
Um total de 1.576 pessoas morreram em 6.135 acidentes de viação registados em Angola entre Janeiro e Junho de 2026, números que voltam a colocar a sinistralidade rodoviária entre os principais problemas de segurança e saúde pública no país.
Os acidentes provocaram ainda 7.992 feridos, de acordo com dados apresentados pela Direcção de Trânsito e Segurança Rodoviária (DTSER), numa altura em que as autoridades reconhecem a persistência de níveis preocupantes de sinistralidade nas estradas nacionais.
Os números conhecidos até Abril já apontavam para uma evolução negativa. O Conselho Nacional de Viação e Ordenamento do Trânsito (CNVOT) registara 1.558 mortes no período de Setembro de 2025 a Fevereiro de 2026, mais 125 vítimas mortais do que no período homólogo.
Segundo as autoridades, entre as principais causas dos acidentes estão os atropelamentos, colisões entre veículos, motociclos e automóveis e despistes seguidos de capotamento.
O excesso de velocidade, a fadiga, a sonolência e o não uso do cinto de segurança também figuram entre os factores identificados.
Pontos críticos
Os dados da Polícia Nacional mostram que o período entre a meia-noite e as 05h59 apresenta uma incidência particularmente elevada de acidentes. Entre as estradas com maior número de ocorrências destacam-se as EN-100, EN-120, EN-230 e EN-240.
O problema assume maior dimensão nas províncias de Luanda, Huíla, Huambo, Benguela, Cuanza Sul, Cuando, Cubango, Bengo e Bié, apontadas pelo CNVOT como as zonas mais críticas do país.
As autoridades destacam ainda que os acidentes mais letais ocorrem frequentemente fora das localidades, em zonas de difícil acesso aos serviços de emergência, e envolvem, em muitos casos, veículos de transporte colectivo de passageiros.
A preocupação ganhou novo destaque após uma série de acidentes graves registados nos últimos meses. Em Março, a Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT) manifestou preocupação perante acidentes ocorridos nas províncias do Cuanza Sul, Moxico e Icolo e Bengo, anunciando o reforço da fiscalização dos operadores de transporte rodoviário interprovincial.
No Cunene, por exemplo, um acidente ocorrido em Junho, na Estrada Nacional 105, provocou seis feridos graves. Segundo informações recolhidas no local, o sinistro terá estado relacionado com excesso de velocidade e mau estado técnico da viatura.
No Cuanza Sul, a ocorrência de acidentes envolvendo transportes colectivos levou igualmente as autoridades a reforçar os meios operacionais da Polícia Nacional na província.
Perante o quadro, o Ministério do Interior anunciou o reforço da fiscalização nas estradas nacionais e nos centros urbanos, bem como maior controlo sobre motociclos e operadores de transporte.
O Executivo anunciou igualmente a implementação de centros de inspecção de veículos, o reforço da educação rodoviária nas escolas e a reabilitação de postos de socorro ao longo das principais vias.
Entre as medidas recomendadas está ainda a criação de áreas de paragem obrigatória para motoristas de longo curso, com o objectivo de combater a fadiga e a sonolência ao volante.
A Polícia Nacional aplicou, entre 19 de Junho e 2 de Julho, mais de 10 mil multas por infracções ao Código de Estrada, incluindo 1.052 por excesso de velocidade, num período em que as autoridades intensificaram as operações de fiscalização rodoviária.
Tragédia no Cuanza Sul
Entre os casos que continuam sob acompanhamento das autoridades está o acidente envolvendo um autocarro da transportadora Macon, ocorrido no Cuanza Sul. A DTSER informou que o apuramento das causas do sinistro está a ser realizado em coordenação com outras instituições.
Para as autoridades, a dimensão dos números demonstra que a sinistralidade rodoviária deixou de ser apenas uma questão de trânsito e passou a constituir um problema com impacto directo na saúde pública, na economia das famílias e na capacidade produtiva do país.
Com 1.576 mortes em apenas seis meses, Angola enfrenta o desafio de transformar as campanhas de prevenção e o reforço da fiscalização em resultados concretos, sobretudo na redução da velocidade, melhoria do estado técnico das viaturas, combate à condução sob efeito de álcool e melhoria das condições das estradas e da assistência às vítimas.
A dimensão da tragédia também coloca pressão sobre as autoridades para que a fiscalização deixe de ser essencialmente reactiva e passe a actuar de forma mais preventiva, sobretudo nos corredores rodoviários e horários identificados como de maior risco.