A erosão silenciosa das FAA: entre o abandono e a descredibilização – Lando Simão Miguel
A erosão silenciosa das FAA: entre o abandono e a descredibilização - Lando Simão Miguel
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Há instituições que caem de um dia para o outro, com estrondo. E há instituições que caem devagar, quase sem ruído, como uma muralha antiga que se desfaz pedra a pedra enquanto todos fingem não ver.

Muitos analistas afirmam que as Forças Armadas Angolanas se encontram perigosamente próximas deste segundo cenário: uma degradação lenta, profunda, estrutural — e, sobretudo, silenciosa.

A metáfora da “lavandaria” usada por várias vozes críticas não é gratuita. Ela traduz a perceção de que a instituição deixou de ser um bastião de disciplina e soberania para se tornar um espaço onde tudo se mistura, se perde, se dilui.

Um lugar onde a ordem se desfaz, onde a autoridade se esbate, onde a dignidade se evapora. É um diagnóstico duro, mas o abandono descrito por muitos é ainda mais duro.

O filósofo Hannah Arendt escreveu que “o maior perigo para qualquer instituição não é o ataque externo, mas a corrosão interna”. E é precisamente essa corrosão interna que muitos observadores identificam nas FAA: quartéis degradados, falta de meios, ausência de investimento, perda de moral, desorganização estrutural. Não é apenas negligência — é erosão.

O que inquieta profundamente é a sensação, cada vez mais partilhada, de que esta erosão não é acidental. Há quem fale de um processo subtil, quase invisível, de descredibilização. Não um ataque frontal, mas um desgaste contínuo, prolongado, quase metódico.

O escritor George Orwell alertou que “a destruição de uma instituição começa quando se destrói a confiança nela”. E a confiança nas FAA, segundo muitos analistas, está a ser minada de forma alarmante.

Aos poucos, a instituição perde aquilo que nenhuma força militar pode perder: respeito. Autoridade moral. Credibilidade pública. E quando uma força armada perde credibilidade, perde tudo.

O abandono é descrito como assustador. Não apenas material, mas simbólico. O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu que “a fragilidade das instituições revela-se primeiro na indiferença dos que deveriam protegê-las”. E é essa indiferença — ou a perceção dela — que muitos consideram o elemento mais perturbador deste cenário.

O silêncio institucional que envolve este declínio é ensurdecedor. Não há explicações. Não há reformas anunciadas. Não há planos públicos. Apenas um silêncio pesado, quase cúmplice, que paira sobre a degradação como uma nuvem negra que ninguém tenta dissipar.

O historiador Paul Valéry escreveu que “as instituições morrem quando deixam de se defender”. E muitos temem que as FAA estejam precisamente nesse ponto crítico: incapazes de se defender do abandono, incapazes de se proteger da erosão, incapazes de recuperar a autoridade que um dia tiveram.

Num país onde a estabilidade depende profundamente da força e da integridade das suas instituições militares, este processo de degradação é visto como um risco grave. Não apenas para as FAA, mas para o próprio Estado. Porque quando o escudo se parte, a nação inteira fica exposta.

E é esse o aviso que muitos analistas deixam: se nada for feito, se o silêncio continuar, se a erosão prosseguir, o país poderá pagar um preço demasiado alto pela negligência que agora se normaliza.

*Investigador em Segurança e Defesa

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