
“A Explosão Universitária em Angola” (título de um artigo meu, publicado no Jornal de Angola, a 29 de Abril de 2011), continua a crescer. Decorridos 10 anos daquela data, o Jornal Expansão, na sua edição 608, de Janeiro de 2021, referiu que “…o país tem hoje 183 instituições de Ensino Universitário.
No sector público existem 11 Universidades, 51 Faculdades, 15 Institutos, 5 Escolas Superiores e uma Academia de Ciências, e no Ensino Privado 10 Universidades, 37 Faculdades, 52 Institutos e duas Escolas Superiores”.
Admitindo que estes dados sofreram alterações, diminuindo ou aumentando, nestes últimos 3 anos, o certo é que, em média, por ano, todas estas instituições produzem, segundo dados não oficiais, cerca de 10.000 novos licenciados.
A este número somam-se os licenciados no exterior que regressam ao país. Excluindo os que já estavam empregados, enquanto se licenciavam, qual a percentagem dos que não conseguem empregos na sua área de formação? Na ausência de dados fiáveis, podemos arriscar que é muito alta.
Os licenciados e os seus pais, geralmente, como era de esperar, alegram-se pelo passo dado, o alcance da licenciatura, confirmado em cerimónias pomposas de outorga de diplomas. Porém, logo a seguir, a frustração apodera-se de muitos deles, pois o mercado de trabalho não tem capacidade de os absorver.
Sendo certo que a licenciatura não é o fim em si mesmo, o objectivo é exerce-la, daí a decepção, isso é, expectativas não satisfeitas.
Está na moda a ideia de que os licenciados devem ser empreendedores e desenvolverem os seus próprios negócios, dentro ou fora do domínio da sua licenciatura. Porém, nem todos têm vocação e capacidade de empreender negócio próprio. Além disso, não são poucos os obstáculos reais para empreender.
Pode ser que a qualidade dos licenciados, isto é, os seus saberes-teóricos e saber-fazer (conhecimentos, habilidades e competências), nos diferentes ramos do saber, em muitos casos, deixa muito a desejar. Também é certo que as instituições de Ensino Superior, em Angola, produzem, maioritariamente, licenciados no domínio das Ciências Sociais e Humanas e menos nas Ciências Exactas, entre as quais as Engenharias.
Contudo, a verdade é que há, certamente, licenciados de boa qualidade também desempregados. Há licenciados em Engenharias, Medicina, Biologia, Geologia, etc, em situação igual.
Acreditamos que estes cursos fazem parte das necessidades reais presentes e futuras do mercado de trabalho, nos órgãos do Estado e no sector privado. Angola não tem engenheiros e médicos em excesso, muito pelo contrário, há excessiva carência.
À frustração dos licenciados e dos seus pais acrescenta-se, ou deveria acrescentar-se a do Estado e a das próprias instituições de Ensino Superior públicos e privadas, que vêem os seus frutos, isto é, os seus licenciados sem utilidade no mercado de trabalho.
Tendo um número muito alto e crescente de licenciados inativos, o Estado não pode afirmar que está a fazer crescer, convenientemente, o capital humano do nosso pais, tido como factor mais importante para o desenvolvimento económico, social e humano do país.
Não sendo propriamente função das instituições de Ensino Superior buscar vagas para os seus licenciados, ao menos deveria interessar-lhes avaliar como o mercado de trabalho recebe os seus “produtos” e qual tem sido o desempenho destes neste mercado. Este exercício poderia ditar melhorias dos currículos dos cursos e dos métodos de ensino, e, enfim, da qualidade do perfil de saída. etc.
Certamente, entre os licenciados desempregados há qualidades potenciais, como referimos acima, que não estão a ser, convenientemente aproveitadas para alavancar a economia. É preciso que a produção de tantos licenciados por ano tenha repercussões, benefícios ou retorno, para a economia, para a sociedade e para as famílias.
Parece-nos perigoso, do ponto de vista económico, político e social, ter-se um amplo e crescente “exército de licenciados desempregados.” Ou seja, a existência de milhares de jovens licenciados frustrados, insatisfeitos e ociosos pode constituir perigo, a médio ou longo prazo, para a estabilidade económica, política e social.
O que fazer para reduzir o excesso de licenciados desempregados?
Entre as possíveis medidas elencamos as seguintes:
1- Melhorar a qualidade do ensino básico ao universitário, desenvolvendo nos estudantes, de todos os níveis, reais capacidades empreendedoras;
2- Melhorar as relações entre os Institutos Médios, Universidades e as empresas públicas, privadas e outras instituições, a fim de aliar a teoria à prática.
3- Aumento do investimento na indústria e na agricultura em toda a dimensão do território nacional;
5- Aumento dos incentivos do Estado para os cursos ligados às Engenharias, isto é, às necessidades técnico-profissionais prioritárias do país para o aumento da produção de bens e serviços.
6-Etc.
Como se pode depreender, produzimos este tema para convocar a sua discussão ou reflexão mais profunda, baseada em dados estatísticos fiáveis e actuais, gerados pelas próprias instituições de Ensino Superior e outras.
Pois, a dificuldade de encontrar dados actuais e fiáveis, não nos permitiu, adentrar mais no tema, pelo que deixamos perguntas por responder.
*Licenciado em Ciências Sociais e em Gestão de Empresas