
Era sábado em Luanda e o palco foi o município do Cacuaco. O MPLA decidiu desfilar a sua força em apoio ao presidente João Lourenço, um líder que já sente o peso do tempo e o crepitar das últimas brasas no fogareiro da presidência.
Restam-lhe dois anos de mandato, mas antes disso terá de atravessar o corredor estreito e escorregadio da sucessão dentro do partido.
A cadeira de chefe já range e, pelas sombras, aparecem nomes como Fernando da Piedade dos Santos e Higino Carneiro, entre outros generais da política que farejam a oportunidade como hienas diante de uma presa cansada.
Na prática, parecia mais uma última chamada para os fiéis, como se a locomotiva já estivesse na estação, mas com carvão a acabar.
O evento foi uma guerra de imagens. Cada fotografia publicada nas redes sociais era como uma seta lançada para construir a percepção de uma multidão fiel, vibrante e numerosa. Mas números, como se sabe, podem mentir.
Já mentiram em 2022, quando as ruas se encheram de gente e bandeiras vermelhas tremulavam em todo canto, mas nem isso bastou para salvar o partido da derrota em Luanda.
A capital virou as costas ao MPLA pela primeira vez na história das eleições angolanas. Foi a prova de que a matemática da política não se resume a cabeças contadas, mas a corações convencidos.
É verdade: o partido no poder tem talento para encher praças. Afinal, quem controla a torneira do emprego público e a régua dos cargos tem sempre uma isca eficaz. Uns vão por conveniência, outros por sobrevivência, e uns poucos ainda por amor genuíno ao partido.
O problema é que em Luanda vivem mais de seis milhões de almas. Colocar algumas dezenas de milhares na rua não é milagre, é rotina. O anormal seria o contrário: uma festa do MPLA sem multidão.
Na lógica jornalística, o caso é simples: cão morde homem. Um não-assunto. Mas a política não se alimenta da lógica, alimenta-se da percepção. E percepção, como já disse um sábio de esquina, é a arte de transformar vento em pão.
Ao mostrar músculo, mesmo que seja músculo de ginásio inflado de suplementos, o MPLA dá uma injecção na veia da sua militância, como quem põe soro num doente em estado grave.
Imaginemos então a cena como numa fábula: o partido é um velho leão, cansado de tantas batalhas, que decide rugir diante da savana. As câmeras captam o rugido e transmitem ao mundo a imagem de força.
Mas quem vive na savana sabe que o leão já não corre como antes e que a sua juba perdeu brilho. Ainda assim, a imagem alimenta a narrativa. E a narrativa, nesse jogo, vale tanto quanto a realidade.
No fundo, vivemos numa fábula: o rei ainda desfila com a coroa, mas os súbditos começam a cochichar sobre quem poderá sucedê-lo.
Mas convém lembrar a moral da história: nem toda enchente é maré. Às vezes, é apenas um balde de água jogado para a fotografia.
*Jornalista e director da Rádio Despertar