
Carlito Roberto, filho do fundador da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Holden Roberto, foi eleito presidente do partido no sábado, 31 de Outubro, durante o II Congresso Extraordinário, realizado em Luanda, com a participação de mais de mil delegados, num processo contestado pela direcção cessante de Nimi-a-Nsimbi.
A eleição, disputada por cinco candidatos, decorreu nos dias 30 e 31 de Outubro, na sequência de uma iniciativa de uma ala do Comité Central que contestou a continuidade de Nimi-a-Nsimbi na liderança e promoveu a escolha de novos órgãos sociais.
Em reacção ao congresso, a direcção de Nimi-a-Nsimbi manteve a convocatória do VI Congresso Ordinário da FNLA para os dias 25, 26 e 27 de Novembro, em Luanda, recusando reconhecer o processo extraordinário como solução para a sucessão na presidência do partido.
A realização de dois processos congressuais, promovidos por estruturas em confronto, mantém em aberto a questão da legitimidade da liderança da formação política, numa altura em que a organização procura ultrapassar divergências internas e preparar-se para os próximos desafios eleitorais.
De salientar que o congresso extraordinário foi convocado por uma ala do Comité Central que, a 17 de Outubro, deliberou o afastamento de Nimi-a-Nsimbi da presidência e a realização do conclave, numa reunião que os promotores afirmaram ter contado com quórum deliberativo de 52%.
A decisão foi contestada pela direcção do partido, que desvalorizou as deliberações e considerou irregular o procedimento, num conflito que envolve a interpretação dos estatutos e as competências dos órgãos internos para convocar e organizar congressos.
A crise agravou-se também em torno da preparação do VI Congresso Ordinário, inicialmente previsto para Setembro e posteriormente transferido para Novembro, uma decisão que a direcção justificou com dificuldades financeiras.
O processo ficou ainda marcado pela existência de duas comissões preparatórias, uma ligada à direcção de Nimi-a-Nsimbi e outra constituída por uma ala do Comité Central.
Em Março, o Comité Central elegeu Ndonda Nzinga para coordenar a comissão preparatória afecta ao grupo contestatário, enquanto, em Maio, Nimi-a-Nsimbi considerou nula essa estrutura e designou João Roberto Soki-Soki para coordenar a comissão ligada à sua direcção.
Crise prolongada
A FNLA enfrenta divergências internas desde a morte do fundador, Álvaro Holden Roberto, em 2007, tendo atravessado sucessivas disputas de liderança e divisões entre diferentes sectores do partido.
Nimi-a-Nsimbi foi eleito presidente em 2021, sucedendo a Lucas Bengui Ngonda, num processo que procurou ultrapassar um prolongado período de instabilidade e reunificar a organização.
A sua liderança passou, entretanto, a ser contestada por sectores ligados ao antigo presidente Ngola Kabangu, que dirigiu o partido entre 2007 e 2011, num conflito que voltou a intensificar-se com a aproximação do congresso de renovação de mandatos.
O mandato de Nimi-a-Nsimbi terminou a 30 de Setembro, embora a direcção tenha mantido a preparação do congresso ordinário e a candidatura do dirigente à própria sucessão.
A disputa interna ganhou igualmente dimensão jurídica, com intervenções do Tribunal Constitucional. O Acórdão n.º 1134/2026 foi invocado no debate sobre a regularidade dos procedimentos de convocação e organização do congresso, num contexto de divergências sobre o cumprimento dos estatutos.
Com a eleição de Carlito Roberto, abre-se uma nova etapa na disputa pela condução da FNLA, embora a contestação da outra ala mantenha incertezas quanto à unidade e à representação institucional do partido.
A formação política, uma das protagonistas históricas da luta de libertação nacional e signatária dos Acordos de Alvor, de Janeiro de 1975, procura recuperar espaço no cenário político angolano, num período de preparação para as eleições gerais previstas para 2027.
A superação da crise, a clarificação da legitimidade dos órgãos dirigentes e a recomposição das estruturas partidárias figuram entre os desafios colocados à nova liderança.
O reconhecimento institucional do congresso extraordinário e dos órgãos nele eleitos permanece, contudo, uma questão central, perante a contestação da direcção de Nimi-a-Nsimbi e a manutenção da convocatória do VI Congresso Ordinário para Novembro.