A síndrome do mundo mau – António Quino
A síndrome do mundo mau - António Quino
António Quino

É comum, segundo efeitos específicos da Síndrome do Mundo Mau, que pessoas afectadas acreditem que a taxa de criminalidade é muito maior do que realmente é, gerando o aumento da desconfiança em relação a outras pessoas e a crença de que a maioria das pessoas é perigosa ou mal-intencionada. Há pessoas que deixam de sair de casa porque assistiram a um assalto pela televisão…

Foi no final do terceiro quartel do século XX que se começou a evidenciar uma tendência na comunicação social de enfatizar a violência, o crime e o perigo como focos das suas abordagens, envolvendo mudanças nas práticas jornalísticas, na moldagem dos gostos do público e na estrutura da media.

Devido à agenda setting, a mídia mundial conquistou o poder de definir a agenda pública, destacando certos temas e ignorando outros. Isso tem levado a uma cobertura desproporcional de violência e crime desde aquele período.

Um dos maiores estudiosos desse fenómeno é George Gerbner (1919-2005), teórico da comunicação e pesquisador húngaro-americano, mais conhecido por desenvolver a Teoria do Cultivo. Neste estudo sobre a análise dos efeitos a longo prazo da televisão na sociedade, Gerbner afirmou que isso molda as percepções e crenças das pessoas sobre a realidade.

Gerbner foi um dos pioneiros na pesquisa sobre comunicação e mídia e a sua principal contribuição foi essa Teoria do Cultivo, desenvolvida a partir dos anos 1960 e 1970. Nela, Gerbner observou que a representação desproporcional de violência na televisão contribuía significativamente para essa percepção distorcida.

Durante esse período, a televisão se estava tornar-se num meio de comunicação dominante nos lares americanos. A programação televisiva incluía uma quantidade significativa de violência, tanto em programas de entretenimento quanto em noticiários.

Interessado em entender como a exposição contínua à televisão afectava as percepções e atitudes das pessoas, o estudioso conduziu estudos longitudinais para investigar os efeitos cumulativos do consumo de televisão.

Através da sua pesquisa, Gerbner desenvolveu a Teoria do Cultivo, sugerindo que a exposição prolongada à televisão molda gradualmente as percepções das pessoas sobre a realidade. Ele afirmou que os espectadores habituais de televisão tendem a ver o mundo mais perigoso e ameaçador do que os não espectadores ou aqueles que assistem menos à televisão.

Ora, nesse prisma surge o termo “Síndrome do Mundo Mau”, cunhado pelo próprio Gerbner para descrever o fenómeno em que espectadores frequentes de televisão desenvolvem uma visão distorcida e pessimista do mundo, acreditando que ele é mais violento e perigoso do que realmente é.

O seu trabalho teve um impacto relevante nos estudos de comunicação e mídia, ao destacar a importância de considerar os efeitos, a longo prazo, do consumo de mídia na percepção pública da realidade, ou seja, quanto mais se assiste à televisão, mais se acredita que o mundo é semelhante ao exibido pela televisão.

Saltando da televisão para o mundo digital e das redes sociais, a Síndrome do Mundo Mau continua a ser um conceito relevante, onde a exposição a notícias e informações através de redes sociais pode influenciar de maneira semelhante as percepções das pessoas sobre o mundo.

Pela atractividade e busca de audiência dissemos que a “Síndrome do Mundo Mau” (Mean World Syndrome) é um termo cunhado pelo pesquisador de comunicação George Gerbner para descrever um fenómeno psicológico onde as pessoas que consomem grandes quantidades de mídia (notícias e programas de televisão, postagens, vídeos, etc.) que retratam o mundo como um lugar violento e perigoso, acreditar que o mundo real é mais perigoso e ameaçador do que realmente é.

Esse fenómeno pode levar a um aumento da ansiedade, medo e desconfiança em relação ao mundo e às pessoas ao redor, além de alimentar a prática de violência entre os potenciais delinquentes.

Por exemplo, é comum, segundo efeitos específicos da Síndrome do Mundo Mau, que pessoas afectadas acreditem que a taxa de criminalidade é muito maior do que realmente é, gerando o aumento da desconfiança em relação a outras pessoas e a crença de que a maioria das pessoas é perigosa ou mal-intencionada.

Há pessoas que deixam de sair de casa porque assistiram um assalto pela televisão; pessoas deixam de subir em táxis personalizados, porque viralizou algum vídeo que generaliza a insegurança desse meio de transporte, elevando o medo e a ansiedade.

Para se entender a Síndrome do Mundo Mau é importante contextualizar e olhar a abordagem crítica referente às disputas por audiências, num mercado da mídia altamente competitivo.

Embora a psicologia enfatize que os seres humanos têm uma tendência natural para prestar mais atenção a informações negativas – percebidas como mais relevantes para a sobrevivência – talvez a sociologia ajude a perceber por que histórias violentas e dramáticas capturem tanto a atenção do público.

As notícias negativas são mais impactantes e memoráveis do que as positivas, traduzindo-se numa cobertura desproporcional de eventos negativos. Daí, os meios de comunicação frequentemente juntem a violência ao sensacionalismo para aumentar a audiência e, consequentemente, as receitas publicitárias.

Fora os exageros, a vulgarização de espaços de zongolices, as notícias e programas chocantes e alarmantes tendem a gerar mais visualizações e compartilhamentos, pois essas postagens emocionalmente carregadas transportam algoritmos que priorizam o engajamento e atraem receitas de publicidade.

Pôr fim à Síndrome do Mundo Mau Inverter a tendência da comunicação social de enfatizar a violência, crime e perigo não é uma luta só da mídia. Isso requer esforços coordenados em várias frentes, envolvendo mudanças na educação do público e na estrutura de políticas públicas de negócios, de regulamentação e auto-regulação, modelos de financiamento alternativos à publicidade, plataformas de curadoria e/ou de mecenato, etc.

Entretanto, o papel do jornalista é crucial para promover uma cobertura mais equilibrada e contribuir para uma visão mais precisa e construtiva do mundo.

Falamos já da agenda setting, ou configuração da agenda, desenvolvida por Maxwell McCombs e Donald Shaw, na década de 70 do século XX. Resumidamente, ensina-se na escola que essa teoria refere que a mídia não diz às pessoas o que pensar, mas sobre o que pensar.

Portanto, compete ao jornalista fornecer o contexto adequado para histórias de sobrevivência e resiliência, ajudando o público a manter altos padrões e algoritmos éticos que enfatizem a justiça social e a participação activa dos cidadãos na resolução de problemas sociais.

Ao adoptar essas estratégias, jornalistas e meios de comunicação podem desempenhar um papel vital na promoção de uma sociedade mais informada, equilibrada e pacífica, contribuindo para a redução da violência e a construção de um mundo mais justo e seguro.

Deixando para trás os jornalistas, os talk shows também desempenham um papel significativo no panorama da comunicação social, especialmente na forma como influenciam a percepção pública.

Servem como plataformas para debates e discussões, trazendo especialistas, políticos e celebridades para discutir uma variedade de tópicos. Quando bem feitos, os talk shows podem chamar a atenção para problemas sociais, promover campanhas de consciencialização e incentivar acções comunitárias.

Contudo, a necessidade de atrair e manter grandes audiências tem levado os talk shows a priorizarem conteúdos sensacionalistas, controversos e emocionalmente carregados. Não poucas vezes, os temas são exagerados ou dramatizados para maximizar o impacto emocional e garantir maior engajamento.

Mas, mesmo nesse prisma, os talk shows podem priorizar histórias que apresentam soluções para problemas sociais, exemplos de resiliência e iniciativas comunitárias bem-sucedidas, abordando questões complexas de maneira educativa, ajudando o público a compreender melhor os problemas e as possíveis soluções.

Ao adoptar essas estratégias, os talk shows podem desempenhar um papel crucial na construção de um debate público mais equilibrado e informado, contribuindo para uma sociedade mais justa e consciente.

Afinal, o mundo não é tão mau quanto a Síndrome do Mundo Mau sugere. A percepção de que o mundo é extremamente violento e perigoso é, em grande parte, um produto da desproporcional ênfase da mídia em eventos negativos e sensacionalistas.

Atenção que não estamos a negar a existência de desigualdades de renda e acesso a recursos em muitas partes do mundo, nem a ignorar a batalha contra o racismo, sexismo e outras formas de discriminação, que ainda afectam muitas comunidades, assim como a frequência dos conflitos regionais, terrorismo, perseguições e crises económicas que continuam a forçar milhões de pessoas a fugir das suas casas.

Entretanto, também há ganhos mundiais nas últimas décadas, como as melhorias no acesso a educação e saúde, aumento da expectativa de vida e melhoria da qualidade de vida, a diminuição das guerras e conflitos inter-Estados comparativamente aos séculos passados.

O mundo tem muitos desafios. Mas é evidente que a Síndrome do Mundo Mau distorce a percepção da realidade ao focar desproporcionalmente nos aspectos negativos.

O que se pede é um equilíbrio na compreensão do mundo, reconhecendo tanto as dificuldades quanto às conquistas, para a agenda priorizar a visão mais precisa e optimista do mundo, em particular de Angola.

*Jornalista e escritor

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