
Miroslav Petrovic, antigo embaixador da ex-Jugoslávia (agora Sérvia) pisou solo angolano pela primeira vez, em 1988 e daqui, diz ele, “já não saio”. Depois de cinco anos como diplomata, virou-se para o mundo dos negócios e afirma que em Angola quem não quer dormir, pode ganhar dinheiro.
Fala das “excelentes relações” de ambos os países, mas sobretudo das oportunidades aqui existentes, em vários domínios, desde agricultura, indústria e mineração, bem como do “bom ambiente de negócios”.
Como avalia as relações diplomáticas entre Angola e a Sérvia?
Relações históricas entre Angola e a Sérvia, antiga Jugoslávia? A antiga Jugoslávia foi o primeiro país que reconheceu Angola, depois da independência em 1975. Eu conheço este país desde os anos 80. Lembro que os primeiros manuais escolares para o ensino de base em Angola foram impressos no meu país.
Portanto, a Sérvia também contribuiu de forma decisiva para a afirmação de Angola independente?
Exactamente. A cooperação entre ambos os países sempre esteve nos melhores marcos. Além de livros escolares, também foram impressos livros sobre o fortalecimento da cultura angolana, como manuais em kimbundo, ostchiwambo, kikongo, tchokue. Estes últimos já com o país sob denominação de Sérvia.
Nesta fase de luta pelo desenvolvimento, o que Angola pode ganhar da Sérvia?
Na área da agricultura, da construção. Andamos a identificar investidores que querem vir cá, havendo também angolanos com interesses lá. Portanto, as relações são excelentes.
A divisão da ex-Jugoslávia não representa um problema?
A economia da Sérvia é muito forte e rápida. Queremos a reciprocidade de interesses. Como sabe, em 2000, a Jugoslávia foi dividida em seis países independentes, nomeadamente, Sérvia, Croácia, Macedónia, Eslovénia, Montenegro e Bósnia Herzegovina.
A Sérvia ficou confinada a um peque no país?
Nem por isso. É o maior território dos seis novos Estados. Incluindo em ter mos de densidade populacional.
Como vê o desenvolvimento económico e social de Angola?
Angola tem boa política económica. O petróleo serviu para o contexto de guerra. Hoje, o petróleo subiu de preço no mercado internacional, mas é preciso olhar para outros recursos como agricultura e recursos minerais como coltan, ferro, ouro, diamantes. Há potenciatabilidades, ou melhor, grande reserva económica. O petróleo pode desempenhar um papel secundário, potenciando outras áreas.
Mas debatemo-nos com o problema da exportação de matérias primas em vez de exportar produto acabado, transformado localmente?
Transformar aqui é possível.
Por exemplo, lapidar aqui os diamantes, antes de serem exportados?
Já se faz lapidação de diamantes. Mas há programas a longo prazo. Em 1978 havia muitos analfabetos, ou seja 80 por cento da população era de analfabetos. Hoje em 2025/2026 temos 14 milhões de estudantes.
Está a falar da educação como factor essencial para o desenvolvimento?
É importante para desenvolver o país. Educação e saúde. Dá-se prioridade ao ensino. Angola tem recursos minerais mas também humanos que são funda mentais para alavancar todos os sectores da vida económica e social.
Mas a fatia do OGE para a educação ainda é vista como residual?
Penso que se dá uma fatia razoável, nesta fase de transformações. Se está a fazer o melhor. A educação tem sido colocada na primeira linha nas acções do Governo. Crianças sem educação há cada vez menos. De resto, com os recursos minerais e humanos existentes, Angola vai crescer.
Quanto tempo exerceu a diplomacia?
Como embaixador do meu país em Angola fiquei por cinco anos. Isto é, de 1998 a 2003. E logo que abandonou o casaco e a gravata da diplomacia decidiu entrar no mundo dos negócios.
Em que áreas actua?
Na agricultura, indústria transformadora e exploração de recursos minerais. Agora iniciamos uma fábrica para a produção de botas militares para acabar com a importação.
Qual é a capacidade instalada nesta fábrica?
A fábrica instalada em Malanje tem a capacidade de produzir 235 mil botas por ano, para as Forças Armadas. O objectivo é travar a importação desse material.
E a matéria-prima para essa indústria?
Ela é por enquanto importada da Índia, mas temos a estratégia de dar emprego e introduzir matéria prima local, porque temos informação de haver muito desperdício de peles nos matadouros existentes. Mas isso leva tempo.
Quanto tempo leva para acabar com a importação da matéria prima?
Pelo menos cinco anos. Aliás, em primeiro plano, o que pretendemos é dar emprego a 250 angolanos. Em segundo plano, temos a informação de que há 500 mil bovinos que são mortos anualmente nos matadouros. Com isso vamos transformar essas peles e potenciar a indústria de curtume e conseguir os nossos objectivos de reduzir a de pendência das importações.
E no domínio da agricultura, o que se está a fazer?
Temos fazendas. Temos interesse. Ou seja, estamos a investir na produção de milho. Sabe que Angola tem bom futuro. Só para recordar, depois da independência, na era dos presidentes Tito (Jugoslávia) e Agostinho Neto, o nosso Instituto do Milho esteve aqui e envolveu-se na produção experimental de milho no Kikuxi. Chegou-se a produzir milho em três safras anuais. Ou seja, três colheitas por ano, a partir do canal do Kikuxi. Temos aqui estas qualidades naturais excelentes: clima, solos e água favoráveis. Por isso reitero que Angola tem bom futuro.
Pelo seu percurso se pode dizer que conhece bem este país?
Em 1988 cheguei a Angola, mas de seguida viajei pela África e em nove dias conheci sete países: Senegal, Gabão, Congo Brazaville, RDC, Gana, Burkina Faso. De volta, debilitado, recebi quatro litros e meio de sangue, mas depois decidi devolver esse sangue num gesto humanitário.
Como?
Já como embaixador devolvi o sangue recebido. E acabei por me tornar dador de sangue por dez anos. É por isso que digo que aqui em Angola sinto-me bem.
Acha que os problemas sociais de hoje podem ser ultrapassados?
Podem ser ultrapassados, porque há políticas correctas que vêm sendo paulatinamente aplicadas nesse sentido pelo Executivo. A população é calma, pacifica e robusta. A África tem 54 países, conheço boa parte deles. Faltam nove países apenas, entre os quais, Malawi, Madagáscar, Cabo Verde e Ilhas Mauricias, mas é aqui onde me sinto em casa. O desporto também é parte importante. A Sérvia contribuiu igual mente no desenvolvimento do desporto, nomeadamente, futebol. Um treinador da Sérvia treinou o Petro de Luanda e a selecção nacional. E há também na Sérvia um jogador angolano a evoluir numa minha equipa de basquetebol. Isso é salutar.
Como analisa o ambiente de negócios?
Sempre melhor, com a inflação prevista de 8 por cento a12 por cento. Isso é muito bom. Penso que a política financeira é correcta , o câmbio estabilizou e acho que quem quer ganhar dinheiro, quem não quer dormir deve trabalhar, porque existem imensas oportunidades.
Aqui, portanto, é possível ganhar dinheiro e enriquecer?
Sim, é possível. A população de Angola é de mais de 35 milhões de pessoas a viver numa superfície de 1.270 mil km quadrados. O mercado existe, e há condições para todo o tipo de negócios. Aqui não há neve, só há duas estações, quando na Europa temos quatro estações. Logo, aqui é possível produzir alimentos suficientes para o consumo interno e exportar.
Em Angola se pode chegar a quatro colheitas ao ano?
Perfeitamente. Pode ser possível atingir até quatro colheitas durante o ano. Aqui se pode produzir em grande escala banana, abacate, portanto, frutos, mas também cereais e tubérculos que podem ser exportados.
86 anos sem cigarro nem álcool
Nasceu na localidade de Maidan, na Sérvia, numa casa humilde. Com muitos amigos em Angola, gosta de discoteca. Mas aos 86 anos, Miroslav Petrovic exibe uma vitalidade física e mental invejáveis. Tal é o resultado da actividade física intensa e não só.
“Tenho um hábito muito estranho: gosto de subir escadas de edifícios altos. Em Luanda já subi a pé 500 escadas do hotel Presidente, mais de 647 degraus da torre ambiente, 600 degraus do edifício Kilamba, torre Sonangol, etc. Em África já escalei o monte Kilimanjaro, e na Europa, a Torre Eiffel, em Paris”.
E brinca: “Para os meus amigos digo que não fumo, não bebo álcool e não tenho namorada”. Logo, o segredo para esta jovialidade, como sustenta, é a actividade física e o trabalho. Estudou direito e filologia. Por isso, fala alemão, francês e português. E ainda gostaria de aprender kimbundo, kikongo, entre outras línguas locais, como faz questão de sublinhar.
in Pungo a Ndongo