
Os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos mostraram uma clara rejeição das opções políticas seguidas pela Administração Trump.
Estava à vista que o custo de vida e as consequências da guerra contra o Irão, que DonaldTrump tentou mitigar fazendo arranjos para que os preços do petróleo no mercado interno e externo baixassem, iriam ter influência particular na decisão do eleitor norte-americano. E tiveram!
Embora esses dois factores tenham sido determinantes, as eleições intercalares de terça-feira, 03.11, foram muito mais do que sobre custo de vida e consequências da guerra contra o Irão.
Foram também a rejeição das políticas de uma direita radical que, para a maioria dos americanos, representa um retrocesso grave em relação aos valores defendidos pelos fundadores da democracia nos Estados Unidos.
Nas eleições de terça-feira os eleitores norte-americanos devolveram o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado aos democratas, que passam agora a deter o poder legislativo e, concomitantemente, a faculdade de condicionar o mandato do Presidente DonaldTrump, na medida em que é da sua alçada a aprovação de leis.
A derrota dos republicanos foi de tal modo estrondosa porque no Kansas, um estado que era o seu reduto há quase um século, e outros onde há mais de duas décadas os democratas não ganhavam, perderam lugares no Congresso.
As eleições intercalares nos Estados Unidos, em que são também eleitos governadores de estados, são de modo particular importantes porque sinalizam a tendência de voto para as presidenciais. No caso concreto, para as presidenciais de Novembro de 2028.
É por isso que tanto nos Estados Unidos como além fronteiras a derrota dos republicanos está a ser celebrada como o anúncio do fim de um ciclo político – a era Trump.
É esse o entendimento do ex-Presidente Barack Obama, que fez campanha para que os eleitores escolhessem “pessoas comprometidas com o serviço público, que oferecem soluções concretas para os problemas que enfrentam e que coloquem em primeiro lugar o povo dos seus distritos e estados”.
O Parlamento Europeu, por seu lado, considerou que os norte-americanos querem “virar a página da agenda do Presidente DonaldTrump” e espera que o novo Congresso traduza essa vontade em medidas concretas em matéria de imigração, alfândegas e Direito Internacional.
Quem também acolheu com satisfação a vitória democrata foi o Primeiro-Ministro espanhol Pedro Sanchez, que disse esperar que o acontecimento tenha repercussão em Espanha.
Apesar da derrota republicana nas eleições intercalares, Trump não estará totalmente desprovido de poderes. Tem o poder de veto presidencial, que já declarou que vai usar contra a maioria democrata no Congresso, além de competências próprias do poder Executivo.
O ex-Presidente George Bush tinha passado por situação idêntica. Não obstante os republicanos terem sido derrotados nas intercalares em 2006, Bush manteve as tropas norte-americanas a combater no Iraque e no Afeganistão, portanto, em duas guerras que na altura levaram os eleitores norte-americanos a manifestar nas urnas a sua desaprovação.
Aliás, reforçou mesmo a presença militar no Iraque com 20 mil soldados.
Por conseguinte, as intercalares não vão demover DonaldTrump de voltar a desenvolver acções militares contra o Irão, acções que a media relata que estão em preparação e que durante estas últimas semanas foram motivo de notícias sobre o que os Estados Unidos e Israel estariam a planear depois das eleições, quer num quer noutro país, contra Teherão.
Significa que DonaldTrump tem ainda 2027 e 2028 para exercer os poderes de que dispõe, embora no plano legislativo vá encontrar bloqueios no Congresso, que – sublinhe-se -, não serão suficientes para impedir que leve avante os seus propósitos.
O poder de veto presidencial é tão forte que, por exemplo, George Bush chegou a chumbar, em 2007, uma proposta que previa prazos para a retirada das tropas norte-americanas do Iraque.
A retirada total das forças norte-americanas do Iraque só aconteceu em Setembro deste ano, duas décadas depois da invasão para derrubar Saddan Hussein. A saída do Afeganistão só aconteceu em Agosto de 2021, durante a Administração Biden.
Na União Europeia, a maior parte dos actuais líderes torce pelo retorno dos democratas à Casa Branca, porque espera que venha a ser revertida a posição adoptada pela Administração Trump em relação à guerra que opõe a Ucrânia à Rússia.
Moscovo olhou para os resultados das intercalares norte-americanas afirmando simplesmente que espera que o Presidente DonaldTrump mantenha os esforços para se alcançar a paz na Ucrânia.
Começou, agora, uma nova contagem de tempo para muitos assuntos de política externa. Uma contagem de tempo que será acompanhada por uma correria diplomática nos bastidores da política.
Ou seja, há quem já trabalhe na perspectiva de uma vitória democrata nas eleições presidenciais de Novembro de 2028 nos Estados Unidos e os seus planos e acçõesactuais são já em função dessa realidade.
*Jornalista