Queda e descredibilização operativa da Polícia Nacional no Cunene – Altino Kapalacayela
Queda e descredibilização operativa da Polícia Nacional no Cunene - Altino Kapalacayela
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É justo começar por reconhecer o esforço diário da Polícia Nacional de Angola. Em condições muitas vezes adversas — marcadas por limitações de meios, pressão social e riscos constantes — são inúmeros os agentes que, com coragem e sentido de missão, garantem a ordem pública e a segurança das populações. Esse empenho merece respeito e valorização.

Todavia, o recente episódio ocorrido no Cunene, em que dois jovens numa motorizada, alegadamente ligados ao comércio ilegal de combustível, protagonizaram uma fuga que culminou na queda aparatosa de um agente, levanta uma questão incontornável: o que está, afinal, a falhar?

À primeira vista, poder-se-ia atribuir o sucedido à imprudência e ousadia dos jovens, que encaram a fuga à polícia como acto de bravura, alimentados por um ambiente social onde se incentiva, se filma e se banaliza o risco.

Este comportamento deve ser claramente condenado, pois coloca em perigo vidas humanas e fragiliza o respeito pela autoridade e seus agentes.

Contudo, o problema não se esgota aí. O episódio revela fragilidades mais profundas, de natureza institucional e operativa. A actuação policial em cenários de perseguição exige preparação técnica, meios adequados, coordenação e critérios claros de actuação.

Não basta a intenção de interceptar; é necessário saber como, quando e com que recursos agir. Quando um agente é exposto a situações de alto risco sem o devido suporte, o resultado tende a ser não apenas ineficaz, mas perigoso.

Estamos, assim, perante uma dupla crise: por um lado, a banalização da ilegalidade por parte de alguns cidadãos; por outro, vulnerabilidades na resposta operativa da própria polícia.

A consequência é grave — cada incidente desta natureza não só coloca vidas em risco, como também corrói a confiança pública e contribui para a descredibilização da instituição.

Perante este quadro, impõe-se uma resposta concreta e estruturada.

Em primeiro lugar, é essencial reforçar a formação técnica e contínua dos agentes, com foco em perseguições, avaliação de risco e actuação coordenada.

Em segundo lugar, torna-se indispensável melhorar os meios operativos, garantindo motorizadas adequadas, equipamentos de protecção e sistemas de comunicação eficazes — porque a coragem não pode substituir a responsabilidade institucional.

Em terceiro lugar, devem ser definidos protocolos claros para perseguições, estabelecendo quando agir e quando recuar, sempre com prioridade à vida e à segurança.

Em quarto lugar, é necessário apostar na prevenção e na inteligência policial, combatendo o comércio ilegal de combustível de forma estratégica, e não apenas reactiva.

Acresce a importância de reforçar a disciplina e a avaliação interna, valorizando o mérito e corrigindo falhas com sentido de justiça.

Paralelamente, é fundamental trabalhar a consciência social. A população precisa compreender que fugir à polícia não é sinal de coragem, mas de irresponsabilidade — e que incentivar ou divulgar tais actos contribui para um ciclo de risco e desordem.

Em síntese, a Polícia Nacional continua a ser uma instituição central no Estado angolano e merece reconhecimento pelo trabalho que desenvolve.

Porém, para preservar e reforçar a sua credibilidade, é indispensável enfrentar com seriedade as fragilidades existentes, investir na sua capacidade operativa e adaptar-se às exigências actuais.

Criticar o que está mal não é desvalorizar — é contribuir para uma polícia mais forte, mais respeitada e mais eficaz ao serviço de Angola.

*Teólogo (Teologia Sagrada pela Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma)

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