
Angola registou duas mortes associadas à Mpox em menos de uma semana, ambas na província de Cabinda, que contabiliza actualmente 264 casos confirmados entre 381 notificações, segundo dados divulgados pelas autoridades sanitárias provinciais.
O segundo óbito ocorreu na quarta-feira, 2 de Setembro, e corresponde a um homem de 37 anos, residente no município de Cabinda, que, de acordo com o secretário provincial da Saúde, Rúben de Fátima Buco, tinha uma infecção crónica e outras complicações de saúde e não resistiu às complicações associadas à Mpox.
Quatro dias antes, na sexta-feira, 28 de Agosto, tinha sido registada a primeira morte, de uma mulher de 46 anos, igualmente portadora de uma infecção crónica e com outras complicações de saúde, segundo as autoridades sanitárias.
Com os dois óbitos, Cabinda passa a concentrar os primeiros dois casos fatais associados ao actual surto registados na província. Dos 264 casos positivos contabilizados, 37 pacientes permanecem internados e 225 receberam alta hospitalar.
A evolução da doença levou as autoridades provinciais a reforçarem as medidas de resposta, incluindo uma campanha de vacinação iniciada em 1 de Setembro, com duração prevista de cinco dias e uma meta de 30 mil pessoas imunizadas.
A operação envolve 25 equipas e 174 profissionais de saúde e abrange, numa primeira fase, profissionais do sector, pacientes com Mpox, habitantes das zonas fronteiriças e das áreas mais afectadas, nomeadamente os municípios de Cabinda, Liambo, Ngoio e Tando-Zinze.
O Governo Provincial de Cabinda informou igualmente ter reforçado o stock de medicamentos destinados ao tratamento da doença e apelou à população para manter medidas de prevenção, como a lavagem frequente das mãos, evitar contacto físico com pessoas infectadas e procurar uma unidade sanitária perante o aparecimento de sintomas.
A actual situação representa uma evolução significativa face ao quadro registado apenas um mês antes. Em 3 de Agosto, Cabinda tinha 109 casos confirmados e 24 suspeitos, não havendo, naquela altura, registo de mortes pela doença. O município de Cabinda concentrava 87 dos casos confirmados.
A progressão em Cabinda ocorre depois de a Mpox ter sido identificada noutras regiões do país. Angola confirmou o primeiro caso em 16 de Novembro de 2024, no município do Cazenga, em Luanda, numa mulher de 28 anos de nacionalidade congolesa.
O Ministério da Saúde declarou então o surto e activou medidas de isolamento, rastreio de contactos e investigação epidemiológica.
Cinco dias depois, foi confirmado um segundo caso, igualmente em Luanda, numa criança de dois anos, filha da primeira paciente. As autoridades passaram a reforçar a vigilância, particularmente nas províncias fronteiriças com a República Democrática do Congo (RDC).
Em Dezembro de 2024, a doença chegou oficialmente ao Uíge, com um caso confirmado no município de Maquela do Zombo, igualmente uma zona fronteiriça com a RDC.
No início de Março de 2025, o boletim conjunto do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde contabilizava sete casos confirmados – três em Luanda, três no Uíge e um no Cuanza Norte.
Pouco depois, os dados internacionais passaram a apontar para oito casos confirmados no país, mantendo-se Luanda, Uíge e Cuanza Norte entre as províncias afectadas.
Em Setembro de 2025, o balanço do Ministério da Saúde apontava para 12 casos acumulados, distribuídos pelo Uíge, Luanda, Cuanza Norte, Icolo e Bengo e Zaire.
Já em Maio deste ano, dados apresentados por responsáveis da Saúde indicavam 14 casos confirmados desde o início do surto, com cinco no Uíge, quatro em Luanda, dois em Cabinda e um em cada uma das províncias do Cuanza Norte, Icolo e Bengo e Zaire.
Os números sofreram, entretanto, uma alteração expressiva com a evolução do surto em Cabinda. Um relatório do Africa CDC, referente a Julho, indicava que Angola tinha acumulado 72 casos laboratoriais confirmados desde Novembro de 2024, distribuídos por seis das 21 províncias, com um óbito registado até então.
O mesmo relatório contabilizava 60 casos confirmados e uma morte apenas em 2026 até ao período abrangido pelo documento.
A dimensão actual do surto em Cabinda significa que os números provinciais divulgados no início de Setembro são muito superiores aos balanços nacionais disponíveis nas semanas anteriores, pelo que não é possível somar automaticamente os 264 casos de Cabinda aos números nacionais anteriores sem uma actualização consolidada do Ministério da Saúde.
Cabinda é particularmente sensível do ponto de vista epidemiológico devido à sua localização fronteiriça com a República do Congo e à proximidade da República Democrática do Congo.
As autoridades provinciais têm, por isso, reforçado a vigilância nos pontos de entrada e saída e criado estruturas específicas de coordenação da resposta ao surto.
Em Junho, quando a situação ainda estava numa fase inicial, o Governo Provincial contabilizava nove casos confirmados e criou uma comissão intersectorial para coordenar as medidas de prevenção e controlo.
Além da Mpox, as autoridades de Cabinda estão simultaneamente a reforçar a vigilância sanitária devido ao risco de entrada de casos de Ébola provenientes da RDC, tendo o Ministério da Saúde enviado recentemente uma equipa à província para acompanhar a situação e reforçar as medidas de prevenção.
A Mpox é uma doença viral que pode ser transmitida através de contacto próximo com uma pessoa infectada, incluindo contacto com lesões cutâneas, secreções ou materiais contaminados.
Entre os sintomas estão febre, dores musculares, dores de cabeça, aumento dos gânglios linfáticos e lesões na pele ou nas mucosas.
A ocorrência de dois óbitos em menos de uma semana, num contexto de crescimento acelerado do número de casos em Cabinda, coloca a província no centro da resposta nacional à doença, com as autoridades a apostarem no reforço da vigilância, vacinação, diagnóstico e acompanhamento dos pacientes para tentar interromper a cadeia de transmissão.