A kizomba dos falsários – Artur Queiroz
A kizomba dos falsários - Artur Queiroz
queiroz e rui ramos

Corria o ano de 1962 e em Coimbra, atletas da Académica e estudantes conviviam numa almoçarada que meteu muamba de galinha kabiri e funje de bombô. Kizomba da amizade e da camaradagem. Estavam presentes os futebolistas França (general Ndalu), Araújo, Mário Wilson, Manecas Balonas, Piscas (glória do Atlético de Luanda) e o anfitrião, Daniel Chipenda, super craque do grupo.

Uns meses antes, na passagem de ano de 1961 para 1962, o capitão Varela Gomes comandou a Revolta de Beja para derrubar o regime fascista e foi ferido gravemente em combate.

A conversa dos convivas também andou à volta desse movimento revolucionário. Mas sobretudo falavam de Angola, a Mamã de todos. Alguns dias depois, Chipenda, França (Ndalu) e Araújo fugiram de Portugal para se juntarem às forças que se batiam pela Independência Nacional. Do grupo só França tinha experiência com armas, porque estava a cumprir serviço militar obrigatório.

Todos eram atletas de eleição e jogavam na Académica de Coimbra. A fuga dos futebolistas causou grande alarido em Portugal. O regime tremeu. Jovens que jogavam no campeonato da primeira divisão, numa equipa especial, constituída por estudantes (era obrigatório para jogar na Académica) foram lutar pela Libertação da Pátria Angolana!

Um pormenor de humanismo, amor e ternura mas também de coragem. A esposa de Daniel Chipenda, Guida, estava na maternidade de Coimbra porque ia ter um bebé. Saiu da cama da unidade hospitalar e fugiu com o marido e seus companheiros de fuga! Teve a criança no estrangeiro. A História do Povo Angolano tem futuro!

Em cima da fuga dos futebolistas da Académica decorria a conferência do MPLA em Leopoldville (Kinshasa) para eleger o novo Comité Director. Agostinho Neto tinha fugido de Portugal com a família (Maria Eugénia, esposa, mais os filhos Mário Jorge e Irene ainda bebés) em Junho de 1962. Tanta coragem! Tanto amor a Angola!

A fuga, bem-sucedida, foi preparada pelo Partido Comunista Português (PCP). A família desembarcou numa praia do Marrocos, mais morta do que viva. A travessia do Mediterrâneo foi difícil e perigosa. Em Rabat, Neto era esperado por Mário Pinto de Andrade, o líder do MPLA.

Numa reunião com outros dirigentes do movimento, Mário Pinto de Andrade disse a Agostinho Neto que tinha de assumir a liderança. Ele aceitou o desafio mas impôs uma condição: Realização de eleições. O presidente do MPLA concordou e logo ali declarou que ia ser o primeiro apoiante da lista de Agostinho Neto.

Partiram todos para Leopoldville (Kinshasa) e dois meses depois começou a conferência para eleger a nova direcção. Chipenda estava na funjada na sua casa de Coimbra mas quase a fugir!

Agostinho Neto apresentou a sua lista, apoiado por quase toda a direcção. Viriato da Cruz apresentou outra lista apoiada pela ala maoista, mas também profundamente racista. O resultado foi esmagador. Agostinho Neto foi eleito e a Luta Armada de Libertação Nacional ganhou uma dimensão inaudita.

Em pouco tempo, a tropa portuguesa estacionada no então distrito de Cabinda não conseguia sair dos seus quartéis, era logo atacada e sofreu pesadas baixas. Todos para o interior! Viriato da Cruz, à cautela, foi para a República Popular da China onde não chegava a aviação e o fogo da tropa dos “tugas”. Foi assim.

Esta é a razão pela qual Agostinho Neto ainda hoje é odiado, caluniado, insultado, atacado. Peço perdão pela crueza da linguagem, mas não tenho outra forma de explicar porquê.

Porque o preto conseguiu! O preto proclamou a Independência Nacional! O preto enfrentou vitoriosamente a coligação mais agressiva e reaccionária que alguma vez se formou na Terra! O preto ensinou-nos que somos milhões e contra milhões ninguém se atreve a combater. Porque morre. É derrotado.

Mais ainda. O ódio e ressentimento contra Agostinho Neto existe porque o preto era clarividente e poeta. Porque o preto abominava o racismo. Porque o preto se guindou, por mérito próprio, à figura mais importante do século XX na luta pela Liberdade, Justiça e Dignidade. Vive no Mausoléu da Praia do Bispo, mas também nas páginas da História Universal.

Hoje João Lourenço pôs a circular, através do seu escriba “Joy Henriques”, que Daniel Chipenda foi o único presidente do MPLA eleito em “múltiplas candidaturas, no princípio dos anos 60”. Derrotou Agostinho Neto!

João Lourenço e Esteves Hilário ilustram a aldrabice com o recorte de um jornal com este título: “Chipenda Eleito Sucessor de Neto”. Uma manipulação grosseira que só deixa ficar mal o filho de enfermeiro e o seu secretário do Bureau Político para a Informação. Este documento é autêntico, mas diz respeito à “eleição” de Chipenda no “congresso” de Lusaka, em 1974.

O congresso nunca existiu porque Chipenda apareceu com uma claque de zairenses, oferecida por Mobutu, e estava ao serviço dos racistas de Pretória. Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade (Revolta Activa) retiraram os seus delegados imediatamente.

A imprensa de Luanda, nas mãos dos independentistas brancos, deu a “notícia” da eleição de Chipenda, sem adversários! João Lourenço e Esteves Hilário têm de acabar com os ataques ao MPLA e seus dirigentes.

Em vez de pagarem aos covardes anónimos e às Amélias Pombas entreguem o dinheiro às instituições que cuidam das crianças desvalidas.

O parasita Rui Ramos continua a falsificar o Jornalismo Angolano e a usurpar o título de decano dos jornalistas angolanos. Ele é um novato. Só entrou na profissão quando, depois de reformado do Pinto Balsemão, torrou uma fortuna ao MPLA no Hotel Tivolli e ao ficar sem o tacho foi acomodado no Jornal de Angola.

Para fingir que está dentro do fabuloso Jornalismo Angolano, apresentou o jornalista José de Fontes Pereira como um nacionalista. Falso. Ele era um dos mais brilhantes cultores do Jornalismo Doutrinário no seu tempo. Escrevia textos de edificação moral. Combateu o alcoolismo e a embriaguez pública. Lançou uma campanha contra o pé descalço, por razões de saúde e higiene. Há 14 anos preparei um texto para os formandos do Jornal de Angola onde está isso bem pormenorizado.

Agora o falsário descobriu, sabe-se lá onde, uma foto da primeira página do jornal Gazeta de Angola (1881) e escreve enormidades como esta: “Não terá sido o primeiro jornal publicado em Angola, mas dos primeiros”.

Se o parasita soubesse do que fala, escrevia que 1881 foi o ano em que nasceu o primeiro jornal propriedade de negros e que só tinha jornalistas negros, o Echo de Angola (12 Novembro de 1881). Um dos colaboradores era precisamente José de Fontes Pereira.

No documento que hoje vos mando em anexo, traço o seu perfil. O “Gazeta de Angola” apareceu 38 anos depois dos primeiros jornais em Angola!

O parasita e usurpador Rui Ramos diz que “contabilizou” no século XIX “um mínimo de 18 jornais” em Angola. A ignorância é muito atrevida. O contabilista não sabe do que fala e escreve. Angola teve dezenas de periódicos entre 1845 e o final do século XIX. Vale a pena conhecer a lista completa, porque ela revela que a colónia neste aspecto era mais forte do que a potência colonial.

Publicações de imprensa em Luanda: Boletim do Governo-Geral da Província de Angola (1845), Almanak Statistico da Província d’Angola e suas Dependências (1852), A Aurora (1856), A Civilização da África Portuguesa (1866), O Commercio de Loanda (1867), O Mercantil (1870), Almanach Popular (1872), O Cruzeiro do Sul (1873), O Meteoro (1873), Correspondência de Angola (1875), Jornal de Loanda (1878), Noticiário de Angola (1880), Boletim da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Geographico-africanos de Loanda (1881), Gazeta de Angola (1881), O Echo de Angola (1881), A Verdade (1882), O Futuro d’Angola (1882), A União Africo-Portugueza (1882), O Ultramar (1882), O Pharol do Povo (1883), O Raio (1884), O Bisnagas (1884), O Arauto dos Concelhos (1886), A Tesourinha (1886), O Serão (1886), O Rei Guilherme (1886), O Progresso d’Angola (1887), O Exército Ultramarino (1887), O Imparcial (1888), O Foguete (1888), Mukuarimi (1888), Arauto Africano (1889), Nuen’exi (1889), O Desastre (1889), Correio de Loanda (1890), O Chicote (1890), O Polícia Africano (1890), Os Concelhos de Leste (1891), Notícias de Angola (1891), Commercio d’Angola (1892), A Província (1893), O Imparcial (1894), o Independente (1894), Bofetadas (1894), Propaganda Colonial (1896), O Santelmo (1896), Revista de Loanda (1896), Propaganda Angolense (1897), A Folha de Loanda (1899).

Em Benguela: O Progresso (1870) e A Semana (1893). Em Moçâmedes (Namibe): Jornal de Mossamedes (1881), Almanach de Mossamedes (1884), O Sul d’Angola (1892), A Tesoura (1892), A Tesourinha (1892) e A Bofetada (1893). Na Catumbela: A Ventosa (1886). No Ambriz: A Africana (1893).

Angola, no século XIX, tinha 59 jornais. Em Luanda foram editados 49, seis em Moçâmedes (Namibe), dois em Benguela e um no Ambriz. O contabilista e falsário Rui Ramos só “contabilizou” 18 jornais! Mas encontrou um em Dala Tando. Mentira! No Século XIX o jornal mais a norte foi publicado no Ambriz.

Luísa Rogério, por favor, não permitas que um falsário se intitule decano dos jornalistas angolanos. Ele exibe uma “carteira” emitida em Praga. Esse título qualquer polícia amador tinha.

Ele que mostre a Carteira Profissional emitida pela Comissão da Carteira Profissional em Portugal, onde ele trabalhou até se reformar. Tudo o resto é falso. Trava as falsificações. O fabuloso Jornalismo Angolano merece que todos o defendamos.

*Jornalista

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