
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie diz que todos deveríamos ser feministas. A ideia feminista de que nenhum ser humano é superior a outro e que todos somos iguais devia ser a máxima de todas as sociedades. A igualdade e a equidade devem ser tratadas de forma sistémica e holística no nosso país.
Em Angola, reina e impera o heteropatriarcado. Temos uma sociedade onde as únicas opções possíveis de existência humana respeitável são ser homem e heterossexual.
O matriarcado, a ideia de que as mulheres tenham maior poder que os homens, é nula, impensável e até inadmissível. Os corpos das mulheres no nosso país são alvos de todo o tipo de desrespeito e violações possíveis, com a desculpa recorrente de que “elas são fáceis, atiradas, interesseiras e prostituíveis”.
As situações de violência contra as mulheres e meninas em Angola estão a aumentar e clamam aos céus. Várias mulheres, na sua maioria atravessadas pela interseccionalidade — ou seja, além de serem consideradas seres humanos inferiores por terem nascido mulheres, são mulheres sem estudos académicos, empobrecidas, residentes em bairros sem recursos, com possibilidades inexistentes de mobilidade social ascendente —, só são consideradas seres humanos de pleno direito em Angola durante os processos eleitorais. No resto dos dias, são vítimas de todo o tipo de abusos: misoginia, sexismo e machismo.
No passado dia 13 de Setembro, uma mulher, mãe de cinco filhos, dirigiu-se à esquadra da polícia mais próxima da sua residência, no município da Catumbela, província de Benguela, para apresentar uma queixa devido ao incumprimento do dever paterno de manutenção dos seus filhos e filhas, por parte do progenitor.
Esta mulher foi violada, abusada e humilhada, ali mesmo, na esquadra da polícia, pelo agente que tinha a responsabilidade de a proteger.
Esta mãe, para além de estar a sofrer violência vicária — a violência exercida pelos pais quando castigam a mãe não alimentando os seus filhos, maltratando-os e, por vezes, até matando os filhos para causar dor e sofrimento ainda maior à mulher —, sofreu também violência policial e agressão sexual. O seu relato dos factos é arrepiante.
Muitas outras mulheres, ao ouvir a queixa da mulher da Catumbela, também manifestaram ter sofrido agressões sexuais nas esquadras da polícia, algumas delas em estado avançado de gestação, sem terem denunciado anteriormente por medo de represálias.
O medo de serem revitimizadas, de não acreditarem nelas, de serem culpabilizadas, já que não foram de saia curta nem provocativas à esquadra. Porque a verdade é que, sempre que uma mulher sofre agressões sexuais, a sociedade culpa-a a ela, e nunca, ou quase nunca, culpa o violador ou delinquente.
Por isso, é hora de apelar às mulheres para que o medo, a discriminação e a vergonha nunca estejam do lado das vítimas (as mulheres).
Quem deve sentir vergonha é aquele ser humano que, sem pudor, viola, estupra e até mata outro ser humano, simplesmente por se achar superior.
Nesse contexto, a pergunta que não quer calar é: Onde estão os movimentos de mulheres angolanas, a OMA, a LIMA, as associações de mulheres das igrejas e da sociedade civil? Onde está a nossa sororidade (se tocam a uma, tocam a todas)?
Como é que uma organização tão sólida como a OMA, custodiada pelo partido no poder e com todos os meios de acção de que dispõe, não faz eco de todas estas situações de violência machista, sexista e patriarcal que as mulheres sofrem diariamente?
Tudo leva a crer e a confirmar o triste fenómeno a que se referia Virgílio Samakuva num dos artigos publicados na sua página do Facebook no dia 21/08/2021, que convido a consultar, no qual ele fazia referência ao fenómeno social dos “papatós”, “bootlickers”, “graxas” ou, simplesmente, lambebotas, que apenas actuam contra algo quando se trata de “esfregar” para satisfazer e serem bem vistos pelos chefes, em defesa do seu próprio interesse e não no interesse geral.
Certamente, se as violadas, abusadas e estupradas fossem as filhas dos chefes, estaria toda a estrutura da OMA nas ruas a exigir mais segurança e respeito pelas mulheres. Mas, como são mulheres pobres, sem voz nem voto, que não servem para provocar a simpatia e atenção particular de algum chefe, continuam todas sentadas e conformadas, ao calor dos sofás nos escritórios.
Estamos a observar, insensíveis, como vários progenitores estrangeiros sequestram, todos os dias, crianças angolanas, filhos e filhas das nossas irmãs, e as levam para os seus países, com total impunidade, sem que ninguém faça nada. A reacção mais frequente a esses casos é uma triste frase: “Mas quem lhes manda atirar-se? Bem feitas”.
Essas crianças, um dia, dirão que o seu país, a pátria das suas mães, lhes virou as costas e ficou impávida enquanto gritavam por socorro.
Que fique bem claro e que todos reflictamos: ninguém no nosso país está livre de culpas, e ninguém pode julgar ou condenar estas mulheres sem ter em consideração a situação de vulnerabilidade em que se encontram.
Então, para citar o mesmo texto do autor já mencionado: “Aos jovens, essa flor da esperança de todos nós por uma Angola melhor: sois a geração que afirma, e muito bem, que ‘não pode falhar’. E todo o mundo tem os olhos postos em vós. Cabe-vos a missão sagrada de congregar a todos. Sejam humildes, mas dignos. Evitem ficar mal na nova fotografia”. Fim de citação.
Sendo assim, considera-se imperativo que se construa outro modelo de sociedade, que se ampliem as oportunidades, para que todos possam participar nessa epopeia rectificadora, e para que a fome, a pobreza e o desespero não venham mais a condicionar as escolhas de nenhuma mulher no nosso país. Devemos lutar todos juntos e de várias formas por uma igualdade real entre homens e mulheres.
É possível acreditar que, com esforço, e se as lágrimas da primeira-dama Ana Dias Lourenço pelo sofrimento das mulheres angolanas foram verdadeiras, teremos razão para esperar que assim será.