
É preocupante assistir a este exercício, por vezes rocambolesco, de defesa da imagem do chefe do SINSE. A pergunta que se impõe é simples: quem assim age tem plena consciência do que é o SINSE e do papel que um serviço de inteligência deve desempenhar perante o Estado? Ou limita-se, de forma acrítica, a assumir uma defesa automática?
Algumas insinuações que circulam nas redes sociais sugerem a existência de alegadas campanhas financiadas contra o general Fernando Garcia Miala.
Se tais campanhas existirem, caberá naturalmente às instituições competentes investigá-las e esclarecê-las. Porém, transformar conjecturas em acusações sem prova apenas contribui para o ruído e para o empobrecimento do debate público.
Também se tornou recorrente a narrativa de que eu, jornalista Carlos Alberto, estaria a perseguir o chefe do SINSE, o general Fernando Garcia Miala. A questão lógica é evidente: como poderia um jornalista, sem dados, sem provas e sem factos verificáveis, perseguir o titular de um serviço de inteligência e nada lhe acontecer?
E mais: como se explicaria que esse mesmo jornalista apresentasse uma participação criminal junto da PGR, com conhecimento da Presidência da República, da Assembleia Nacional, do Tribunal Constitucional e da Provedoria de Justiça, apenas porque “está a ser financiado”, sem qualquer elemento concreto?
A própria formulação dessa acusação revela uma contradição evidente. Isso cabe mesmo na cabeça de alguém que estudou e andou a ser aprovado sem cabular? Ou só cabe na cabeça de medíocres?
Na verdade, ao sugerirem que um jornalista teria tal capacidade de perseguir um alto responsável do Estado sem apresentar qualquer prova do que afirma, os próprios defensores do general acabam, inadvertidamente, por transmitir uma imagem de fragilidade institucional que em nada beneficia a credibilidade de um serviço de inteligência. Acabam, assim, por passar um certificado de incompetência ao próprio chefe do SINSE.
Importa igualmente recordar um facto simples: ao longo do tempo, já fiz referências elogiosas ao general Fernando Garcia Miala quando considerei que as circunstâncias o justificavam.
O exercício do jornalismo sério não se guia por fidelidades pessoais, mas por critérios éticos, factuais e pelo interesse público. Quando os factos mudam, a análise também pode mudar. Nenhum pensamento crítico é estático.
As pessoas são livres de rever posições quando os factos assim o indicam. Aliás, seria absurdo defender que alguém deve manter eternamente a mesma posição apenas porque a teve no passado. Quem raciocina dessa forma revela apenas a sua pequenez.
O país está acima de qualquer agenda individual. Está acima de eventuais interesses individuais do próprio chefe do SINSE. É esse princípio que deve orientar o debate público e o escrutínio institucional, e não o contrário. É assim tão difícil perceber isso?
Por fim, convém lembrar algo elementar: muitos dos serviços de inteligência mais respeitados do mundo mantêm assessorias de comunicação justamente para assegurar uma relação institucional responsável com a imprensa.
Defender a honra e a reputação de uma instituição é legítimo, desde que feito dentro dos parâmetros institucionais adequados.
Quem estuda e investiga estas matérias deveria saber isso. A ideia segundo a qual “o SINSE não deve pronunciar-se” revela, muitas vezes, desconhecimento sobre o funcionamento institucional dos serviços de inteligência. O Estatuto Orgânico do SINSE é público e acessível; basta lê-lo.
O jornalista Carlos Alberto não pode ser alvo de acusações gratuitas e amadoras apenas porque há quem prefira emitir opiniões sem antes procurar compreender os factos ou os enquadramentos legais. O debate público exige mais do que reacções imediatas; exige leitura, reflexão e capacidade de raciocínio.
O jornalismo, quando exercido dentro da legalidade e com responsabilidade, não é um inimigo do Estado. Pelo contrário, constitui um dos pilares fundamentais de qualquer sociedade que se pretenda democrática e institucionalmente madura.
O jornalismo de persistência (insistir na mesma temática) existe, está estudado e faz parte das práticas reconhecidas da profissão. Ignorar isso é apenas mais um sinal do empobrecimento do debate público e do nosso “nível” de raciocínio.
*Jornalista e diretor do portal “A Denúncia”