Os generais silenciados – Lando Miguel
Os generais silenciados - Lando Miguel
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As Forças Armadas Angolanas vivem, desde a sua fundação, uma espécie de turbulência permanente — uma inquietação estrutural que nunca encontrou repouso. Mas o que hoje se observa ultrapassa a mera desorganização: é, como diria Hannah Arendt, “a lenta desagregação das instituições quando estas deixam de recordar a sua própria razão de existir”.

Não se trata de um colapso súbito, mas de uma desagregação interna, quase orgânica, que corrói silenciosamente os alicerces até que a instituição já não reconhece a própria sombra.

A desordem que se instalou não é apenas administrativa; é moral, simbólica, identitária. As FAA deixaram de formar militares comprometidos com as causas do país para, gradualmente, produzirem homens que pensam apenas em si mesmos — um reflexo de um sistema capturado por pequenos círculos de poder, gabinetes fechados e esferas que nunca compreenderam verdadeiramente o que significa ser a força armada de uma nação.

Zygmunt Bauman escreveu que “as instituições começam a morrer no exacto momento em que deixam de servir a comunidade e passam a servir-se a si próprias”. É difícil não ver este diagnóstico reflectido na realidade actual, como se tivesse sido escrito para este tempo e este lugar.

Hoje, sente-se a ausência dos generais de verdade — aqueles que, no passado, lutavam por causas justas do Estado, que não se escondiam atrás de secretárias, porque sabiam que o campo, o terreno, o contacto directo com a tropa era o único lugar onde a autoridade se legitimava.

Eram homens que compreendiam que a farda não é um adorno, mas um pacto — um pacto com a história, com o país, com os vivos e com os mortos.

O mais inquietante é que muitos desses generais ainda estão vivos. Alguns na reforma, outros na reserva, e até alguns no activo. Mas quase todos enfrentam o mesmo destino: foram silenciados, enfraquecidos, afastados, como se a sua experiência fosse uma ameaça e não um património.

Paul Ricoeur alertava que “uma nação que desvaloriza a memória perde também a capacidade de projectar o futuro”. E o que se vê hoje é precisamente isso: uma instituição que amputou a sua própria memória e, por isso, perdeu o horizonte.

Nos quartéis, a presença desses generais tornou-se rara. Não porque tenham deixado de se importar, mas porque foram empurrados para a periferia institucional, enquanto outros se ocupam de negócios, interesses paralelos e agendas que nada têm a ver com a missão constitucional das FAA.

A instituição, que deveria ser o escudo da República, vê-se transformada num espaço onde a lógica militar cede terreno à lógica comercial, onde a missão cede lugar à conveniência.

Frantz Fanon escreveu que “a decadência das instituições começa quando os seus dirigentes trocam a missão pelo conforto”. A frase ecoa com uma precisão dolorosa, quase profética.

O resultado é um corpo militar que perdeu o seu eixo moral. Uma força que já não produz líderes, mas funcionários; já não forma combatentes, mas gestores de conveniências; já não inspira respeito, mas desconfiança. A tropa sente essa ausência. A tropa vive essa ausência. A tropa carrega esse vazio.

E, no entanto, a tragédia maior é esta: ainda há tempo para recuperar, mas o tempo está a esgotar-se. Porque cada general silenciado é uma biblioteca que se fecha.

Cada quartel abandonado é uma fronteira simbólica que se perde. Cada militar que aprende a servir-se a si mesmo em vez de servir o país é uma fissura na armadura da República.

Albert Camus lembrava que “o verdadeiro perigo não é a queda, mas o hábito da queda”. E é esse hábito — essa normalização do declínio — que hoje ameaça as Forças Armadas Angolanas.

O que se vive não é apenas uma crise. É uma elegia. Uma elegia escrita em silêncio, nos corredores vazios, nas bandeiras desbotadas, nos uniformes que perderam o brilho, nos olhos de quem ainda acredita, mas já não sabe se deve acreditar.

E a pergunta final, aquela que ninguém ousa pronunciar, mas que paira sobre cada quartel como uma sombra antiga, é esta:

Será que ainda é possível regressar? Ou estamos apenas a assistir, impotentes, ao lento funeral de uma instituição que se esqueceu de si própria?

*Investigador em Segurança Defesa

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