
O Grupo Carrinho, através da sua sociedade financeira Congolian Financial, acordou a aquisição da participação de 33,35% que o Banco Português de Investimento (BPI) detém no Banco de Fomento Angola (BFA), numa operação avaliada em pelo menos 388,5 milhões de euros e que coloca o conglomerado angolano no centro da estrutura accionista de um dos maiores bancos do país.
O acordo, anunciado na quinta-feira pelo BPI, prevê uma componente fixa de 345 milhões de euros, a pagar na data da transacção depois de verificadas as condições suspensivas, uma segunda parcela fixa diferida de cerca de 43,5 milhões de euros e uma componente variável correspondente a metade do dividendo relativo a 2026 atribuído às acções objecto da operação.
A concretização da operação está ainda dependente de autorizações legais e regulatórias, incluindo a não oposição do Banco Nacional de Angola (BNA), a confirmação pela Comissão do Mercado de Capitais (CMC) de que não existe obrigação de lançamento de uma Oferta Pública de Aquisição e o eventual não exercício do direito de preferência pela Unitel, previsto no acordo parassocial existente com o BPI.
A aquisição ganha particular relevância porque o Grupo Carrinho já havia entrado no capital do BFA no âmbito da Oferta Pública de Venda realizada em Setembro de 2025.
Nessa operação, a Congolian Financial adquiriu 7,61% do banco, posição que posteriormente foi reorganizada através dos fundos de investimento AXIOS e ASSET.
O BFA encerrou o primeiro semestre de 2026 com um resultado líquido de cerca de 117,3 mil milhões de kwanzas, mantendo-se entre os bancos mais rentáveis do mercado angolano. O banco tinha ainda activos superiores a quatro biliões de kwanzas no final de 2025 e cerca de 3,5 milhões de clientes.
A operação marca também a saída definitiva do BPI do capital do BFA. Em Setembro de 2025, o banco português tinha alienado 14,75% da instituição por cerca de 103 milhões de euros, ficando então com os 33,35% que agora acordou vender à Congolian Financial.
Com a aquisição, o Grupo Carrinho junta o BFA ao Banco de Comércio e Indústria (BCI), instituição que controla através da sua estrutura empresarial, e ao Banco Keve.
A Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC) confirmou, em 2024, a operação de concentração envolvendo a Carrinho Empreendimentos e o Banco Keve, registando igualmente que o grupo detinha indirectamente a totalidade do capital do BCI.
A expansão para o sector bancário é apenas uma das dimensões do crescimento do grupo, cuja actividade principal continua ligada ao agro-negócio, transformação alimentar, armazenamento, logística e distribuição.
Em 2026, a Corporação Financeira Internacional (IFC) aprovou um financiamento de até 40 milhões de dólares à Carrinho Empreendimentos para apoiar a expansão do complexo industrial de Benguela, incluindo a ampliação da moagem de trigo, um armazém, uma cozinha central, frota e sistemas de gestão.
A ascensão durante a era João Lourenço
O crescimento do Grupo Carrinho ganhou particular visibilidade durante o mandato do Presidente João Lourenço, iniciado em 2017.
Uma investigação da Deutsche Welle publicada em 2023 descreveu a Carrinho como uma das empresas que mais cresceram desde a chegada de João Lourenço ao poder, passando de uma estrutura familiar sediada em Benguela para um grupo com forte presença na indústria alimentar, armazenamento e distribuição.
A relação entre o grupo e o poder político tornou-se especialmente visível através de negócios e projectos envolvendo o Estado.
Em Fevereiro de 2021, por exemplo, um diploma presidencial autorizou uma garantia soberana associada a um financiamento destinado a um projecto da Carrinho Empreendimentos para uma fábrica de produção de óleo alimentar e farinha de soja em Benguela.
O financiamento abrangia 56,99 milhões de euros e a empresa ficou obrigada ao pagamento de uma comissão de garantia de 1,5%.
O grupo esteve também envolvido na Reserva Estratégica Alimentar (REA), criada pelo Executivo de João Lourenço para assegurar reservas de produtos essenciais e contribuir para a estabilidade do abastecimento.
A Gescesta, constituída pela Gemcorp e pela Carrinho, venceu o concurso para a gestão da reserva, operação que movimentou centenas de milhões de dólares em compras de produtos alimentares. O contrato acabou por ser encerrado em 2023, tendo o Executivo alegado problemas de gestão e determinado uma auditoria.
Outro eixo de expansão foi o acesso a activos empresariais anteriormente pertencentes ao Estado. O Grupo Carrinho assumiu a gestão de unidades fabris do sector têxtil, entre as quais a África Têxtil, em Benguela, e a antiga SATEC, no Cuanza-Norte.
Em 2025, o Estado transferiu para o Fundo Soberano de Angola a titularidade da antiga SATEC, depois de o IGAPE ter rescindido o contrato de gestão com a Carrinho.
A presença do grupo no centro da estratégia económica do Executivo ficou ainda simbolizada em Dezembro de 2024, quando o então Presidente norte-americano Joe Biden visitou o complexo industrial da Carrinho, no Lobito, durante a cimeira sobre o Corredor do Lobito. A própria empresa registou a visita como um dos momentos de projecção internacional da sua actividade.
Em 2024, o Grupo Carrinho recebeu ainda dois prémios SIRIUS, incluindo o de “Gestor do Ano” para o seu presidente executivo e o de “Responsabilidade Social”. A cerimónia contou com a presença de João Lourenço e teve como presidente do júri a primeira-dama, Ana Dias Lourenço.
A entrada no BFA acrescenta agora uma dimensão inédita a essa expansão. Se a operação for aprovada pelos reguladores, a Carrinho passará a ter uma posição directa de 33,35% no banco, além da exposição que os seus accionistas obtiveram através dos fundos AXIOS e ASSET na reorganização da participação anteriormente detida pela Congolian Financial.
A Comissão do Mercado de Capitais registou que o AXIOS passou a deter 9,85% do BFA, enquanto a participação do ASSET é de 8,76%.