
A provedora de Justiça, Florbela Araújo, lamenta o facto de as vítimas de violência sexual raramente apresentarem queixa. A responsável do organismo de defesa e garantia dos direitos e liberdades dos cidadãos, que falava durante o encontro de trabalho com a embaixadora da União Europeia em Angola, Jeannette Seppen, que teve lugar na quarta-feira, 15, justificou tal constatação com o facto de ser, ainda, um tabu as pessoas denunciarem que foram violadas.
“Ninguém se queixa de questões de violência sexual”, afirmou a provedora de Justiça, adiantando que, às vezes, são os pais que se queixam, admitindo que tal só acontece “quando há morosidade dos processos” a nível dos órgãos de investigação. E acrescentou: “Ainda é um tabu alguém fazer queixa de que foi violada”.
Esclareceu, entretanto, que quando o cidadão apresenta uma queixa à Provedoria, por escrito, audiência, telefone ou e-mail, a denúncia é admitida e, dentro do âmbito da actuação do provedor de Justiça, são notificados os órgãos da Administração Central e Local do Estado que caem no âmbito da actuação do provedor de Justiça, quando há violação dos direitos do cidadão.
A queixa, disse, é recebida pela direcção das áreas especializadas que trata da reclamação e faz a triagem, para apurar se se trata de uma queixa apresentada pela primeira vez ou se já é sequência de anteriores.
Para cada queixa do cidadão é aberto um processo, dentro do âmbito da actuação, mas “se for algo muito urgente, o procedimento é ao nível dos pontos focais, para saber como se pode resolver a questão”.
De resto, Florbela Araújo atribui o aumento diário do número de queixas em todo o país ao trabalho desenvolvido ao nível dos chefes dos serviços provinciais, por intermédio de palestras sobre divulgação do papel e função do provedor de Justiça.
“No acto de visitas, também se faz recomendações do que se deve melhorar. E temos melhorado, paulatinamente, graças à divulgação do nosso trabalho”, assegurou.
Crescimento de queixas
A provedora de Justiça referiu que o número de casos de queixas na instituição registou um crescimento. Adiantou que os números variam de mês para mês, tendo, em 2021, a instituição registado uma média de 800 a 900 queixas. Este número, revelou, subiu consideravelmente no ano passado (2022), ao fixar-se em mais de 2.500 queixas.
“Naqueles anos em que houve a Covid-19 e que estivemos muito fechados, abrimos audiências através do telefone e vídeo conferência, mas achamos que o ano passado foi o que tivemos mais queixas, com mais de dois mil e quinhentos casos”, afirmou, tendo esclarecido que há meses em que as queixas são maiores e outros menores.
Para constatar a situação real dos cidadãos em conflito com a Lei, Florbela Araújo garantiu haver uma interacção muito forte a nível dos órgãos e serviços penitenciários, com visitas constantes, sobretudo ao nível da Comissão da Prisão Preventiva, coordenada pelo presidente da Câmara Criminal do Tribunal Administrativo.
Durante as sessões de visitas, a Provedoria de Justiça coloca questões relacionadas aos reclusos com excesso de prisão preventiva e sobre os que aguardam por liberdade condicional.
“Todas estas questões têm sido colocadas e temos tido sucesso nesses casos de defesa dos direitos dos reclusos. Todas as situações que encontramos quando visitamos, colocamos às autoridades competentes, de forma a que os serviços penitenciários tenham melhorias”, argumentou.