Morre aos 98 anos Maria Eugénia da Cruz, viúva de Viriato da Cruz
Morre aos 98 anos Maria Eugénia da Cruz, viúva de Viriato da Cruz
maria eugenia

Maria Eugénia Leite Nunes Cruz, viúva do nacionalista e poeta Viriato Clemente da Cruz, morreu aos 98 anos, vítima de doença, anunciou domingo o Bureau Político do Comité Central do MPLA, encerrando uma vida marcada pelo exílio, pela luta anticolonial e por um percurso discreto nos primeiros anos do nacionalismo angolano.

Nascida em 1928, no interior de Angola, Maria Eugénia viveu parte da infância e juventude em Portugal, onde foi educada entre 1932 e 1947.

Regressou a Angola em 1948 e trabalhou durante mais de uma década na administração pública, primeiro nas alfândegas e posteriormente nos Correios.

O final da década de 1950 marcou uma mudança decisiva na sua vida. Num período de crescente mobilização política em Luanda e de repressão das autoridades coloniais portuguesas, Maria Eugénia aproximou-se dos círculos nacionalistas e manteve contactos com o Partido Comunista Português.

Em 1959, deixou Angola e seguiu para Lisboa. Depois de ser notificada pela então Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), decidiu abandonar Portugal.

Considerou inicialmente a possibilidade de seguir para a União Soviética, passou cerca de quatro meses em França e aí contactou Mário Pinto de Andrade.

Em 1961, seguiu para Conacri, onde estava instalada a direção do MPLA, então liderada por Mário Pinto de Andrade, como presidente, e Viriato da Cruz, como secretário-geral. Foi nesse contexto que Maria Eugénia passou a integrar a comunidade de nacionalistas angolanos no exílio.

A sua participação na luta anticolonial desenvolveu-se sobretudo longe da frente militar e das posições formais de liderança.

Maria Eugénia não foi guerrilheira nem dirigente política, mas colaborou nas estruturas do movimento, nomeadamente na organização do arquivo do MPLA em Conacri.

Em entrevista concedida em 2010, recordou as condições precárias em que trabalhava no escritório do movimento, onde, segundo o seu testemunho, faltavam meios básicos e até a máquina de escrever apresentava problemas.

O seu relato constitui um dos testemunhos sobre a dimensão quotidiana e administrativa da atividade dos nacionalistas angolanos no exílio.

A experiência de Maria Eugénia insere-se numa história mais ampla de mulheres que acompanharam os movimentos de libertação africanos durante os anos de exílio.

Ao longo desse período, passou por diferentes países e cidades, entre eles Conacri, Argel e os dois Congos, convivendo com figuras como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara, Hugo Menezes, Matias Miguéis e Viriato da Cruz.

Em 1963, casou oficialmente com Viriato da Cruz. Nesse mesmo ano nasceu, em Rabat, a filha do casal, Marília. A vida familiar ficaria, porém, profundamente condicionada pelas divisões políticas que atravessaram o nacionalismo angolano e pelo longo exílio.

Viriato da Cruz afastou-se da direção do MPLA em 1962 e viria posteriormente a ser expulso do movimento. Em 1966, partiu definitivamente para Pequim, na China, onde Maria Eugénia e a filha se juntaram a ele mais tarde.

As divergências políticas que marcaram o percurso de Viriato também tiveram consequências para a família. Depois da independência de Angola, Maria Eugénia chegou a ouvir, em comícios, acusações dirigidas ao marido, que tinha passado a ser apresentado pelo MPLA como “revisionista e fraccionista”, segundo um perfil biográfico publicado pela BUALA.

Em 1973, Viriato da Cruz morreu em Pequim, aos 45 anos. Maria Eugénia ficou viúva e regressou a Angola em 1974, acompanhada pela filha, depois de cerca de 15 anos fora do país. No ano seguinte, ambas assistiram em Luanda às celebrações da independência.

A partir daí, Maria Eugénia manteve uma vida discreta, longe dos principais cargos políticos. O seu percurso acabou por permanecer relativamente pouco conhecido, apesar de ter atravessado alguns dos momentos decisivos da história do nacionalismo angolano.

Um perfil publicado em 2025 pela investigadora Aida Gomes descreveu-a como uma das muitas mulheres cuja participação na luta anticolonial permaneceu pouco visível nas narrativas históricas.

O trabalho recupera entrevistas de Maria Eugénia e da filha, permitindo conhecer uma dimensão pessoal do exílio, da vida familiar e do funcionamento das estruturas nacionalistas.

Maria Eugénia possuía, para os padrões da época, uma formação escolar elevada, tendo concluído o sexto ano do liceu em Portugal. Ainda assim, a sua atividade no movimento esteve sobretudo associada a tarefas de organização e apoio documental.

O seu próprio testemunho não revela uma mulher que procurasse protagonismo. Pelo contrário, os relatos recuperados sobre a sua vida mostram uma figura integrada num círculo político dominado pelos homens, mas que participou diretamente na experiência do exílio e na construção quotidiana das estruturas nacionalistas.

A relação com Viriato da Cruz permaneceu uma parte importante da sua memória pessoal. Em 2018, quando o poeta foi distinguido postumamente com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, Maria Eugénia recordou o marido como alguém profundamente ligado a Angola e com uma visão ampla sobre o país e o mundo.

Nos últimos anos, viveu de forma reservada em Luanda. Segundo testemunho da filha, Maria Eugénia mantinha o gosto pela música e ouvia, entre outros artistas, Édith Piaf, Charles Aznavour, Duo Ouro Negro, Elias Dia Kimuezo, N’Gola Ritmos e Ângela Maria.

Aos 97 anos, segundo o mesmo testemunho, continuava a expressar uma visão positiva sobre Angola e acreditava no potencial do país para proporcionar uma vida condigna aos seus cidadãos.

Na mensagem de condolências divulgada domingo, o Bureau Político do MPLA destacou o percurso de Maria Eugénia na luta contra o colonialismo português e a colaboração prestada ao movimento em Conacri, considerando-a uma testemunha e participante de um período fundamental da história da libertação nacional.

A morte de Maria Eugénia Leite Nunes Cruz encerra uma vida atravessada pelo colonialismo, pelo exílio e pela independência de Angola, mas também recupera a história de uma geração de mulheres que participaram no nacionalismo angolano sem ocupar necessariamente os lugares de maior visibilidade política.

Maria Eugénia foi, assim, simultaneamente testemunha e participante de uma época de profundas transformações.

A sua história, preservada também através dos próprios testemunhos, acrescenta uma dimensão pessoal e feminina à memória dos primeiros anos da luta nacionalista angolana.

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