A derrota pré-anunciada de Higino Carneiro – Lukebano Simão
A derrota pré-anunciada de Higino Carneiro - Lukebano Simão
Higino Carneiro

Embora os estatutos partidários ofereçam uma moldura legal, o MPLA rege-se por uma cultura própria e por dogmas enraizados. No ADN dos “camaradas”, a lealdade ao líder não é apenas uma opção, mas um pilar inamovível, independentemente das circunstâncias.

Higino Carneiro conhece profundamente esta engrenagem, pois ajudou a construí-la. O seu actual isolamento não é um acidente, mas sim uma consequência directa de ter desafiado essa mesma cultura.

A fragilidade da sua candidatura tornou-se evidente com ausência de “figuras de proa” que o apoiam, e a escolha do seu mandatário dissipou quaisquer dúvidas sobre a falta de tracção deste “4×4”.

Aqueles que supostamente o apoiam preferiram “enterrar a cabeça na areia”. No léxico do MPLA, esse silêncio é o sinal mais claro de que a candidatura não tem pernas para andar.

Historicamente, no MPLA, a transição de poder não é um processo espontâneo, mas sim uma sucessão orientada, coordenada e “abençoada” pelo líder em funções. Tentar forçar uma transição fora deste eixo é interpretar mal o manual de sobrevivência do partido.

Um dos sinais mais reveladores da pré-anunciada derrota de Higino é o entusiasmo que a sua candidatura desperta nas fileiras da UNITA. Tal como um candidato da UNITA que caísse nas graças do MPLA teria dificuldades em afirmar-se no “Galo Negro”, o inverso também é verdadeiro.

A vibração dos militantes do maior partido da oposição em torno de Higino gera, automaticamente, desconfiança e anticorpos no seio do partido dos camaradas.

Aquando da realização do congresso extraordinário do MPLA, que procedeu ao ajustamento pontual dos estatutos, um amigo ligou-me, entusiasmado, dizendo que os “mais velhos” do partido não deixariam passar tais alterações.

Perguntei-lhe: “Que mais velhos?”. E disse-lhe que aquele “sururu” não passaria de lamúrias nos cantos e nas redes sociais.

E foi exactamente isso que aconteceu. Ao aprovarem o ajustamento pontual aos estatutos, os militantes do MPLA deram um claro sinal de apoio à continuidade de João Lourenço na condução da transição do poder.

O processo orgânico que culminará no congresso de Dezembro já deu o seu veredicto implícito. Assim, o IX congresso do MPLA não será um campo de batalha, mas antes o palco da confirmação de uma vitória já decidida nos bastidores e consolidada pela defesa da bandeira e do líder.

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