
No dia 4 de Abril de 2026, Angola celebra 24 anos de paz desde o fim do conflito armado. Este marco histórico deveria simbolizar estabilidade, reconciliação e progresso. Contudo, o panorama político revela contradições profundas: apesar da paz formal, o país continua a viver sob um regime que se alimenta da repressão e da manipulação.
Angola não vive uma democracia; vive um teatro. Desde 1975, o regime ergueu-se como um actor errático, que veste a máscara da legalidade mas carrega nos bastidores a violência e a mentira. O povo é espectador forçado de uma peça onde o desfecho já está escrito: a manutenção do poder a qualquer custo.
As ruas conhecem o sangue dos inocentes, como no massacre dos taxistas em 2025, que não é acidente mas método. Os tribunais transformam-se em palcos de farsas, onde julgamentos são encenados para legitimar a repressão. A juventude é embriagada, a oposição é difamada, e a democracia é reduzida a uma caricatura grotesca.
Para o exterior, o regime vende a ilusão de estabilidade. Organiza cimeiras, contrata lobistas, manipula parceiros internacionais. Mas por trás da cortina, o que se vê é um país onde a fome é política de Estado e a esperança é moeda de troca.
Por conseguinte, Angola vive sob o peso de um regime que se alimenta da repressão e da mentira. O poder instalado não governa para o povo, mas contra o povo. Enquanto o mundo avança, Angola é empurrada para o pântano do subdesenvolvimento, onde a fome e a miséria são usadas como instrumentos de manipulação eleitoral.
Este padrão enquadra-se na tipologia dos regimes híbridos, que mantêm a aparência de democracia mas operam sob práticas autoritárias, como referem Levitsky & Way¹, que passam por uma panóplia em que se incluem estruturas de segregação política, bem como estratégias de dominação, asfixia e subjugação e condicionamento internacional.
Acrescido a isso, observa-se manipulação de dados censitários e eleitorais, associada ao reforço do estado policial, muito próximo de modelos observados nos países autocráticos, onde o controlo administrativo serve para perpetuar elites no poder, como nota Raftopoulos, in The Hard Road to Reform.
Não falta a alienação da juventude por meio de álcool e drogas, algo que pode ser interpretado como uma forma de engenharia social, semelhante às políticas de “panem et circenses” usadas em regimes clássicos para neutralizar a crítica popular (Finley, 1983).⁴
Juntam-se, por último, a realização de cimeiras internacionais e a contratação de lobistas estrangeiros, reflectindo a busca de legitimidade externa.
Escalonados nos respectivos eixos e estratégias, seguem-se factos coligidos, devidamente verificados, que o regime angolano tem vindo a tecer, sinistra e zelosamente, com vista a manutenção do poder em 2027:
Políticas de segregação
1 – Adoptar e disseminar uma narrativa propagandística de autovitimização baseada, invariavelmente, na conspiração e preparativos de golpe de Estado da UNITA e parte da sociedade civil contra o poder instituído;
2 – Usar o poder judicial e os órgãos de defesa e segurança para encenação de trabalhos de investigação criminal e forjar julgamentos baseados em dados fictícios sobre terrorismo, a exemplo do famigerado caso das 60 toneladas de explosivos, ocorrido na comarca do tribunal do Huambo;
3 – Forjar e simular manifestações tumultuosas para reprimir e assassinar o povo, a exemplo do massacre de mais de 90 cidadãos na suposta greve dos taxistas ocorrido nos dias 28, 29 e 30 de Julho de 2025 nas províncias de Luanda, Lunda-Norte, Huambo, Kubango, Malanje e Icolo Bengo. Ficou claro que o objectivo visava inculcar o medo na sociedade;
4 – O anedótico julgamento do “caso russo”, em curso no tribunal da comarca de Luanda, sobre a narrativa de ficção de terrorismo e actos preparatórios de golpe de Estado;
5 – Assassinato de índole política do líder da oposição Adalberto Costa Júnior e da imagem da UNITA, permanentemente citados em todas as estórias acima enumeradas, entre outras manigâncias e encenações geralmente engendradas e disseminadas por via da TV-Zimbo, TPA, RNA, e pelas milícias digitais do regime, Casa de Segurança do Presidente da República, os tribunais e serviços de inteligência – sempre com o objectivo de denegrir a imagem dos mesmos e desacreditá-los junto da comunidade internacional;
6 – Implantação e institucionalização da fome como meio de controlo emocional para obter o voto do povo através de programa de esmolas como o Kwenda, bem como a instrumentalização sazonal da cesta básica e outras oferendas eleitorais.
Política de desarticulação e asfixiamento
a) Proibição e criminalização de manifestações, repressão, tortura e assassinato de cidadãos manifestantes;
b) Reforço do Estado policial com aprovação de leis inconstitucionais que restringem direitos e liberdades dos cidadãos;
c) Uso do poder judicial como caixa-de-ressonância do sistema instalado;
d) Uso e transformação dos serviços de inteligência e segurança do Estado em polícia política do regime instalado;
e) Omissão do número real da população angolana e dos eleitores em particular por via de dados do censo fictício e fraudulento realizado em 2024;
f) Controlo demográfico e instrumentalização do eleitorado por via da famigerada nova divisão político-administrativa, em simultâneo com a procrastinação da implementação das autarquias locais;
g) Manutenção controlada da crispação do ambiente político, insegurança jurídica e ajustes directos versados na contratação simplificada – com o objectivo de defenestrar a classe empresarial não obediente, controlar o fluxo de capitais, evitar a concorrência de mercado, controlar o investimento externo obediente e promover o enriquecimento primitivo do partido no poder e amigos;
h) Fechar todas as vias de alternância política por meio do empobrecimento do país, da implantação da fome e através da cooptação de grupos económicos de interesse;
i) Eliminação da classe média e dos empresários nacionais de vocação;
j) Vulgarização da educação, formação e ensino e banalização da vida social;
k) Coisificação da vida pela ausência de um sistema de saúde em condições, bem como a implementação da teoria de “cada um salve-se por si”.
Estratégia de domínio e alienação do povo
1 – Programar e organizar maratonas alcoólicas para embebedar e drogar a juventude com o objectivo de alienar as suas mentes;
2 – Fazer ajuntamentos de pessoas de várias províncias num só comício para ludibriar e vender a falsa imagem de aceitação do regime pelo povo;
Estratégia de condicionamento da comunidade internacional
1 – Promover e realizar cimeiras internacionais com o fim de vender a falsa imagem de estabilidade económica, política e social do país;
2 – Manter a empresa INDRA como entreposto no processo eleitoral – forma de condicionar a União Europeia induzindo-a a legitimar o regime;
3 – Contactar, comprar e trazer figuras internacionais com o intuito de transformá-las em lobistas do regime junto dos seus países;
4 – Por via da manipulação e propaganda, sedar e mobilizar a classe média a favor do partido da situação;
5 – Difamar, injuriar e manchar a imagem do líder da oposição em Angola, Adalberto Costa Júnior, e da UNITA junto da comunidade internacional como entes não credíveis.
Conclusão
A narrativa de autovitimização e conspiração contra a oposição, associada ao uso instrumental do poder judicial, reflecte práticas comuns em regimes que procuram deslegitimar adversários.
Casos como o julgamento do “processo russo” ou a simulação de manifestações tumultuosas exemplificam a manipulação da legalidade para fins políticos.
O panorama descrito confirma a persistência de um regime autoritário que combina repressão interna e manipulação externa. Ou seja, é evidente que o objectivo principal do regime é a busca de legitimidade junto da comunidade internacional face ao golpe constitucional que pretende desferir nas eleições gerais de 2027.
Assim sendo, é do seu interesse degradar e manchar primeiro a imagem do líder da oposição Adalberto Costa Júnior e do partido alternativo UNITA.
Em síntese, temos um regime que aposta na repressão interna e na manipulação externa para perpetuar-se no poder. A estratégia combine:
· Controlo social pela fome e empobrecimento.
· Controlo político pela repressão e manipulação eleitoral.
· Controlo internacional pela propaganda e compra de legitimidade.
Este quadro sugere que as eleições de 2027 não serão apenas um processo democrático, mas um campo de disputa entre a manutenção de um sistema autoritário e a possibilidade de abertura política.
Seja como for, num tal contexto, as eleições tenderão a ser um teste supremo: ou Angola rompe com o ciclo da manipulação, ou continuará a viver sob o jugo de um poder que prefere a morte à alternância. O povo angolano merece mais do que este teatro de sombras. Merece luz, verdade e liberdade.
*Deputado
Notas de Rodapé