O perigo oculto da desinformação: a “Tala” e os mitos sobre a doença da inveja – Moreira Mário
O perigo oculto da desinformação: a "Tala" e os mitos sobre a doença da inveja - Moreira Mário
tala2

A tragédia recente no bairro Boa-Fé, município dos Mulenvos, em Luanda — onde duas mulheres idosas morreram após consumirem um preparado tradicional contra a chamada “tala” —, acende um alerta sobre os perigos da desinformação.

O caso culminou na detenção de uma cidadã pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) e expõe o preço humano cobrado pela substituição do diagnóstico médico por crenças populares e tratamentos sem comprovação científica.

O grande perigo da designação “tala” reside no estigma social e no adiamento do socorro hospitalar. Ao associar manifestações físicas a episódios de feitiçaria ou inveja, gera-se discórdia familiar e mascara-se uma emergência médica.

Do ponto de vista científico, o quadro é a erisipela: uma infecção bacteriana grave (Streptococcus pyogenes) que infiltra a pele através de frieiras, micoses, picadas ou feridas, afetando com maior frequência idosos, diabéticos e pessoas com problemas circulatórios.

Os sintomas surgem de forma abrupta: manchas vermelhas quentes e dolorosas, inchaço, febre alta e calafrios. Sem o tratamento correto, as bactérias multiplicam-se rapidamente, podendo causar necrose dos tecidos e atingir a corrente sanguínea, evoluindo para sepse (infecção generalizada) — uma complicação frequentemente fatal.

A solução não está em poções ou lavagens ritualísticas, mas no uso de antibióticos prescritos por um médico e repouso.

A crença de que a “tala” pode ser comprada em mercados por 50, 100 ou 200 Kwanzas e transmitida ao espalhar um produto revela a força das superstições no cotidiano. Em muitas comunidades, a busca por explicações místicas materializa sentimentos abstratos em objectos tangíveis.

Essa percepção alimenta um mercado que lucra com a vulnerabilidade e o medo, fortalecendo um ciclo de desconfiança interpessoal em que qualquer mal-estar é atribuído à acção do outro.

Julgo eu, que o verdadeiro perigo dessa narrativa é afastar a população dos cuidados de saúde adequados. Ao acreditar que sintomas graves são frutos de feitiço comprado no mercado, atrasa-se o socorro hospitalar e colocam-se vidas em risco.

Reflectir sobre o tema exige separar o respeito às crenças culturais da responsabilidade com a saúde pública, compreendendo que a ignorância e a manipulação do medo são muito mais danosas do que qualquer mito popular.

Enfim, devo dizer que, além da minha actuação no jornalismo, a minha formação em enfermagem geral dá-me a bagagem técnica para afirmar com clareza: doenças não se transmitem por inveja ou feitiços comprados no mercado. Compreender a microbiologia e a fisiologia humana é o primeiro passo para desmistificar a “tala” e salvar vidas.”

*Jornalista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido