
O arcebispo emérito do Lubango, Dom Zacarias Kamwenho, uma das figuras mais influentes da Igreja Católica angolana e protagonista do processo de paz que contribuiu para o fim da guerra civil em Angola, morreu esta sexta-feira, aos 91 anos, após um período de internamento por doença no Complexo Hospitalar Cardeal Dom Alexandre do Nascimento.
Segundo fontes do Imparcial Press, o malogrado sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) poucos dias depois da recente visita do Papa Leão XIV, tendo permanecido internado durante cerca de um mês numa unidade hospitalar, em estado considerado delicado.
Durante o internamento, o prelado chegou a perder temporariamente a fala e permaneceu em coma, mas registou sinais de recuperação antes do agravamento do seu estado clínico.
Com a sua morte, encerra-se simbolicamente o ciclo dos bispos angolanos que marcaram a fase da independência nacional e os anos mais difíceis da guerra civil.
Nascido a 5 de Setembro de 1934, em Chimbundo, município do Bailundo, província do Huambo, Dom Zacarias Kamwenho foi ordenado sacerdote em 1961 e iniciou uma longa trajectória pastoral que o tornaria numa das vozes mais respeitadas da Igreja Católica em Angola.
Em 1974 foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de Luanda, sendo consagrado bispo no mesmo ano. Posteriormente assumiu a Diocese de Novo Redondo, actual Sumbe, antes de ser nomeado arcebispo coadjutor do Lubango, tornando-se titular da arquidiocese em 1997.
Ao longo de mais de cinco décadas de episcopado, destacou-se não apenas pela actividade religiosa, mas também pelo seu papel activo na defesa da paz, da reconciliação nacional e dos direitos humanos.
Dom Zacarias presidiu à Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) e liderou o Comité Inter-Eclesial para a Paz em Angola (COIEPA), plataforma que reuniu a Igreja Católica, igrejas protestantes e organizações cristãs num esforço conjunto para pressionar pelo fim do conflito armado.
No auge da guerra civil, assumiu uma posição de mediação entre o Governo angolano e a UNITA, defendendo publicamente o diálogo como única solução para o conflito que devastou o país durante quase três décadas.
O seu papel na promoção da paz valeu-lhe reconhecimento internacional, tendo sido distinguido em 2001 com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído pelo Parlamento Europeu. Dom Zacarias tornou-se o primeiro religioso de expressão portuguesa e um dos poucos africanos a receber a distinção.
Em Novembro de 2024, a CEAST homenageou Dom Zacarias pelos 50 anos de episcopado, descrevendo-o como “construtor da paz, defensor das causas humanas e combatente da reconciliação nacional”. Na ocasião, era já considerado o bispo mais velho da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé.
Após atingir a idade canónica de reforma, retirou-se da liderança da Arquidiocese do Lubango em 2009, mas manteve-se como referência moral e espiritual da Igreja angolana.
A notícia da sua morte provocou reacções de pesar entre líderes religiosos, políticos e membros da sociedade civil, que recordam Dom Zacarias Kamwenho como uma figura determinante na construção da paz e da democracia em Angola.
A Igreja Católica deverá anunciar nas próximas horas os detalhes das exéquias e homenagens oficiais.