A necessidade de uma lei autónoma de execução de sentenças em Angola – Moisés Castigo
A necessidade de uma lei autónoma de execução de sentenças em Angola - Moisés Castigo
justiça

Um Estado Democrático de Direito não se constrói apenas com leis bem escritas. Constrói-se, sobretudo, quando as decisões dos tribunais são realmente cumpridas.

A Constituição da República de Angola estabelece, no artigo 2.º, que Angola é um Estado Democrático de Direito, baseado na supremacia da Constituição e da lei. No artigo 6.º, consagra o princípio da legalidade, segundo o qual todos estão sujeitos à Constituição e à lei.

Já o artigo 29.º garante o direito à tutela jurisdicional efectiva, isto é, o direito de qualquer cidadão recorrer aos tribunais para defesa dos seus direitos.

Entretanto, a tutela jurisdicional efectiva não significa apenas obter uma sentença favorável. Significa que essa sentença deve ser cumprida de forma rápida, eficaz e completa.

Apesar dos avanços introduzidos pelo Código Penal Angolano e pelo Código do Processo Penal Angolano, Angola ainda enfrenta dificuldades sérias na fase de execução das decisões judiciais, principalmente quando se trata de cobrança de dívidas, indemnizações e perda de bens provenientes de crime.

O presente estudo defende que Angola precisa de uma Lei Autónoma de Execução de Sentenças, moderna e integrada digitalmente, para tornar a justiça mais eficaz e fortalecer o Estado de Direito.

Desenvolvimento

Execução da sentença: parte essencial do direito á justiça.

O artigo 29.º da Constituição garante que todos têm direito à tutela jurisdicional efectiva. Esse direito envolve três momentos:

  • Poder ir ao tribunal;

Receber uma decisão fundamentada;

  • Ver essa decisão cumprida.
  • Sem execução, a decisão judicial perde valor.

Exemplo simples:

Um cidadão é despedido ilegalmente. Vai ao tribunal e ganha o processo. O juiz decide que ele deve receber 4 milhões de kwanzas de indemnização.

Se a empresa não pagar e o processo de execução durar anos, o trabalhador continua sem dinheiro. Ou seja, ganhou no papel, mas não ganhou na prática.

Isso demonstra que a execução é parte fundamental do direito à justiça.

Problemas na cobrança de dívidas e indemnizações

Na prática, existem grandes dificuldades para cobrar valores reconhecidos pelo tribunal.
Entre os principais problemas estão:

  • Dificuldade para encontrar bens do devedor;
  • Falta de ligação digital entre tribunais e bancos;
  • Excesso de formalidades;

Transferência de bens para familiares para fugir da penhora.

Exemplo claro:

Um empresário deve 15 milhões de kwanzas a um fornecedor. O tribunal condena-o a pagar.
Antes da execução começar, ele transfere a casa e o carro para o nome de um familiar.

Como não existe um sistema integrado que bloqueie rapidamente os bens, a execução falha.
Resultado: a decisão existe, mas o credor não recebe. Isso enfraquece o respeito pela lei.

Recuperação de bens provenientes de crimes

O Código Penal prevê a perda de bens obtidos através de crime e estabelece:

  • Artigo 109.º – Perda de instrumentos e produtos do crime;
  • Artigo 110.º – Perda de vantagens;
  • Artigo 111.º – Perda alargada de bens quando houver indícios de origem ilícita;

Essas normas permitem que o Estado retire bens adquiridos com dinheiro ilícito, mas o problema surge na execução prática.

Exemplo simples:

Um cidadão é condenado por corrupção. O tribunal declara que dois imóveis foram comprados com dinheiro ilícito e devem ser perdidos a favor do Estado.

Se a execução demorar muito, o imóvel pode ser vendido, deteriorado ou ocultado.

O Estado perde o controlo e o efeito da condenação diminui. Sem mecanismos rápidos e digitais, a punição patrimonial perde força.

Necessidade de penhora digital obrigatória

Uma Lei Autónoma deveria prever penhora electrónica obrigatória.
Isso significaria:

  • Bloqueio imediato de contas bancárias;
  • Consulta automática de registos de imóveis e viaturas;
  • Comunicação digital directa entre tribunal e banco.

Exemplo claro:

Se o devedor tiver dinheiro na conta, o sistema poderia bloquear automaticamente o valor logo após o prazo voluntário de pagamento. Em poucas semanas o credor receberia o dinheiro.

Hoje, esse processo pode levar anos. A tecnologia tornaria a justiça mais rápida e eficaz.

Base nacional integrada de bens

Propõe-se a criação de uma Base Nacional Integrada de Bens, ligando:

  • Conservatórias;
  • Registo automóvel;
  • Administração Geral Tributária;
  • Bancos;
  • Registo comercial.

Exemplo simples:

Actualmente, o tribunal precisa enviar vários ofícios para descobrir se o devedor tem bens. Com uma base integrada, o juiz poderia consultar tudo num único sistema em poucos minutos. Isso evitaria execuções frustradas.

Responsabilização patrimonial automática

A lei deveria prever que, após o trânsito em julgado, se o devedor não pagar voluntariamente em prazo curto (por exemplo 15 dias), a execução começaria automaticamente.

Exemplo directo:

Hoje, o credor precisa iniciar nova fase processual. Com execução automática, o sistema iniciaria a penhora sem necessidade de novo pedido. Isso reduziria atrasos e burocracia.

Autonomia da Lei de Execução

Actualmente, as regras estão dispersas. Uma Lei Autónoma permitiria:

  • Procedimentos uniformes;
  • Secções especializadas nos tribunais;
  • Formação técnica adequada;
  • Maior controlo e eficiência.

A especialização gera melhores resultados.

Conclusão

A força do sistema jurídico não depende apenas da existência de boas leis, mas da sua aplicação efectiva. A Constituição garante tutela jurisdicional efectiva.

O Código Penal prevê perda de bens e vantagens do crime. Contudo, sem um sistema moderno de execução, essas normas perdem eficácia prática.

A morosidade, a dificuldade de localizar bens e a ausência de mecanismos digitais enfraquecem a autoridade judicial e incentivam o incumprimento. Uma Lei Autónoma de Execução de Sentenças é essencial para:

  • Garantir que decisões sejam cumpridas;
  • Proteger credores e vítimas;
  • Fortalecer a recuperação de activos;
  • Reforçar o Estado Democrático de Direito.

Sem execução eficaz, a sentença é promessa. Com execução eficaz, a justiça torna-se realidade.

Sugestões legislativas

  • Criação de Lei Autónoma de Execução de Sentenças, unificando normas cíveis e penais de execução patrimonial;
  • Implementação obrigatória de penhora electrónica nacional com bloqueio imediato de contas e activos;
  • Criação da Base Nacional Integrada de Bens sob gestão do poder judicial;
  • Previsão de execução automática após trânsito em julgado, em caso de incumprimento voluntário.

*Jurista

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