A cedilha e o trema – Artur Queiroz
A cedilha e o trema - Artur Queiroz
chega tuga

Gabriela Antunes (Gaby) era menina do Huambo, irmã dos históricos Congo e Xico Bamba, muito populares na “Nova Lisboa” dos anos 50 e 60.

A mana foi para Lisboa e matriculou-se em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras. Quando acabou a licenciatura, fez uma especialização em língua Alemã, na Universidade Humboldt de Berlim. Casou com Claude Jacques e regressou a Angola.

Ficou em Luanda dando aulas no Colégio D. João II e ao mesmo tempo dava explicações. Em breve foi considerada a melhor “explicadora” de alemão na velha cidade de Luanda. A outra especialista era Ana Maria Shapiro.

Claude fazia-nos visitas no botequim do Prenda e depois no Palácio do Jara, Bairro da Cuca. Foi entronizado como Leão D’Anhara. A Gaby era Leoa. Depois do 25 de Abril 1974 abrimos um espaço cultural, o programa Resistência, na Emissora Oficial de Angola (RNA), realizado e produzido pelo poeta António Cardoso.

Na nossa tertúlia a Gaby declamava poemas de Agostinho Neto, António Jacinto, Mário António, João Maria Vilanova e Jofre Rocha. Convidei-a para uma rubrica de declamação. Um sucesso!

Mano Artur Neves pontificava na técnica. Salvou as bobines alguns programas. Um deles foi protagonizado em exclusivo pelo poeta Álvaro Novais (Leão D’Anhara asmático).

Ele nunca escreveu os seus poemas, compunha-os na cabeça e guardava-os na memória. Nesse dia declamou-os todos. É o único testemunho da sua obra fantástica. Está em boas mãos.

A Gaby ajudou-me quando tropeçou na minha vida de repórter, uma menina alemã que tinha chegado a Luanda para trabalhar na filial de uma empresa do seu país.

Ela decidiu tirar a carta de condução e eu fazia de tradutor. Mas o meu alemão era de dois anos no liceu. Quem queria ir para Direito tinha as cadeiras de Latim e Alemão. A Dra. Teresa foi minha professora no Liceu Salvador Correia.

Péssimo aluno, disfarçava tratando-a não por “s’tora” mas Gnädige Frau. No exame de sétimo ano fui à oral com nove valores (em 20) e a excelentíssima senhora aprovou-me com dez. Andei a comemorar uma semana.

Não gosto de falar da política portuguesa, mas há momentos que calar é cobardia. Vou falar. Se eu fosse homem de votar, jamais daria o meu voto ao Tio Célito. Mas fiquei em estado de choque quando vi o político suburbano André Ventura dizer que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi à Festa dos Hambúrgueres em Berlim à custa do dinheiro dos contribuintes.

Na verdade foi à Bürgerfest (Bürger com umlaut/trema no “u” ou Buerguer) Festival da Cidadania que esta edição foi dedicada a Portugal. Bürger igual a cidadão ou civil.

Os estudantes do meu tempo que queriam matricular-se no ensino superior em Direito tinham as cadeiras de Latim e Alemão porque as obras milenárias estão escritas nestas duas línguas.

O suburbano André Ventura diz que é doutorado em Direito. Não aprendeu Latim? Não aprendeu Alemão? Ele lendo um papel disse que o Presidente Marcelo foi a um festival de “hambargers”. Menino, o “u” com umlaut ou trema lê-se (iu) e não “ã”. Um básico, especializado em gritaria e aldrabices.

Hoje estou em condições de revelar algo interessante. O chegador engatatão foi a um local onde se juntam uns homenzarrões que trabalham na construção civil. Trolhas e ajudantes de pedreiro. Há senegaleses, angolanos, guineenses, santomenses, cabo-verdianos e outras paragens africanas.

O gritador cheguista fisgou um calmeirão e entregou-lhe discretamente um papelito onde estava escrito com tinta cor-de-rosa: Quero pica! O rapagão, educadamente, disse-lhe que picas só no Hospital Amadora-Sintra. E devolveu-lhe o papel.

Já no seu apartamento com 30 metros quadrados leu a mensagem cor-de-rosa. Descobriu porque ficou em branco. Os outros potenciais clientes fizeram um grande alarido com o rapazito que queria pica. O grande líder tinha-se esquecido da cedilha!

Volto ao nosso espaço. O comerciante mais rico da Caála era o senhor Carusso, alcunhado com este nome porque era assim que pronunciava o nome do cantor lírico Enrico Caruso. O ricaço tinha um conflito insanável com a gramática, como o Agualusa e outros escritores de referência.

Um dia, mandou uma mukanda para o seu agente comercial no Lobito, pedindo-lhe três vagões de sal. Quando a mercadoria chegou à Caála e foi descarregada, o empregado alertou-o: Senhor Carusso, temos na estação do CFB uma montanha de cal!

O quê? E foi ver. Lá estava a cal branca e leve. Furioso, mandou um telegrama ao agente comercial exigindo a recolha da mercadoria porque ele queria sal e não cal. Com receio de perder o melhor cliente, o esforçado agente comercial meteu-se no comboio “mala” e foi à Caála. Mostrou ao senhor Carusso a mukanda. O ricaço leu, bateu com a mão na testa e exclamou: Porra! Esqueci-me da cedilha. Eu queria çal!

O esquecimento da cedilha não causou grande dano ao gritador engatatão. Há mais marés do que marinheiros e trolhas. A gritaria que fez sobre a ida do Tio Célito ao festival de “hambargers” vai dar-lhe mais um milhão de votos. Ainda que tenha perdido um rapagão bem abonado. Mas numa emergência tem sempre à mão o seu confessor ou o guarda-costas.

E o senhor C arusso da Caála? Ficou ainda mais rico com as toneladas de cal em vez de “çal”. Fez uma combina com o padre do Longonjo e multiplicou a fortuna, vendendo os três vagões de cal e muitos mais.

Sabem como? O padre exorcista teve uma grande ideia: Vamos meter a cal em sacos de veludo, pequeninos, de pôr ao peito. Para afastar o mau-olhado, feitiços, dívidas, doenças venéreas e até espinha caída.

Fazemos uns maiores em pano branco, para pendurar nas portas e janelas. Protecção contra as maldades do diabo. E uns sacos ainda maiores, feito com sacos da Companhia de Açúcar de Angola, para pôr à entrada das lavras e fazendas. Estão garantidas boas colheitas. Pendurados nas árvores, garantem bons frutos. Foi tiro e queda.

Os saquinhos de pôr ao peito tinham uma cruz bordada e escrito: Agnus Dei. Trabalho da médium do senhor padre exorcista. A sociedade recebeu encomendas de toda Angola e até de Portugal.

A cal que chegou à Caála por culpa da cedilha esfumou-se num instante. E pelo CFB chegavam à Caála muitos vagões durante anos. Claro que o agente comercial do Lobito também despachou vagões de “çal” forma como o senhor Carusso escrevia sal.

O suburbano gritador e cheguista é inimigo figadal da cedilha no “c” de pica e do humlaut no Bürger de Cidadão. Este vai mais longe do que Trump, o chefe da Internacional Fascista.

*Jornalista

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