A entrevista (quase) no tom ou momento certo? – Adebayo Vunge
A entrevista (quase) no tom ou momento certo? – Adebayo Vunge
JL8

Os comentários à entrevista do Presidente João Lourenço à Televisão Pública de Angola (TPA) têm sido incansáveis – antes, durante e depois, animando vários grupos nas redes sociais e largas horas em espaços mainstream dos media tradicionais.

O Presidente da República segue excessivamente à letra uma das premissas da comunicação política: “a comunicação deve ocorrer no momento certo”, isto é, em momentos subordinados às estratégias de curto, médio e longo prazos, para além de obedecer objectivos políticos e de comunicação estratégica bem definidos.

Por nós que andamos neste mundo da comunicação há já algum tempo e suportados no que se pode chamar de conhecimento académico, consideramos que os “momentos certos” são mais frequentes e que a escolha dos canais de comunicação deve ser mais ampla, mais abrangente e mais plural.

Mas não é sobre isso que queremos reflectir, convenhamos que na entrevista concedida à TPA, há cerca de uma semana, o Presidente João Lourenço abordou uma série de temas centrais para a vida política, social e económica do país, mesmo que em alguns casos pudéssemos ter mais desenvolvimentos numa abordagem mais programática.

Comecemos pela relação com a oposição e o diálogo político. O Presidente destacou a importância do diálogo com a oposição, referindo o recente encontro com o presidente da UNITA como um acto normal em qualquer democracia. Sublinhou que, apesar de um longo período sem encontros directos, sempre esteve disponível para dialogar quando solicitado.

Acrescentou que discutiu com Adalberto Costa Júnior as questões políticas e económicas do país. E mais importante: João Lourenço enfatizou que tem as portas abertas para um diálogo inclusivo (pelo menos com todas as forças políticas parlamentares) em nome da estabilidade política.

Em segundo lugar, o PR ressaltou a importância das comemorações alusivas às “bodas de ouro” da Independência, afirmando que o programa comemorativo foi desenhado para incluir todos os angolanos, sem excepção, e que todos são convidados a participar, não apenas como espectadores, mas como protagonistas da história nacional.

Um tema complexo, para não dizer difícil, é a questão económica. O Presidente apresentou muito bem os dados sobre o desempenho económico do país, destacando, para além duma taxa de crescimento do PIB de 3,5% ao ano e de 4,5% para a economia não petrolífera, a redução do rácio da dívida pública para 63% do PIB (abaixo dos mais de 100% de anos anteriores), uma inflação de 22% e a taxa de desemprego em 29%.

E aqui, os mercados, as empresas, as famílias aguardavam mais luz, medidas novas, balanços mais concretos das que estão em curso e um reafirmar das metas sobre as quais podemos continuar a caminhar.

Fez ainda um balanço do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM). O Presidente João Lourenço continua a defender o PIIM como uma das principais bandeiras do Governo, e disse que se houvesse mais recursos, implementaria um “segundo PIIM”, reforçando o compromisso com a resolução dos problemas do povo.

E quanto ao povo e ao papel do povo, João Lourenço foi muito taxativo: “O povo é o meu patrão”, disse, e acrescentou que sua responsabilidade é prestar contas ao povo, que o elegeu para resolver os problemas nacionais.

Reconheceu, porém, que nem sempre é bem compreendido, sobretudo pela oposição que, na sua opinião, tenta dificultar ou sabotar projectos do Executivo.

Se passarmos para outro plano de análise, temos que os pontos fortes da entrevista são a transparência e prestação de contas, ou pelo menos foi evidente o esforço do Presidente João Lourenço em mostrar-se aberto ao diálogo e à prestação de contas, sobretudo ao abordar temas sensíveis como a relação com a oposição e a situação económica do país.

Deu dados concretos, apresentou indicadores económicos actualizados, detalhando o desempenho do país em áreas como crescimento do PIB, inflação e dívida pública, o que transmite domínio dos dossiers.

Quanto aos demais pontos, não há como ignorar as questões de política inerentes ao MPLA. De tudo o que foi dito, é, curiosamente, relevante o que não se disse. E, portanto, o Presidente não falou sobre como se fará a sucessão.

Pelo que vimos e ouvimos, o Presidente entende que não é o momento e remete a discussão às estruturas do Partido, ou pelo menos como o MPLA irá designar ou escolher o seu sucessor.

Com base no primado constitucional, João Lourenço não se vai candidatar, mas cabe ao Bureau Político a prerrogativa dos demais presidentes do MPLA e da República de designar um sucessor, em nome da cultura política reinante no partido desde sempre. Se não for este o caso, dificilmente o MPLA escapará ao processo de eleições primárias, onde nas entrelinhas se perfilam vários nomes.

João Lourenço não só pauta a agenda, mas define um estilo próprio de discurso político, ora frontal, ora enigmático. A comunicação política exige que alguns elementos sejam mais bem trabalhados em media training testando algumas narrativas e inclusive formatos mais friendly junto do público e também mais adaptados à linguagem dos novos media – e falamos das redes sociais e das plataformas digitais – onde se encontra uma bolha que influencia a opinião pública no seu todo.

O mais importante agora que estamos a meio do segundo mandato, é que Presidente João Lourenço trabalhe no seu legado material e imaterial, embora tenhamos para nós que há avanços interessantes no que diz respeito ao combate à corrupção – nunca será um edifício acabado – e a atenção dedicada à construção de hospitais tendo em vista um sistema de saúde robusto para deixarmos de ouvir que filhos ilustres da Pátria morreram fora dela e possamos em definitivo reduzir os casos e mortes por malária, como ainda se vê, lamentavelmente.

Em definitivo, Angola não é a mesma de 2017. Há avanços e recuos, mas deixa assim as suas pedras fundamentais no alicerce dessa obra maior a que cada um de nós chama “Angola”.

*Jornalista

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