunde poligamia e prostituição. Entende erradamente que os efeitos da poligamia é que levam a dispersão das economias domésticas e a existência de relações proibidas e financeiramente desastrosas.
Por falta de análise cuidadosa dos fenómenos, não percebem que estão a tratar da prostituição. A prostituição não é só economicamente perniciosa (por desviar recursos financeiros que deviam acudir a família) como é imoral.
Não a poligamia que representa sempre a condição em que um homem assume publicamente o cuidado de famílias múltiplas.
Noutros casos, o fenómeno da prostituição ataca as mulheres conhecidas como “segundas” que são, em geral, amantes anónimas (desconhecidas dos círculos familiares do marido) que neste caso não são sequer esposas que integram um círculo matrimonial poligâmico.
Na maioria dos casos, são colocadas na condição de “concubinas” sendo vulneráveis a relações amorosas com diversos parceiros para manter a condição económica e sustentabilidade financeira que não pode ser garantida abertamente pelo “esposo”.
Confundir situações de manifesta promiscuidades como estas com a poligamia é um erro imperdoável de manipulação de dados e informações.
A poligamia é definida como vínculo matrimonial assumido conscientemente pelos parceiros diante das famílias envolvidas e da sociedade. Tem a estabilidade de um casamento como qualquer outro e gera uma divisão econômica equilibrada entre as mulheres envolvidas.
O antigo Presidente sul-africano Jacob Zuma, era visto ladeado das suas mulheres. No seu tempo de líder do ex-Zaire, Mobutu Seseko Kuku Ngwendo Wazabanga passeava-se orgulhosamente com suas duas mulheres (irmãs gêmeas) e não tinham problemas em defender a identidade africana.
Nnamdi Azikwe, primeiro Presidente da Nigéria teve 3 mulheres ao longo da sua vida. Jomo Kennyata, fundador da República do Quénia teve quatro esposas. Yahya Jammeh, antigo Presidente da Gâmbia teve muitas mulheres como casadas.
O actual Presidente do Senegal, o jovem Bassirou Diomaye Faye, é polígamo assumido e não defende políticas públicas na sua governação que colocam a poligamia entre os males da sociedade.
É verdade que há polígamos que reconhecem as acentuadas despesas que implicam uma vida poligâmica. Daniel McKorley, um empresário ganense de sucesso, já assumiu publicamente que “é muito caro ser polígamo” e aconselha a todos que querem sê-lo a terem uma vida financeira estável.
O facto é que não o faz para mostrar algum arrependimento ou chamar atenção aos incautos. É a forma subtil que viu para dizer ao mundo que a Poligamia não é para quem quer, é para quem pode!
Uma clara manifestação de orgulho pela acumulação da riqueza que ostenta. Mas também é verdade que não é preciso ser polígamo para termos uma mulher que abusa das nossas economias ao ponto de nos levar a pobreza.
Já o sul-africano Musa Mseleku, outro empresário de sucesso, vive confortavelmente num lar poligâmico e não sente nenhum risco de empobrecer.
Na religião islâmica, a pobreza é pecado, mas não a poligamia. Aliás, a poligamia tem a suas regras divinas nessa religião. As mulheres que se associam ao mesmo marido devem ter garantias de terem as mesmas condições materiais que este deve reservar as suas mulheres.
O marido que pretende habilitar uma nova relação conjugal, aumentando o número de parceiras, conta com a anuência e escolha da sua própria esposa ou esposas. Nesse ambiente social não se fala de promiscuidade e nem de pobreza causada pela poligamia.
Pelo contrário, a poligamia tem a sua contribuição no aumento da economia familiar quando os parceiros têm e desenvolvem atividades económicas rentáveis.
Foi sempre assim nas nossas comunidades rurais em que o matrimónio assenta na poligamia. As mulheres e os filhos têm lavras próprias e nisto aumentam a base de propriedades agrícolas administradas pelo marido.
Quem defende que a poligamia causa pobreza desconhece a realidade vivida nas aldeias e nos ambientes rurais marcada pelas relações matrimoniais múltiplas.
Os angolanos, de uma maneira geral, não empobreceram por terem mais de uma mulher. A pobreza é devida a conjugação de factores ligados a falta de políticas públicas dirigidas ao financiamento da economia e em especial do empreendedor e aos maus hábitos culturais entre os quais não se encontram seguramente a poligamia.
Quanto a influência da poligamia na organização econômica das sociedades, vale dizer que é um acelerador da procriação e do aumento dos índices demográficos. Já parece claro que o aumento dos crentes do islão e das comunidades que praticam a poligamia ligados a esta religião vão esmagando a hegemonia dos cristãos pelo mundo.
Mesmo em Angola, os hábitos pelo matrimónio monogâmico já reflectem uma escolha que se apresenta perigosa para a sobrevivência da identidade nacional.
A presença islâmica em Angola juntamente com a proliferação das famílias poligâmicas criadas pelos crentes desta religião já deixa claro que os próximos 50 anos serão provavelmente para contar quantos angolanos de nacionalidade originária terão restado.
O crescimento demográfico assustador que vamos assistindo hoje em Angola em que se percebe a multiplicação das populações de anos a ano, embora sem estatísticas fiáveis, conta com uma contribuição inegável de casais poligâmicos que formam as comunidades africanas e outras estrangeiras em Angola.
Segundo a Eurostat, em 2023, a União Europeia registrou 3, 67 milhões de nascimentos – uma queda de 5,4% em relação a 2022 – o que representou a maior queda anual da taxa de natalidade desde 1961.
O motivo deste desastre demográfico é óbvio: fraca reprodução e tendência para o abandono do compromisso matrimonial. A perversão sexual na cultura ocidental atingiu limites que ameaçam a própria sobrevivência dos povos Europeus.
Entretanto, é marcante a tendência crescente dos povos asiáticos e africanos com práticas poligâmicas na Europa. O que aponta para a acelerada substituição dos europeus originários pelos estrangeiros através dos processos de migração.
Se o problema da imposição da monogamia está na contenção do crescimento populacional afim de racionalizar os recursos disponíveis, não está provado que mais ou menos população fazem oscilar necessariamente a condição económica dos povos.
O Burundi, um país pequeno com uma população diminuta, está entre os países mais pobres do mundo enquanto que a Índia e a China que detém os maiores índices populacionais do planeta apresentam indicadores económicos bastante encorajadores.
Finalmente, as políticas públicas que pretendem frenar a taxa de natalidade e o crescimento dos índices demográficos assentam em pressupostos que defendem a escassez e não a abundância. Partem, das reservas existentes e não da capacidade de produção e multiplicação da riqueza.
São políticas defendidas em contextos de economias paralisadas e que enfrentam a pressão do crescimento desordenado e descontrolados das populações.
Trata-se de contextos que não têm a poligamia como causa, mas a incompetência e a falta de políticas públicas claras na acção dos governos.
Pois, é mais do que evidente que o aumento controlado das populações quando aliado com políticas públicas favoráveis ao desenvolvimento dão origem a mercados crescente devido ao igual consumo crescente das populações.
Só governos organizados e orientados para o sucesso das suas políticas públicas experimentam essa verdade.
No meio de todo emaranhado de hábitos e ambientes desastrosos e difíceis onde fica a quota da culpa que a poligamia merece?
Dixit.
*Jurista