A propósito da morte do Professor Adriano Moreira… depois da chamada Revolução dos Cravos – Marcolino Moco
A propósito da morte do Professor Adriano Moreira... depois da chamada Revolução dos Cravos - Marcolino Moco
Moco

Angola e Portugal, encontram-se, é verdade, em planos circunstanciais, de todo o tipo, bastante diferenciados. No entanto, ninguém nos deve condenar, por invocarmos os bons exemplos de um quadro em relação a outro. Isso para afirmar que o percurso pós-abrilista de Portugal, em relação ao grande vulto do ensino e do pensamento jurídico, político, administrativo e internacional que foi o Professor Adriano Moreira, devia ser um caso de reflexão, em Angola.

Quero dizer que toda aquela febre revolucionária da segunda metade dos anos 70 do século passado, não impediu Portugal pós-abrilista de usufruir, plenamente, das faculdades excepcionais de alguém que foi uma figura proeminente do antigo regime. Pois, o que vemos hoje, por altura da sua morte, atingida a proveta idade dos 100 anos?

Uma unanimidade, em todos os sectores relevantes do seu país, sobre o seu incontornável legado, para a solidificação de um estado europeu moderno, democrático e de direito.

Por Angola, onde Mandelas e Tutus são impedidos de nascer, nem que seja em miniaturas, nunca passarão “moreiras adrianos” para “enriquecerem” o seu país, nem daqui a mais 47 anos, se continuarmos como estamos.

Onde professores nacionalistas, mesmo fundadores do partido “eternamente” governante, são “impedidos” de dar aulas nas faculdades públicas de Direito, como é o caso do Professor Doutor Alberto Neto, por ter criado um “outro partido” e outras ideias. Não falarei de mim próprio, porque “fica mal” (até porque não sou fundador do MPLA), nem de outros casos de “impedidos” que mo não autorizaram.

Angola do fresco e escandaloso caso Augusto Tomás (ou caso de perseguição dos “cabindas do MPLA”, se tivermos em conta o que se vai dizendo sobre Amaro Tati?) em que ninguém me ajuda a descortinar que caso de tão vil e decarada vingança!

Angola da utilização da imagem dos mortos, como o do próprio Presidente Emérito do MPLA – o que escolheu o actual PR para o substituir – para objectivos de permanência no poder, depois de tão vilipendiado?

Quando são actuais os graves casos do Monte Sumi, do Cafunfo e injustiçados prisioneiros dos mesmos, quando gemem, em cadeias, jovens que apenas reclamam por direitos legítimos, acabo de ler que alguém quer que o actual presidente da UNITA, seja julgado por crimes da Jamba de ontem?

Paremos e pensemos que, na verdade, o passado é importante se valer para nos ajudar a melhorar o presente e o futuro. E, sobretudo, que o perdão (auto-perdão) é a nossa salvação, para as grandes questões que importam para a Angola de hoje. Não há caso mais flagrante onde aplicar a ideia de que ninguém é ou foi perfeito.

Com as responsabilidades que Portugal ainda tem, para que Angola política abandone o trilho errático que escolheu, desde a nossa independência, sei que serei perdoado pela Alma Grande do Professor Adriano Moreira, por aproveitar o momento do seu passamento, para falar de exemplos de tão flagrante intolerância para com o “outro”, que tanto atraso causam ao nosso país.

*Antigo Primeiro-ministro

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