Angola: 50 anos de Independência: Lições do passado e o desafio de construir os próximos 50 – Arsénio Bumba
Angola: 50 anos de Independência: Lições do passado e o desafio de construir os próximos 50 – Arsénio Bumba
Arsénio Bumba

Em 11 de Novembro de 2025, Angola celebra cinco décadas de independência. Meio século é tempo suficiente para avaliarmos o caminho percorrido e reflectirmos sobre o futuro que queremos construir.

Esta efeméride não deve ser apenas comemorativa, mas também estratégica: um ponto de viragem para definir um rumo claro de desenvolvimento sustentável, inclusivo e inovador.

A história económica de Angola desde 1975 é marcada por contrastes e transições dramáticas. Saímos de um período colonial caracterizado por forte dependência de recursos primários e desigualdades estruturais para mergulhar, logo após a independência, num ciclo de guerras prolongadas que comprometeram a coesão social e impediram investimentos estruturais essenciais. Foram 27 anos em que a prioridade foi a sobrevivência, e não o desenvolvimento.

A paz alcançada em 2002 abriu portas para um crescimento acelerado impulsionado pelo petróleo. Durante quase duas décadas, o país beneficiou de receitas extraordinárias resultantes do boom petrolífero, que financiaram a reconstrução de infraestruturas, projectos de habitação e modernização urbana.

No entanto, esta bonança revelou-se um “crescimento sem transformação”, porque manteve intacta a dependência excessiva do petróleo, a vulnerabilidade às oscilações do mercado internacional e o baixo índice de diversificação produtiva.

É inegável que houve avanços importantes. Melhorámos a infraestrutura rodoviária, consolidámos a estabilidade macroeconómica e realizámos reformas fiscais e cambiais significativas.

Todavia, continuamos a enfrentar desafios estruturais que comprometem o crescimento inclusivo: pobreza persistente, desigualdade social acentuada, um desemprego jovem que corrói a esperança, fraca industrialização e um sector agrícola com enorme potencial ainda por explorar.

Se o passado nos deixa lições, o futuro impõe exigências. O desenvolvimento que Angola almeja para os próximos 50 anos deve assentar em pilares sólidos e claros.

Em primeiro lugar, a diversificação económica deve deixar de ser um discurso e tornar-se uma realidade. A agricultura precisa ser tratada como um pilar estratégico para garantir segurança alimentar e criar cadeias de valor internas que impulsionem a indústria transformadora.

Paralelamente, a aposta em energias renováveis e tecnologias limpas permitirá reduzir a vulnerabilidade às crises externas e preparar o país para a transição energética global.

Em segundo lugar, o capital humano é a verdadeira riqueza de uma nação. Nenhum país alcança prosperidade duradoura sem educação de qualidade.

É urgente uma reforma profunda no ensino, com foco em ciência, tecnologia, inovação e empreendedorismo, para preparar os jovens para competir num mercado global altamente digitalizado.

Por último, mas não menos importante, precisamos de instituições fortes e boa governação. A luta contra a corrupção deve evoluir de ações pontuais para uma cultura nacional de integridade, sustentada por transparência, justiça célere e desburocratização.

Sem um ambiente institucional saudável, não haverá investimento privado robusto, nem confiança para o crescimento.

Os próximos 50 anos serão decisivos para Angola aproveitar oportunidades históricas: a integração regional no âmbito da Zona de Comércio Livre da SADC e Continental Africana (ZCLCA), a economia digital, a indústria 4.0 e a globalização responsável.

Mas tudo isso dependerá de uma condição essencial: estabilidade política, que é a âncora de qualquer projecto de desenvolvimento.

O verdadeiro progresso não é obra isolada de um governo, nem resultado exclusivo do sector privado. É uma construção colectiva que envolve Estado, empresários, academia e sociedade civil.

Precisamos de um pacto nacional que coloque a prosperidade do cidadão no centro das decisões e que assegure que a riqueza do petróleo – e de outros recursos – se traduza em bem-estar para todos, e não apenas para um grupo reduzido.

Celebrar 50 anos de independência é, antes de tudo, um exercício de consciência histórica e de coragem para inovar. O futuro não se improvisa; constrói-se com escolhas consistentes e visão estratégica.

Os próximos 50 anos dependem do que decidirmos hoje. Que sejam decisões orientadas pela inclusão, inovação, justiça social e desenvolvimento sustentável.

Só assim Angola deixará de ser o “gigante adormecido” para se afirmar como uma nação próspera, justa e globalmente competitiva.

*Economista

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