
Crescem nos meios políticos indícios de que o Presidente da República e líder do MPLA, João Lourenço, estará a desenhar uma estratégia para permanecer no centro do poder político para além do fim do seu mandato presidencial, apontando a actual primeira-dama, Ana Afonso Dias Lourenço, como possível futura líder do partido e candidata às eleições gerais de 2027.
Analistas, consultados pelo Imparcial Press, são de opinião que a opção de adiar a escolha do candidato presidencial do MPLA para o Congresso Ordinário de Dezembro de 2026 é interpretada como um movimento calculado.
Ao controlar o calendário interno, João Lourenço mantém sob sua influência o processo sucessório, limita o espaço para candidaturas alternativas e preserva margem para se apresentar novamente como líder do partido sem concorrência efectiva.
Nos bastidores, o cenário mais comentado é o de uma sucessão cuidadosamente preparada, na qual Ana Dias Lourenço surgiria como escolha preferencial para assumir a liderança do MPLA e disputar a Presidência da República em Agosto de 2027.
Caso se confirme, esta opção representaria uma viragem profunda na dinâmica interna do partido, levantando receios de uma personalização extrema do poder e de uma transferência directa da influência presidencial para o núcleo familiar.
Este cenário ganha força quando analisado à luz das declarações feitas por João Lourenço em Agosto de 2022, durante um encontro com a Organização da Mulher Angolana (OMA), braço feminino do partido no poder.
Na ocasião, o líder do MPLA afirmou que a escolha de Esperança da Costa como candidata à vice-presidência da República abria caminho para que Angola pudesse, no futuro, ter uma mulher como Presidente da República, desde que fosse candidata do MPLA.
“Estamos a aguardar esse momento chegar. Se isso acontecer, a candidata à Presidência da República terá de ser do MPLA”, afirmou então João Lourenço, sublinhando que o partido estaria a dar “uma grande lição ao mundo” ao promover mulheres para cargos de destaque nas instituições do Estado.
Embora as declarações tenham sido apresentadas como um compromisso com a igualdade de género, críticos entendem hoje que esse discurso poderá ter servido para preparar o terreno político e simbólico para uma candidatura feminina alinhada directamente com a actual liderança do partido, hipótese que ganha consistência com a crescente visibilidade política da primeira-dama nos últimos tempos.
Entretanto, militantes e quadros do MPLA que manifestam, de forma legítima, interesse em concorrer à liderança do partido – no caso do general Higino Carneiro, engenheiro António Venâncio, Fernando Dias dos Santos “Nandó” e companhia – têm enfrentado resistência interna, sendo frequentemente tratados como focos de instabilidade, como fez referencia [João Lourenço] no último comício, em Luanda.
Este ambiente tem sido descrito como hostil ao pluralismo e à alternância, afastando o partido das práticas de debate interno que marcaram períodos decisivos da sua história.
Observadores do Imparcial Press alertam que uma eventual imposição de candidatura, sem consenso interno nem validação popular, poderá fragilizar seriamente o MPLA.
A impopularidade crescente do actual Presidente corre o risco de ser projectada sobre o partido, abrindo espaço para uma derrota eleitoral em 2027, com consequências imprevisíveis para a estabilidade política do país.
À medida que se aproxima o próximo ciclo eleitoral, aumenta a pressão para que o MPLA promova um processo interno aberto, competitivo e transparente, evitando que o partido seja percebido como refém de interesses individuais ou familiares.
Para muitos, o futuro do MPLA dependerá da capacidade de resistir à personalização do poder e de preservar a sua identidade como organização política colectiva.