
O principal factor que motivou a guerra em Angola foi o radicalismo ideológico. A afirmação é do nacionalista e diplomata Hendrick Vaal Neto, que contribuiu na luta pela libertação nacional, inicialmente pela UPA/FNLA, passando depois, já no início da década de 90 do século passado, para o MPLA.
“As diferenças ideológicas foram levadas ao extremo. E isso acabou por alimentar o conflito”, disse, em entrevista ao Jornal de Angola, sublinhando, entretanto, que “não lutámos por partidos, lutámos por Angola”.
O seu nome é pouco comum. Qual é a origem da sua família?
Hendrick Vaal vem do meu bisavô, que era holandês. E o meu avô se chamava Pedro Hendrick Vaal. Então, o meu pai teve que acrescentar o Neto para distinguir do meu avô. Pedro Hendrick Vaal é o nome, efectivamente. E esse Neto não é o nome, mas é a característica para distinguir do avô.
Em que circunstâncias o seu bisavô vem para Angola?
Naquela altura, primeiro foram para o Sudoeste Africano (actual Namíbia), e depois migraram para Angola. E foi para a região do Ambriz. Eu acho que era comerciante. Mas a dada altura, voltou para a Europa, mas já não foi para a Holanda, foi para a Alemanha. Levou uma das filhas feita cá em Angola, com uma angolana negra do Ambriz. Mas tinha uma outra filha que era mais nova, Júlia, que ia ficar com a mãe. O meu avô tinha naquela altura quinze anos. Disse ao pai que não podia partir porque não podia deixar a mana, a irmã mais nova e a mãe sozinhas. Não aceitou ir com o pai para a Alemanha. Ficou com todas as responsabilidades. Ficou a trabalhar para poder sustentar a família, mas o pai e a irmã mais velha voltaram para a Alemanha. Essa é praticamente a história do nome Hendrick Vaal.
E o seu avô viveu durante muito tempo no Ambriz?
Nasceu no Ambriz, lá cresceu, estudou e a dada altura vieram para a região do Dondo. Segundo conta a família, as minhas tias, teve alguma dificuldade, era obrigado a trabalhar para poder aguentar-se. E trabalhou, começou a dedicar-se também à agricultura. Depois de algum tempo, decidiu ir para Luanda e daqui para a região de Nambuangongo. Trabalhou algum tempo com o Zé Graça, com grandes comerciantes e agricultores portugueses. E a dada altura comprou também os seus terrenos em Nambuangongo. E ali desenvolveu uma certa agricultura, tornou-se um dos grandes plantadores de café da região. Mas algumas circunstâncias obrigaram-no a abandonar a agricultura. Vendeu as suas fazendas e comprou terrenos aqui na cidade de Luanda. Nos últimos trinta anos da sua vida dedicou-se à construção. Tanto é assim que era, talvez de todos os angolanos, o que mais casas tinha aqui dentro da cidade de Luanda. Tinha casas nos Antigos Combatentes, no Bairro Marçal, onde nós morávamos, enfim, tinha em Luanda 114 casas. Vivia praticamente disso, até que em 1972 ou 73 faleceu e as casas ficaram como herança.
Como é que eram as relações entre as diferentes camadas da sociedade angolana na altura da sua juventude entre brancos, negros, assimilados e indígenas?
Eu nasci numa altura em que já havia uma certa efervescência, de um sentimento nacionalista no seio da população angolana. Desde criança, na Ganda, por exemplo, eu ia para a escola, era miúdo, e já me sentia mal quando via miúdos como eu, com que nós brincávamos e às tantas eles desapareciam, iam para as matas, praticamente para os subúrbios, para as zonas periféricas das vilas. As zonas periféricas das vilas eram as sanzalas, naquela altura. E ficavam ali. Isso me impressionava um bocadinho. Não sei por que razão, mas já me impressionava. Havia um racismo evidente. A forma como os colonos tratavam os angolanos e o próprio sistema colonial era terrível. Além do contrato, que era uma forma de escravatura, tratavam mal as pessoas. O contrato era uma escravatura disfarçada, camuflada pelas autoridades coloniais. Na prática, obrigavam os jovens angolanos a trabalhar nas fazendas. Para os forçar a esse trabalho, eram frequentemente raptados das suas sanzalas. Alguns conseguiam fugir, mas muitos eram capturados pela administração local e enviados para longe das suas comunidades, onde eram obrigados a trabalhar nos latifúndios.
Na sua família, por exemplo, havia indígenas? E como é que era a relação dentro da própria família?
Havia indígenas, sim. A maior parte era indígena. Era normal, sim. Todas as famílias tinham indígenas, de certeza. Tudo dependia da forma como cada família recebia o familiar que vinha do mato para casa. Havia pessoas que não tinham consciência de que estavam a ser manipuladas pelo sistema. Alguns chegavam mesmo a pensar que eram brancos de pele negra, é verdade. Havia, por exemplo, raparigas que não queriam nada com negros e procuravam envolver-se apenas com brancos.
Tem algum episódio que o tenha marcado no tempo colonial, pessoalmente?
Na minha juventude, houve um episódio marcante em Luanda, no Bar Jinga, no Marçal. Eu tinha um colega, o Borges Bamba, com quem estava quase sempre. Naquele tempo estudávamos juntos nos Maristas. Certo dia, vínhamos de São Paulo para casa quando vimos um grupo de pessoas reunidas, a discutir. Perguntámos o que se passava. Disseram-nos que uma senhora portuguesa branca tinha atropelado um homem negro e alegava que ele estava bêbado. Entretanto, alguns brancos que estavam no bar começaram a confirmar essa versão, dizendo que a senhora não tinha culpa e podia ir embora. A situação começou a atrair cada vez mais gente. Nessa altura, já havia um sentimento nacionalista bastante forte e muitos estavam apenas à espera de uma oportunidade. Foi então que o meu amigo Borges Bamba deu uma cabeçada a um dos brancos que defendia a senhora. A partir daí, instalou-se uma verdadeira luta entre negros e brancos — e eu estava no meio daquela confusão. Houve um confronto mais directo entre um angolano chamado Gamboa e um branco, ambos de porte físico grande. Agarraram-se e começaram a lutar aos socos. A confusão em volta parou por momentos, e todos ficaram a assistir para ver quem iria ganhar.
Quando é que começa a ouvir falar dos movimentos de libertação?
Pois, olha, esse episódio já é, de certa forma, uma manifestação do movimento de libertação. Em Luanda, sobretudo, começaram a formar-se pequenos grupos que se reuniam, muitas vezes, em bares, para discutir o colonialismo, os portugueses e a situação do país. Com o tempo, esses grupos foram-se organizando melhor e deram origem a movimentos mais estruturados. Isso começou a acontecer por volta do final dos anos 50, sobretudo a partir de 1957. Nessa altura, começaram também a surgir alguns nomes que se tornariam referências, verdadeiros ícones do movimento. Entre eles, posso destacar Emílio de Carvalho, o bispo, Agostinho Neto, Simão Toko, Tolante Buta. Então, esses nomes começam a surgir e acabam por servir como uma espécie de estímulo, pois eram vistos como heróis ainda em vida. Se me perguntar exactamente porquê, é difícil explicar o fenómeno. Mas a verdade é que sempre que se falava de um desses ícones, toda a gente os conhecia e sentia-se inspirada por essas figuras. A dada altura, começaram a formar-se organizações clandestinas, sobretudo no final dos anos 50. Ao mesmo tempo, falava-se cada vez mais dos presos políticos — africanos, militantes, pessoas ligadas a essas movimentações. E essas prisões, em vez de travarem o movimento, apenas intensificavam ainda mais a revolta. Assim, essas organizações foram-se consolidando e, como seria de esperar, eu próprio acabei por integrar uma das células.
Algumas eram células ligadas ao exterior, outras eram clandestinas, associadas à UPA, ao MPLA, ao Partido Comunista Português, entre outras, e já se encontravam espalhadas. Havia também organizações criadas por nós aqui. No meu caso, por exemplo, eu pertencia a uma chamada Frente Unida da Juventude de Angola, que mais tarde passou a designar-se Movimento Angolano da Juventude Estudante, MAJE. O presidente dessa organização era o doutor Alberto Neto.
Como é que se sentiu com o levantamento do 15 de Março?
Bom, não posso dizer que fiquei contente, porque ninguém fica contente com violência. Mas senti que era uma resposta. Eu tinha visto os portugueses a massacrar o nosso povo. Tinha um tio que trabalhava no transporte de café e algodão no Norte de Angola, e ele contou-me o que se passou na Baixa de Cassanje. Quando ouvi esses relatos, e depois vi o que aconteceu a 15 de Março, já não me surpreendeu. No 4 de Fevereiro, em Luanda, os colonos ocuparam os prédios altos e disparavam sobre os negros como se estivessem a caçar coelhos. Bastava alguém ter o azar de vestir, por exemplo, um calção preto, para ser imediatamente morto. Não havia detenções — era execução no local. Por isso, quando aconteceu o 15 de Março, para mim foi uma reacção a toda essa violência. Muitas vezes condena-se rapidamente esse levantamento, e de facto foi terrível, mas é preciso lembrar também o que o antecedeu. Houve situações extremamente brutais. Por exemplo, aqui em Luanda, creio que no Sambizanga, chegou a haver locais onde se concentravam populações negras, em condições desumanas, com relatos de violência extrema.
Apesar de toda a brutalidade, esse momento acabou por aliviar, de certa forma, a pressão sobre a população, porque os portugueses reduziram a intensidade das suas acções repressivas nas cidades. Foi o culminar do movimento clandestino de libertação. A partir daí, era preciso tomar posição: ou se era a favor ou contra. Quem podia, juntava-se ao movimento. Foi nessa altura, já com dezassete ou dezoito anos, que decidi assumir-me como membro de uma organização clandestina e posicionar-me claramente a favor da luta de libertação. Uns tinham contactos com o MPLA, outros com a UPA. E quando surgiu a oportunidade, a decisão foi clara: “Vamos para o Maqui”.
Quem o contactou? Como é que saiu? Como é que foi essa saída?
Nós já estávamos muito cansados do colonialismo. A dada altura, percebemos que falar já não bastava. Já tínhamos falado muito — era necessário agir. Outros já estavam a lutar, e nós tínhamos de nos juntar a esse esforço de libertação. Sabíamos que a guerrilha não estava muito longe, estava ali na zona de Caxito. O problema era chegar até lá. Havia quem tentasse sair pelo Ambrizete. Outros fugiam de barco para Cabinda, que também era uma via de saída.
O Presidente José Eduardo saiu por Cabinda. Mas essa rota era mais difícil…
Exactamente, muito mais difícil, porque implicava apanhar barco. Então, decidimos que tínhamos de furar as linhas. Dentro da nossa organização, informámos que íamos formar um grupo para seguir para o Congo, atravessando a zona de conflito. Havia também muito receio em relação à UPA, porque os portugueses espalhavam a ideia de que matavam indiscriminadamente — brancos, negros, todos. E, recordando os acontecimentos do 15 de Março, isso criava algum medo e incerteza. Ainda assim, decidimos avançar. Tomámos a decisão de nos prepararmos para atravessar, de qualquer forma, as linhas portuguesas e entrar no território controlado pelos movimentos de libertação. E começámos, então, a preparar essa travessia. Estava com Eduardo Valentim, Diogo de Jesus, Alexandre Rodrigues e João do Físico.
Como é que chegam ao Congo?
Passamos por uma série de situações durante a nossa viagem até que chegámos na zona de Banza Bungo, Ambriz. Aquela área já era zona de combate da UPA, no Ambriz. A partir daí, fomos encaminhados para o quartel do Ndulo, onde se encontrava a sede. Ficámos lá durante algum tempo, alguns dias, integrados nas actividades. Foi também nessa altura que encontramos, por coincidência, o chefe das operações da UPA. Depois disso levou-nos para o Congo a pé. Levámos praticamente dois meses. Mas nós estávamos a acompanhar o comandante, que estava em missão. Aproveitámos essa deslocação para seguir com ele até ao Congo. Pelo caminho, houve vários episódios. Por exemplo, quando passámos pelo Ambrizete, estava em preparação um ataque à administração local.
Quem os recebeu no Congo? Como foi a recepção?
A minha chegada ao Congo deu-se após uma travessia bastante penosa da fronteira. Fomos recebidos inicialmente por um delegado da UPA na fronteira. Em Kinshasa, já fomos recebidos pelos dirigentes da UPA. Havia o Rosário Neto, o Fernando Gourgel, o Secretário-Geral da UPA, que era o Jonas Savimbi. Estava ainda o Alexandre Tati, entre outros.
Em algum momento sentiram que tinham sido maltratados por serem de um grupo étnico diferente? Existiam problemas étnicos no seio do movimento?
Não, ao longo de toda a viagem, nem durante a nossa estadia em Kinshasa, não houve qualquer sinal de tribalismo, nem em relação a mim, nem em relação a qualquer outro. Pelo contrário, quando chegámos à UPA, o esforço que fizemos — juntamente com os que já lá estavam, como o comandante Miranda e outros — foi precisamente reforçar o espírito de unidade nacional. Devo dizer que, durante algum tempo, esse espírito prevaleceu. É verdade que a UPA tem origem na UPNA — União dos Povos do Norte de Angola —, mas, quando a luta de libertação se intensificou, já funcionava como UPA. Nessa altura, o líder era o Presidente Holden Roberto. Antes dele, a liderança tinha sido de Barros Nekaka, que era tio materno de Holden Roberto. Barros Nekaka era um homem muito reservado, muito isolado. Talvez por causa da posição que já não ocupava. Era pouco interventivo. Por outro lado, havia figuras como o velho Eduardo Pinnock, que era muito activo — tanto na mobilização como na organização do movimento. Já Barros Nekaka não.
Fala-se pouco das mulheres da UPA…
Exactamente. Há uma lacuna na forma como essa história tem sido contada. Nós, por exemplo, chegámos a conhecer unidades militares completamente femininas. Embora houvesse combates mistos, também existiam unidades organizadas só por mulheres, ligadas a figuras como Pedro Afamado, Margoso e outros. Houve, de facto, muitos casos de heroísmo — e de elevado nível.
Mas era sua intenção ir para a UPA desde o início ou foi um acaso?
Não foi acaso. Foi intenção. Os jovens daquela época, em Luanda, tinham consciência das diferenças entre os movimentos de libertação. Sabíamos que a UPA estava activa nos Maquis do Norte, e foi por isso que me dirigi para lá. Além disso, eu tinha familiares ligados à UPA. Não de forma aberta, claro, mas em estruturas clandestinas e em contacto com o movimento. Portanto, eu já conhecia a UPA. O que, a certa altura, gerava dúvidas eram os relatos de massacres. Dizia-se: “A UPA mata tudo, não distingue ninguém.” Isso criava receio. Mas, depois de lá estar, percebi que essa ideia não correspondia totalmente à realidade. É verdade que houve episódios de grande violência, mas é preciso compreender o contexto: tratava-se de um levantamento popular, generalizado. Em muitas situações, havia trabalhadores que tentavam defender os seus patrões nas fazendas. Perguntavam-se: “Vou deixar o meu patrão ser morto?” E, ao tentarem defendê-los, acabavam também por ser mortos.
No entanto, nós, jovens angolanos em Luanda, sabíamos que existiam diferentes movimentos — o MPLA de um lado, a UPA do outro. O que nós queríamos era a união. No meu grupo — com o doutor Alberto Neto e outros — a orientação era clara: quando chegássemos ao exterior, devíamos defender a união entre os movimentos, UPA e MPLA, para fortalecer a luta. Queríamos unidade. E, quando cheguei ao Congo, encontrei esse mesmo sentimento entre muitos jovens: todos perguntavam por que razão os movimentos não se uniam.
Mas qual era a razão dessa divisão?
Era, em grande medida, ideológica. Temos de ter coragem de admitir isso. Por exemplo, se alguém me dissesse: “Para aderir ao movimento, não pode praticar a sua fé”, eu não aceitaria. O marxismo-leninismo defendia que a religião era o “ópio do povo”. Ora, como é que eu, sendo religioso, me juntaria a um movimento que rejeita isso? Portanto, havia divergências profundas. Alguns eram muito radicais: queriam impor uma única linha ideológica. Do outro lado, havia também rejeição: “Aqueles são comunistas”, diziam. Ou seja, havia extremos de ambos os lados, o que dificultava a união.
Mas a FNLA também teve, em certos momentos, influência maoísta. Houve presença chinesa.
Não chegou a assumir essa linha de forma clara. Houve sim presença chinesa, mas já numa fase mais avançada da luta, e não como orientação ideológica dominante. Vieram técnicos chineses para trabalhar com a FNLA. Mas não houve imposição ideológica. Eles actuavam com base na sua própria orientação, enquanto nós mantínhamos a nossa. Ou seja, não se misturava ideologia com o apoio à luta de libertação. E, de facto, não houve intervenção directa.
Eram poucos — meia dúzia de oficiais que trabalhavam na base de Kinkuzo. Nunca vi russos ou chineses no “Maqui”. A presença deles limitava-se à formação de quadros ali, nessa base. Portanto, isso deve ser entendido no contexto da Guerra Fria. Tanto o bloco Ocidental como o bloco do Leste procuravam influenciar os movimentos africanos. Nós estávamos no meio disso tudo, sujeitos a tentativas de manipulação. O ideal teria sido termos consciência clara dessa situação e não transformar essas diferenças numa condição para a continuidade da luta. Não era necessário ser socialista para lutar, nem deixar de ser. A luta pela independência devia estar acima dessas divisões.
Os apoios vinham de diferentes lados. Movimentos considerados socialistas receberam apoios de sectores conservadores, e movimentos não socialistas também receberam apoio de países do bloco socialista. A FNLA teve apoio da China, enquanto o MPLA recebeu apoio da União Soviética. Nenhum desses apoios correspondia, de forma directa, à realidade interna dos movimentos. O problema foi que esse nível de compreensão não se consolidou entre os líderes. E isso acabou por alimentar divisões. Eu não acredito que a divisão tenha sido essencialmente étnica — não foi por serem bakongo, kimbundu ou umbundu. Não foi isso. Todos lutaram pelo país. Todos deram a vida, independentemente da origem. Houve até brancos — tanto de origem portuguesa como os chamados “brancos de segunda” — que participaram na luta.
Quais foram as primeiras tarefas que desempenhou dentro da UPA?
As minhas tarefas… bom, há algo que foi muito marcante para mim. Quando entrei no “Maqui”, vi muitas crianças. E a primeira coisa que pensei foi: “E a escola?” Esses miúdos iam ficar sem estudar? Quando cheguei ao Congo, a primeira coisa que fiz foi falar com os responsáveis sobre isso: “Como está organizada a educação das crianças no interior?”
Alguns diziam que já existiam iniciativas, mas eu achei que era preciso estruturar melhor. Então, propus a criação de uma rede de escolas no interior, nas zonas controladas pelo movimento. Começámos a mobilizar os delegados civis para apoiar essa iniciativa, sobretudo na logística: transporte de cadernos, lápis, borrachas e outros materiais.
E quanto aos professores, a ideia era aproveitar todos aqueles que tinham alguma formação — especialmente os que vinham das igrejas, protestantes ou católicas, ou que já tinham sido professores rurais. Esses deveriam ser destacados para o ensino, mesmo que tivessem de ser retirados das actividades militares. Felizmente, essa proposta foi bem acolhida no seio da UPA. E acabou por se criar, de facto, uma rede de escolas. Mais tarde, tive também a oportunidade de trabalhar na Rádio Congo, na Rádio Congolesa. A Rádio Congolesa tinha um programa em português. Eu e o meu colega Miranda trabalhávamos lá. E recebíamos como expatriados.
Já no Congo, dá-se a dissidência de Jonas Savimbi. Como foi isso? Isso provocou grandes danos à imagem da FNLA?
Sim, já estava no Congo nessa altura. O Savimbi tinha as suas próprias ambições particulares. Sinceramente, prefiro não aprofundar muito esse aspecto. Sei que saiu da FNLA, passou pelo MPLA, depois seguiu para a Suíça, mais tarde para a China e, finalmente, para a Zâmbia, onde fundou o seu próprio movimento. Do ponto de vista político e diplomático, sim, teve impacto. A sua saída, especialmente quando apresentou a demissão numa conferência no Cairo, causou grande repercussão. Mas, no plano militar, não afectou directamente a luta armada.
Como descreve Holden Roberto?
Era um homem pacífico, magnânimo. Procurava fazer o bem, tinha uma visão muito marcada por valores cristãos. No entanto, tinha algumas debilidades. Uma delas era o conhecimento limitado da realidade interna do país, da sua diversidade cultural. Além disso, acabou por se deixar influenciar por pessoas à sua volta com ambições excessivas. Muitos de nós — eu, Moisés Kamabaya, Eduardo Pinnock e outros — tentámos alertá-lo para certos erros. Fomos falar com ele directamente, dizendo: “Há decisões que precisam de ser revistas.” Dissemos: “Há um problema que precisa de ser corrigido. Se não for, não vamos avançar.” Ele ouvia, mas mantinha a sua posição. E isso teve consequências. Não foi apenas a perda de uma ou outra figura — houve afastamentos importantes dentro da direcção. Por exemplo, houve também situações graves como a de Kinkuzo.
O que aconteceu em Kinkuzo?
Em Kinkuzo houve uma crise interna. Muitos dos oficiais da FNLA tiveram formação no exterior — na Índia, Argélia, Congo e até experiência no exército português. Eram quadros bem preparados, e queriam avançar para o interior de Angola. Numa dessas operações, quando o chefe de operações tentou entrar em Angola, o grupo caiu numa emboscada e tiveram de recuar. Posteriormente, surgiu a convicção de que a emboscada tinha sido facilitada por um traidor dentro da própria organização. Perante isso, os oficiais foram falar com Holden Roberto e disseram: “Senhor presidente, para continuarmos a trabalhar, essa pessoa tem de ser afastada. Não podemos continuar assim.” Os oficiais disseram claramente: “Assim não podemos continuar. Está-se a pôr em risco a vida das tropas.” O problema é que Holden Roberto era uma pessoa muito emocional. Quando confiava em alguém, mantinha essa confiança. A situação agravou-se ao ponto de ele recorrer a Mobutu Sese Seko, informando-o de que havia uma revolta em Kinkuzo. Mobutu reagiu de forma dura: disse que não permitiria instabilidade no seu território e que, ou os envolvidos depunham as armas, ou o exército congolês interviria. Perante essa ameaça, os militares não tiveram alternativa. Foi então criada uma comissão, acompanhada por forças do exército congolês, que se deslocou a Kinkuzo. Ali, organizaram uma espécie de tribunal interno e começaram as execuções. Mataram todos os comandantes.
Isso ocorreu por volta de 1972 ou 1973. Dois ou três meses depois, o próprio Mobutu entregou a Holden Roberto documentos que comprovavam a existência de um traidor, com ligações ao lado português. Ou seja, os oficiais tinham razão nas suas suspeitas. Era o Peterson.
Como foi a convivência entre os três movimentos quando chegaram a Luanda?
Foi muito difícil. Houve muitos problemas. Também é preciso reconhecer que os portugueses tiveram um papel negativo nesse processo. Havia apoios diferenciados: uns apoiavam a UNITA, outros o MPLA, outros a FNLA. E essa divisão acabava por ser aprofundada. Mas o problema principal estava nos próprios movimentos. Cada um tinha objectivos diferentes e nunca se conseguiu construir um programa comum. Isso deveu-se, em grande parte, ao radicalismo ideológico. Se esse radicalismo não existisse, como hoje em parte já não existe, teria sido muito mais fácil encontrar pontos de convergência. Tivemos dificuldades em ultrapassar as limitações partidárias.
Passados 50 anos, como avalia as causas da guerra civil?
Continuo a dizer: o principal factor para a guerra foi o radicalismo ideológico. As diferenças ideológicas foram levadas ao extremo. E isso acabou por alimentar o conflito. Hoje, temos que ultrapassar essa lógica. Devemos deixar de pensar em termos de direita ou esquerda, Norte ou Sul. Temos que pensar em nós angolanos. Também devemos abandonar o peso excessivo de ideologias importadas, como eu chamava naquela altura. Naquele tempo, eram influências externas que muitas vezes não correspondiam à nossa realidade. A luta pela independência foi feita por todos: negros, mestiços, brancos, pessoas de todas as regiões — kimbundu, umbundu, lunda, cuanhama. Por exemplo, um dos grandes combatentes do Norte era o João Baptista Traves Pereira, que era do Sul, da região do Ambo.
Isso mostra que a luta sempre foi nacional, não regional. Portanto, o essencial hoje é outro: Precisamos de discutir programas — programas concretos para o desenvolvimento político e económico do país. É isso que deve orientar o futuro. Além disso, é importante compreender que o processo histórico angolano não começou em 1961. Vem de muito antes, desde as resistências dos reinos africanos, desde figuras como os Ndongo e outros líderes tradicionais. A independência foi um ponto alto desse processo, mas não o seu fim. A história continua. E os processos não devem ser interrompidos — devem evoluir continuamente.
Portanto, temos que garantir continuidade. Se há um processo histórico em curso, devemos levá-lo até aos seus objectivos. Mas esses objectivos precisam de estar bem definidos. A questão central é: o que é que queremos para o nosso país? É dessa resposta que nasce um programa. E é em torno desse programa que devemos trabalhar. Espero que todos os partidos estejam a caminhar nesse sentido, porque é fundamental.
Para terminar, qual é a sua mensagem à juventude angolana? Mensagem de um mais velho que viveu o colonialismo, que lutou contra o colonialismo, que venceu o colonialismo e que participou dos primeiros anos e grande parte da História de Angola até agora. O que é que os jovens devem fazer e o que não devem fazer para não repetir os erros dos mais velhos?
Bom, em primeiro lugar, aconselho os jovens a criarem entre si um profundo espírito de fraternidade. A juventude deve estar mais unida — dentro das famílias, mas também em todo o país. É preciso que os jovens se respeitem e se apoiem mais uns aos outros. Devem ter sempre presente um objectivo fundamental: viver Angola todos os dias.
Em segundo lugar, a educação. Os jovens devem levar a sua educação muito a sério. É através da educação que se adquirem os conhecimentos necessários para desenvolver o país. Sem educação, não há capacidade para implementar projectos, nem para melhorar as condições de vida individuais e colectivas.
Em terceiro lugar, a cultura. Os jovens devem valorizar a cultura angolana. Todas as nações têm a sua identidade cultural, e é isso que lhes dá personalidade. O jovem angolano não deve limitar-se a seguir culturas externas — portuguesa, brasileira, congolesa ou outras. Deve conhecer as suas origens e viver de acordo com a sua própria cultura.
Os jovens não devem ser radicais, sobretudo na política. Devem aprender a ouvir, a dialogar e a respeitar opiniões diferentes. A divisão enfraquece a nação. A abertura e a compreensão fortalecem-na. Portanto, a minha mensagem é esta: sejam unidos. Invistam na vossa educação. Valorizem a vossa cultura. E aprendam a viver em harmonia. Só assim será possível construir uma Angola mais forte.
in JA