
A notícia correu mundo: Elon Musk é o primeiro trilionário da história. Só ele detém 46% de toda a riqueza mundial. Não existe outra maneira de encarar isso, se não com profunda preocupação, quanto ao destino da civilização humana.
O risco de um mundo pós-nacional, comandado por poderes económicos e tecnológicos cada vez menos sujeitos ao controlo público, está aí, à vista de todos.
Durante quase cinco séculos, a riqueza, a inovação tecnológica e o poder militar estiveram concentrados principalmente na Europa Ocidental e, posteriormente, na América do Norte.
No final da II Guerra Mundial (1939-45), quando foi criada a Organização das Nações Unidas, menos de 70 países soberanos conviviam com vastos impérios coloniais europeus que dominavam grande parte da Ásia, África e Caribe. Entretanto, o século XX foi o século da emancipação nacional.
Como resultado, a humanidade alcançou o maior número de nações soberanas de sua história.Em poucas décadas, a descolonização aumentou para cerca de 200 o número de Estados independentes, o que fez da soberania nacional o princípio organizador da ordem internacional.
Quase um século depois, no segundo quarto do século XXI, duas alterações profundas, de consequências ainda mal definidas, estão em curso. A primeira é o deslocamento do centro dinâmico da economia mundial do Ocidente para o Oriente e do Norte desenvolvido para o Sul Global. Assim, a expansão económica da Ásia, liderada pela China, por exemplo, bem como diversos países do Sudeste Asiático, aponta para uma redistribuição histórica do poder global.
A demografia é a primeira explicação para essa mudança.
Escreve o economista brasileiro e anterior presidente do IBGE, Márcio Pochman: – “ (…)uma inflexão demográfica sem precedentes altera o mapa humano do planeta. Países como Japão, Coreia do Sul, Itália e Alemanha convivem com taxas de natalidade persistentemente baixas, envelhecimento acelerado e redução da população. Em algumas projeções, determinadas sociedades poderão perder entre um quarto e metade de seus habitantes ao longo deste século. Em contraste, países africanos como Nigéria, Etiópia e República Democrática do Congo deverão concentrar parcela crescente da população mundial”.
O economista brasileiro não tem dúvidas: “Essa redistribuição demográfica terá consequências profundas para o mercado de trabalho, os fluxos migratórios, os sistemas previdenciários e a própria correlação de forças internacionais. O futuro da humanidade será cada vez mais africano, asiático e latino-americano”.
O facto é que, enquanto as economias até há pouco dominantes enfrentam baixo crescimento e envelhecimento populacional, grande parte do Sul Global amplia a sua participação na produção industrial, no comércio internacional e na inovação tecnológica.
Desde logo, isso fez com que os principais desafios do século XXI, como as mudanças climáticas, inteligência artificial, migrações, segurança alimentar, pandemias, fluxos financeiros e governança de dados, se tenham tornado desafios autenticamente globais. Entretanto, os instrumentos políticos para enfrentá-los permanecem predominantemente nacionais e cada vez mais fragilizados.
Surge então uma contradição histórica de grandes proporções: enquanto a capacidade efectiva dos Estados de controlar o seu próprio destino vem sendo reduzida (o enfraquecimento relativo da ONU a que o mundo assiste actualmente é resultado desse fenómeno), observa-se a ascensão de grandes corporações transnacionais, conglomerados financeiros e plataformas digitais que operam acima das fronteiras nacionais e concentram poder económico, tecnológico e informacional sem precedentes.
Como enfatiza Márcio Pochman, “o mundo parece transitar para uma nova configuração. Já não é o sistema colonial dos séculos anteriores, tão pouco a ordem internacional organizada exclusivamente por Estados soberanos.
Trata-se de uma estrutura híbrida em que governos, corporações digitais, fundos financeiros, organismos multilaterais e redes tecnológicas disputam o comando dos processos decisórios”.
É nesse contexto que devemos encarar a notícia de que Elon Musk – um super-oligarca com assumidas ligações ao movimento neofascista global – é o primeiro trilionário da história. Ou as actuais ligações das principais big techs – como a Palantir e outras – com o complexo industrial-militar.
Assino em baixo, por conseguinte, da conclusão de Márcio Pochman: – “A questão decisiva das próximas décadas talvez não seja apenas quem liderará a economia mundial ou qual potência substituirá outra. O desafio fundamental será construir mecanismos democráticos capazes de governar problemas globais sem sacrificar a soberania dos povos“.
Caso contrário, a humanidade poderá assistir à substituição da antiga dominação colonial por uma nova forma de poder, como um sistema em que algoritmos, plataformas e capitais transnacionais condicionam o destino das sociedades mais do que seus próprios cidadãos”.
“Portugal não é um país racista”
A justiça portuguesa acaba de “condenar” (obrigatório rir com amargura) a três anos e seis meses de pena suspensa um agente policial que assassinou comprovadamente um cidadão negro, Odair Moniz.
O crime foi dado como provado pelo tribunal, assim como as tentativas para encobri-lo (os polícias colocaram uma faca no local do crime, para acusar a vítima de estar armada, mas o tribunal também demonstrou que se tratou de uma encenação, ou seja, estamos perante outro crime, além do assassinato).
O assassino foi deixado em liberdade e poderá voltar para a corporação.
*Jornalista e escritor