Estradas mortíferas e um país por reagir – António Tavares
Estradas mortíferas e um país por reagir - António Tavares
acidente mala

Todos os dias, em Angola, famílias recebem notícias que rasgam o silêncio das casas: alguém não volta. Não chega. Fica na estrada.

A sinistralidade rodoviária deixou de ser apenas um problema de trânsito e transformou-se numa tragédia persistente, silenciosa e profundamente humana, que continua a marcar o país com perdas difíceis de aceitar.

Os números confirmam essa realidade dura: em 2024, Angola registou mais de 12 mil acidentes de viação, que provocaram cerca de 3.120 mortes e mais de 16 mil feridos, enquanto em 2023 foram contabilizados mais de 14 mil acidentes, com 3.121 mortos e quase 18 mil feridos.

A média mantém-se elevada, com cerca de nove vidas perdidas por dia, um retrato que revela a dimensão de uma crise que se arrasta no tempo sem sinais claros de inversão.

Já em 2025, apenas no primeiro semestre, mais de 1.400 pessoas perderam a vida nas estradas, demonstrando que o país continua preso a um ciclo de perdas constantes.

Mas, para além das estatísticas, são os acontecimentos recentes que devolvem rosto à tragédia.

No dia 7 deste mês, na província do Cuanza-Sul, um acidente envolvendo um autocarro resultou na morte de 24 pessoas, deixando dezenas de feridos e mergulhando várias famílias no luto.

Dias depois, 15 de Março, em Cabo Ledo (Icolo e Bengo), um novo sinistro provocou 10 mortos e 34 feridos, muitos em estado grave, num episódio que voltou a expor a fragilidade da segurança rodoviária no país.

Entre as vítimas, profissionais de saúde, gente que saiu para cumprir rotinas simples e nunca mais regressou. Dois episódios próximos no tempo, unidos pela mesma dor e pela mesma pergunta que insiste em ficar sem resposta.

Por detrás destes números e acontecimentos estão famílias desfeitas e futuros interrompidos. Em muitos casos, as vítimas são chefes de família, o que faz com que a perda humana se transforme também numa crise económica.

Crianças abandonam a escola, lares entram em situação de vulnerabilidade e sobreviventes enfrentam sequelas físicas e psicológicas que limitam a sua reintegração social.

O impacto estende-se às comunidades, onde o luto se repete e se acumula, criando marcas profundas.

Ao mesmo tempo, o país suporta custos elevados com assistência médica, reabilitação, danos materiais e perda de mão-de-obra activa, maioritariamente jovem, o que representa um entrave significativo ao desenvolvimento económico.

As causas continuam a ser conhecidas e repetidas: excesso de velocidade, condução sob efeito de álcool, imprudência, desrespeito pelas regras de trânsito, viaturas em mau estado técnico e deficiências em algumas vias.

Estamos em presença de factores humanos e estruturais que, combinados, transformam as estradas em cenários de risco permanente.

Motoristas noturnos e a fadiga que mata nas estradas

Entre os acidentes, saltam à vista, por serem os que causam mais vítimas, aqueles que ocorrem no período nocturno ou de madrugada, nas viagens de longo curso.

Em Angola, o controlo sobre motoristas profissionais, especialmente aqueles que trabalham de noite ou em rotas longas, é um ponto crítico de segurança rodoviária, pois a prática ainda enfrenta lacunas significativas.

Actualmente, a fiscalização sobre motoristas profissionais concentra-se principalmente em exames de condução e reinspecções periódicas de viaturas, para garantir que os condutores têm habilitação válida e que os veículos estão em boas condições de circulação.

Porém, não existe o controlo de horários e registos de trabalho, a exigência de livros de bordo ou sistemas electrónicos para monitorar o tempo de condução.

No entanto, esta fiscalização é muitas vezes irregular, especialmente no transporte informal ou fora dos grandes centros urbanos.

Além disso, deve-se realizar campanhas de sensibilização para alertar sobre os riscos do cansaço e da condução nocturna, incluindo avaliações médicas sistemáticas dos condutores.

No que toca à avaliação física e mental periódica, Angola ainda não possui um sistema contínuo como o que existe em alguns países, onde motoristas profissionais passam por exames médicos e psicológicos regulares.

Um sistema deste tipo incluiria avaliações médicas periódicas, como pressão arterial, visão, audição, controlo de doenças crónicas como diabetes ou problemas cardíacos e respiratórios que possam comprometer a condução, avaliações cognitivas e psicotécnicas, para medir atenção, reflexos, capacidade de decisão, reacção a estímulos e fadiga mental, e controlo de sono e horas de trabalho, garantindo que os condutores não excedam limites de horas consecutivas de condução.

No cenário ideal, motoristas profissionais teriam certificações válidas por períodos definidos, renováveis mediante exames periódicos, geralmente entre um e dois anos, dependendo do tipo de transporte e do risco associado.

Contudo, em Angola, na prática, este acompanhamento é pouco sistemático, e muitas vezes a renovação da licença depende apenas de apresentação de documentos administrativos ou exames básicos, sem avaliação profunda da capacidade física e mental para enfrentar turnos longos ou nocturnos.

Isso significa que grande parte dos acidentes envolvendo motoristas de noite pode estar associada ao cansaço acumulado e falta de monitoramento da aptidão física e cognitiva, problemas que poderiam ser mitigados se houvesse um programa nacional de avaliação periódica e obrigatória para profissionais de transporte públicos.

A ausência de um sistema contínuo e rigoroso transforma as estradas em cenários de risco permanente, em que cada viagem nocturna pode ser fatal, tornando urgente a implementação de políticas eficazes de controlo, fiscalização e avaliação médica, capazes de preservar vidas e reduzir a tragédia constante que assola as famílias angolanas.

E, apesar das medidas anunciadas pelas autoridades, como o reforço dos exames de condução, as reinspecções de viaturas e as campanhas de prevenção realizadas aos fins-de-semana, a percepção generalizada é de que estas acções se concentram sobretudo nos grandes centros urbanos e têm alcance limitado fora das cidades.

Nas estradas interprovinciais, onde ocorrem muitos dos acidentes mais graves, a fiscalização é escassa e irregular, permitindo a circulação de viaturas em más condições e a adopção de comportamentos de risco sem controlo efectivo.

Essa aparente desigualdade na aplicação das medidas levanta dúvidas sobre a sua eficácia real. Sem presença contínua das autoridades, sem controlo rigoroso ao longo das principais vias e sem uma cultura de responsabilidade consolidada, as campanhas tendem a perder impacto e a transformar-se em acções pontuais, incapazes de travar a dimensão do problema.

A prevenção, para surtir efeito, precisa sair do espaço urbano e alcançar todo o território, de forma consistente e permanente.

Entretanto, enquanto se discutem soluções, o país continua a perder vidas. O luto instala-se em silêncio, casa após casa, família após família, como uma dor que já não surpreende, mas que nunca deixa de ferir.

Angola enfrenta um desafio urgente que exige responsabilidade colectiva e acção efectiva, porque, no fim, não são estatísticas que se perdem, são vidas que deixam de existir, sonhos que se interrompem e futuros que ficam pelo caminho.

*Jornalista da Angop

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