Os grandes desafios da produção agrícola em Angola – Carlos Kandanda
Os grandes desafios da produção agrícola em Angola - Carlos Kandanda
JL campo

O general Paulo Lukamba Gato tem estado a publicar regularmente pequenos textos bem concebidos e bem sintetizados sobre os desafios da produção agrícola em Angola. No dia 17 de Outubro de 2026 publicou nas redes sociais um curto artigo intitulado: Autossuficiência alimentar: produzir é importante, mas proteger quem produz é fundamental.

Este curto artigo é muito profundo e substancial. No final do texto ele faz uma conclusão de que, cita: «um país não alcança a verdadeira soberania alimentar quando apenas produz. Alcança-a quando consegue produzir, conservar, comercializar e remunerar justamente quem trabalha a terra».

Neste aspecto concreto, o factor da transformação industrial de produtos agrícolas é crucial. Pois que, se passar pelo campo constatará que, uma boa parte da produção agrícola dos agricultores termina por estragar nas lavras sem condições adequadas de conservação e de transportação para chegar aos grandes mercados de consumo.

Nos países industrializados (como da Europa) existem pequenas e grandes fábricas transformadoras nas zonas rurais para transformar os produtos localmente. Isso elimina, de grosso modo, o desperdício da colheita e garante a optimização e a rentabilidade dos agricultores.

Pois, cada fazenda ou cooperativa agrícola tem uma pequena fábrica transformadora. Tudo que não é consumido ou comercializado de imediato é transformado no local e encaminhado aos estoques ou aos mercados internos e externos.

Para entender melhor a dimensão deste fenômeno bastava somente visitar o Mercado 30 de Luanda para constatar a quantidade de produtos que apodrece no local por falta de condições adequadas de conservação e de transformação industrial de produtos.

Tudo isso se enquadra na falta do sistema eficaz da logística, das estradas e de armazenamentos capazes de equilibrar os custos de produção, estimular a produtividade, aumentar as receitas e reduzir drasticamente as perdas que ocorrem na colheita, no pós-colheita, na transportação e na comercialização. Portanto, a indústria transformadora é um factor decisivo na cadeia de produção agropecuária.

Ali reside a virtude do artigo do general Paulo Lukamba Gato quando resumiu o seu texto dizendo: a verdadeira soberania alimentar não pode ser alcançada apenas com a produção, mas sim, com o sistema eficaz integrado que tenha capacidade de produzir, conservar, transportar, comercializar, transformar, rentabilizar e remunerar justamente quem trabalha a terra.

Na verdade, existem um conjunto de factores principais que afetam a produção agrícola em Angola, tais como: as limitações estruturais, logísticas, financeiras, tecnológicas e inovação, que exercem um impacto devastador sobre a agricultura familiar que representa cerca de 91% da produção nacional.

O grande desafio em Angola consiste na falta da mecanização da agricultura familiar, que continua manual, com instrumentos rudimentares.

Em termos comparativos, a produção empresarial em Angola representa apenas 8,9% e é fortemente dominado pelo poder político, que exerce o monopólio absoluto sobre o mercado nacional.

Além disso, o poder político controla os circuitos financeiros, as infraestruturas, os insumos de produção, os mercados de consumo e o sistema logístico.

Assim sendo, a agricultura familiar em Angola termina por ser engolida pelos grandes fazendeiros, sustentados pelo poder político. Ali reside o dilema da produção agrícola em Angola que resulta no empobrecimento sistemático das comunidades rurais.

*Antigo deputado à Assembleia Nacional

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido