
A rivalidade entre generais — essa guerra invisível, mas devastadora, travada longe das fronteiras e perto dos corredores do poder — tornou-se uma das maiores ameaças à segurança e defesa nacional. O que deveria ser um espaço de disciplina, honra e compromisso com a pátria transformou-se num campo minado de ambições pessoais, intrigas e lealdades desviadas.
Durante décadas, alguns generais ocuparam lugares de prestígio no cenário militar e político angolano. Agarraram-se a esses cargos como se fossem propriedades privadas, recusando-se a aceitar renovação, recusando-se a admitir que o Estado não é um feudo.
Outros, mais astutos, infiltraram militares de confiança em posições estratégicas, criando redes de influência que funcionam como máquinas de obediência pessoal.
Como escreveu Hannah Arendt, “o poder torna-se tirânico quando deixa de ser partilhado”. E foi exatamente isso que aconteceu: o poder deixou de ser institucional e tornou-se patrimonial.
A luta pela hegemonia individual falou mais alto do que o juramento feito à bandeira. Homens que deveriam ser guardiões da soberania acabaram por trair a própria nação que juraram defender. Como diria Frantz Fanon, “a traição começa quando o interesse pessoal se sobrepõe ao destino coletivo”.
Estas lutas internas estão longe do fim. A cada dia surgem novos atores — oficiais moldados pelos vícios dos seus padrinhos, treinados para servir pessoas e não instituições. São produtos de um sistema que recompensa a lealdade pessoal e pune a competência.
Como alertou Achille Mbembe, “o poder que não se renova apodrece”. E o que está a apodrecer não são apenas relações internas — é a própria espinha dorsal das Forças Armadas.
O mais trágico é que estes generais, que deveriam dedicar-se a grandes projetos estratégicos, optaram pelo caminho mais destrutivo:
Angola possui uma arquitetura institucional que, no papel, deveria impedir este colapso. Mas a realidade é outra: os órgãos existem, mas não funcionam.
O mais perturbador é que, mesmo com toda esta estrutura, nada consegue impor ordem. É como se o Estado tivesse criado um exército de sentinelas cegas.
Como escreveu Zygmunt Bauman, “as instituições falham quando deixam de servir o bem comum e passam a servir os seus próprios guardiões”.
O que se vive hoje é mais do que uma crise institucional — é um aviso sombrio. Quando generais se tornam rivais, quando quartéis se tornam feudos, quando a disciplina se torna moeda de troca, o Estado entra numa zona de risco extremo.
E o povo sente isso. Sente no medo, na insegurança, na ausência de autoridade moral. Sente que algo profundo está fora do lugar.
Como escreveu José Eduardo Agualusa, “o medo é o maior arquiteto das nações fracassadas”. E hoje, o medo já não vem do exterior, vem de dentro.
Temos todos os órgãos. Temos todas as leis. Temos todas as estruturas. Mas não temos ordem. Não temos disciplina. Não temos liderança comprometida com o interesse nacional.
A rivalidade entre generais tornou-se um caso de estudo sobre como um Estado pode ruir não por falta de inimigos externos, mas por excesso de inimigos internos.
*Investigador em Segurança e Defesa