A invasão ao calçadão e os passaportes electrónicos – Maria Luísa Abrantes
A invasão ao calçadão e os passaportes electrónicos - Maria Luísa Abrantes
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Já uma vez questionei, mas volto a fazer a pergunta a quem souber: A quem pertence, ou qual é o nome do membro da facção vencedora, ou testa-de-ferro, que ficou com o projecto Baía de Luanda, financiado e indemnizado pelo Estado (pago com o dinheiro dos contribuintes), quando foi concedido a custo zero?

A Marginal de Luanda foi alargada, com a construção de um passeio mais amplo (calçadão) e canteiros relvados, para protecção da linda mas pequena Baía de Luanda, destinada ao lazer dos moradores e seus visitantes.

De imediato, o grupo dos espertos, ou seja, os DDT (Donos Disto Tudo), então capitaneados por Manuel Vicente, protegido pelos seus principais “muchachos” – Dino, Kopelipa, Higino Carneiro, Carlos Silva, Baptista Sumbe, entre outros – privatizaram a Baía.

Mosquito Mbakassy, apesar de fazer parte dos DDT, não integrou esse projecto. Toninho Van-Dúnem participou na distribuição de terrenos que tinham dono, quando esteve, juntamente com Higino Carneiro, na coordenação da província de Luanda.

Não bastava já terem distribuído os jardins arranjados da cidade e o Jardim Zoológico na Ilha, decidiram dragar ainda mais para construir prédios dentro do calçadão (pasmem-se). Nem sei como não transformaram as jaulas dos animais em habitação.

A pergunta que não se quer calar é: Se não há dinheiro, quem substituiu os DDT e quem está a construir, a todo o vapor, todos os prédios e condomínios da facção perdedora?

É estranho e sintomático, porque o local onde foi instalado o novo Centro de Emissão de Passaportes e Cartas de Condução é exactamente no final do calçadão, junto ao Porto de Luanda, no prolongamento do terreno dragado.

É no mesmo sítio onde, por pura matumbice, estão a construir um arranha-céus (já não me admiraria se surgirem outros), em vez de gastarem esse dinheiro na limpeza da Baía, no morro da Samba e na construção de habitação social.

Outra coincidência é que é no mesmo local onde foram montadas várias tendas que faturaram largamente enquanto não houve a inauguração do Centro Protocolar, durante a realização de eventos organizados pelo Executivo em 2025. Não deve ser difícil adivinhar a quem interessa continuar a monopolizar.

Será que pensam que vão ser enterrados com a fortuna para dela usufruírem no purgatório?

É que o inferno é aqui, onde vivem 99,9% dos angolanos, e estende-se a outras ditaduras semelhantes e a países bombardeados.

Os jardins da cidade de Luanda foram reabilitados pelo único governador, Aníbal Rocha, que conhecia o que é normal numa cidade em geral e nos bairros residenciais em particular, possivelmente pela sua vivência anterior à independência.

Os outros governadores, como nasceram em bairros sem jardins e sem ruas arranjadas, rapidamente acharam que o melhor negócio seria montar lanchonetes, bares e salões de farra nos jardins dos bairros residenciais, começando pelo maior e principal jardim de Luanda: o Parque Heróis de Chaves, que se transformou, definitiva e vergonhosamente, em dois salões de festas.

Quanto à Sociedade Baía de Luanda, representada por Carlos Silva e Baptista Sumbe, cujo chefe do projecto era Manuel Vicente, foi indemnizada em 379 milhões de dólares, por Decreto Presidencial n.º 23/17, de 15 de Fevereiro (só o demónio sabe porquê).

Manuel Vicente tornou-se invisível depois de o Presidente João Lourenço, com ar carregadíssimo, ter ameaçado publicamente o Governo português caso não fosse remetido o processo de corrupção contra si.

Como o então ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, é muito inteligente, afirmou de imediato, numa entrevista, que o processo não iria prosseguir – e não mentiu.

*Jurista

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