
Troçar da doença de um adversário não é apenas uma falha moral: é um colapso de civilização. Num país que se proclama empenhado na reconciliação, esse gesto transforma o que poderia ser um raro momento de reconhecimento da nossa vulnerabilidade comum num novo instrumento de guerra: violência continuada por outros meios, com outra estética, mas o mesmo veneno.
A dignidade humana não prescreve com a biografia, nem caduca com a filiação partidária, nem se extingue com frases ditas em anos de sombra.
Tradições éticas muito distintas, da matriz cristã ao Ubuntu, convergem num ponto mínimo e irredutível: a pessoa permanece pessoa mesmo quando a história a empurra para o banco dos réus; e a dor, quando chega, não é uma janela para o sarcasmo. É uma fronteira.
Talvez por isso me cause verdadeira repugnância ver circularem, com intenção de escárnio, imagens de Abel Chivukuvuku no hospital, em 1992, depois de ter sido ferido durante a guerra, como se a cama fosse um tribunal e a fragilidade uma sentença lida em voz alta.
Ali não há crítica, não há justiça, não há sequer memória digna desse nome: há crueldade convertida em espectáculo. E seria, da minha parte, uma contradição grosseira aceitar, perante a doença de Octávio Kapapa, a mesma lógica sob outra máscara.
Octávio Kapapa, voz maior da Rádio Nacional de Angola durante os longos anos de guerra, atravessa um período de saúde frágil, exposto numa fotografia que, por tudo o que implica, deveria convocar reserva, silêncio e respeito.
Em vez disso, há quem use essa imagem como arma: reabrem-se processos informais, recitam-se frases de arquivo, reconstroem-se papéis desempenhados há décadas, e insinua-se um “pediu, agora aguente”, como se o sofrimento fosse a factura final da política, a contabilidade derradeira da vingança.
É aqui que importa estabelecer uma distinção que muitos, por conveniência ou ressentimento, insistem em apagar. Uma coisa é a crítica ao passado: a análise do que se disse e do que se fez, a exigência de verdade e, quando couber, de responsabilização em instâncias sérias, com método e memória.
Outra coisa, inteiramente distinta, é instrumentalizar a doença como argumento: transformar um corpo que falha em prova moral, celebrar o declínio físico como “justiça poética”. A enfermidade nada acrescenta ao juízo ético sobre actos antigos.
É condição humana, não é evidência. É miséria partilhada, não é veredicto. Quando a dor passa a funcionar como recurso retórico, o espaço público apodrece: a política deixa de ser disputa de razões e degrada-se em competição de humilhações, num circo em que, no fim, ninguém se salva.
Reconciliar não é esquecer, nem absolver por exaustão. É, pelo menos, domesticar o instinto de vingança; é aceitar que a travessia da hostilidade para uma coexistência minimamente civil exige disciplina na linguagem e contenção no gesto.
E há, neste ponto, um detalhe que denuncia a seriedade, ou a sua ausência: a reconciliação pede sempre mais aos que se percebem vencedores do que aos que se percebem vencidos. Quem se julga moralmente superior tem um dever acrescido de não cuspir no chão onde o outro caiu.
Se não consegue conter o impulso de gozar com a doença do adversário de ontem, então a palavra “reconciliação” não passa de táctica, não de convicção. É slogan, não é ética.
A posição honesta é, ao mesmo tempo, simples e intransigente. Sim: o papel público de Octávio Kapapa durante a guerra pode e deve ser escrutinado, com rigor, por historiadores e instâncias apropriadas, sem histeria, sem folclore, sem tribunais improvisados nas redes sociais.
Não: esse escrutínio não se faz com memes, nem com fotografias de enfermaria, nem com celebrações do corpo que falha, como se a biologia viesse, finalmente, corrigir a história. A linha é nítida.
Julgar o que alguém fez não implica regozijar-se com o que alguém sofre. Quem a atravessa não está a punir um culpado; está a educar uma comunidade inteira a rir da vulnerabilidade.
Hoje é o antigo inimigo. Amanhã será o vizinho. Depois de amanhã, quando o vento mudar (e o vento muda sempre), seremos qualquer um de nós. E talvez seja então tarde para perceber que a humilhação, uma vez normalizada, não tem lado preferido. Devolve-se sempre, com juros, a quem a ensinou.
*Jornalista e escritor